O Brasil tem, segundo balanço divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral em maio, mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar nas eleições presidenciais deste ano. No cenário de primeiro turno divulgado hoje pelo Datafolha e publicado pela Folha de S.Paulo, os 40% atribuídos a Lula correspondem a aproximadamente 63,2 milhões de votos potenciais.
Flávio Bolsonaro, com 31%, teria cerca de 49 milhões de votos potenciais. A diferença entre os dois, de nove pontos percentuais, equivale a aproximadamente 14,2 milhões de eleitores.
A boca do jacaré começou a se abrir.
A soma de todos os demais candidatos, votos em branco, nulos, nenhum e indecisos chega a 29%, ou cerca de 45,8 milhões de eleitores. Ou seja, Lula aparece isolado na liderança, com vantagem superior ao conjunto formado pelo pelotão intermediário, brancos, nulos e indecisos.
A nova pesquisa Datafolha foi publicada nesta sexta-feira, 22 de maio, pela Folha de S.Paulo. O levantamento foi realizado presencialmente com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 139 municípios, nos dias 20 e 21 de maio.
A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
No principal cenário de primeiro turno, sem Michelle Bolsonaro na disputa, Lula marca 40%, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, de 13 de maio, a distância entre os dois era de apenas três pontos.
A mudança em uma semana é relevante: Flávio caiu quatro pontos, enquanto Lula subiu dois. Com isso, a vantagem petista passou de três para nove pontos percentuais.
Ronaldo Caiado aparece com 4%. Romeu Zema, Renan Santos e Samara Martins têm 3% cada.
Augusto Cury marca 2%. Aldo Rebelo, Cabo Daciolo e Rui Costa Pimenta aparecem com 1% cada.
Hertz Dias não pontua. Brancos, nulos ou nenhum somam 9%, e os que não sabem também são 3%.
O dado mais relevante da rodada é o recuo de Flávio Bolsonaro. O senador havia registrado 35% em abril e mantido o mesmo percentual em 13 de maio, mas agora aparece com 31%.
Lula, por sua vez, estava em 39% em abril, oscilou para 38% na pesquisa anterior e chegou agora a 40%. O resultado interrompe, ao menos nesta fotografia, a aproximação de Flávio em relação ao presidente.
No segundo turno, Lula também aparece à frente. O presidente marca 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro.
Considerando o universo de 158 milhões de eleitores aptos, isso equivale a cerca de 74,3 milhões de votos potenciais para Lula e 67,9 milhões para Flávio. A diferença de quatro pontos corresponde a aproximadamente 6,3 milhões de eleitores.
Na rodada anterior, de 13 de maio, os dois estavam empatados em 45%. Esse percentual equivalia a cerca de 71,1 milhões de votos potenciais para cada um, sempre considerando o eleitorado total apto e sem descontar abstenções.
A série do segundo turno mostra uma disputa que vinha se estreitando desde o fim de 2025. Lula tinha 51% em dezembro, caiu para 46% em março, chegou a 45% em abril e repetiu esse percentual em 13 de maio.
Flávio fez o movimento inverso nesse período. Saiu de 36% em dezembro, subiu para 43% em março, chegou a 46% em abril e empatou com Lula em 45% na pesquisa anterior.
Na nova rodada, porém, a curva se inverteu. Lula voltou a 47%, enquanto Flávio recuou para 43%.
A pesquisa ocorre após a repercussão do caso “Dark Horse”, revelado pelo Intercept Brasil, envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O episódio gira em torno da tentativa de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, prevista para ser lançada em meio ao ciclo eleitoral.
Segundo as reportagens publicadas sobre o caso, Flávio buscou apoio de Vorcaro para o filme em valores milionários. Parte das apurações aponta repasses já identificados e tratativas sobre cifras bem mais altas, ainda sob disputa política e investigação jornalística.
O caso também envolve suspeitas sobre o uso indireto de dinheiro público. A produtora ligada ao filme recebeu mais de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda, mas há questionamentos sobre a quantidade efetivamente entregue em relação ao que havia sido prometido.
Outra frente envolve emendas parlamentares destinadas por deputados bolsonaristas a entidades e empresas ligadas ao entorno da produção. O STF também passou a cobrar explicações sobre a destinação de recursos e sobre a viagem internacional de Mario Frias, produtor-executivo de “Dark Horse”, ao Bahrein e aos Estados Unidos.
O trecho mais constrangedor da crise veio com a divulgação das conversas e áudios. Em uma das mensagens, Flávio trata Vorcaro em tom de intimidade e escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
A frase pegou mal porque contrastou com as explicações posteriores do senador. Primeiro, Flávio tentou reduzir o vínculo com Vorcaro; depois, diante das mensagens e áudios, ficou evidente que a relação era bem mais próxima do que a versão inicial sugeria.
O próprio Flávio Bolsonaro confirmou depois que esteve pessoalmente na casa de Vorcaro quando o banqueiro estava em prisão domiciliar. Segundo ele, a visita teria ocorrido para “pôr um ponto final” nas tratativas sobre o filme, explicação que abriu nova rodada de questionamentos.
Também entrou no radar a viagem de Mario Frias ao Bahrein. No campo das suspeitas políticas, a ida ao país passou a ser associada por críticos à pergunta sobre o destino de recursos ainda não esclarecidos, embora não haja confirmação pública de que dinheiro do projeto tenha sido movimentado no exterior.
O desgaste aparece na pesquisa. Segundo a Folha, 64% dos entrevistados disseram ter ouvido falar do caso “Dark Horse”, e o mesmo percentual avaliou que Flávio Bolsonaro agiu mal no episódio.
A reportagem registra que o levantamento anterior havia sido feito em parte antes de o caso ganhar maior repercussão pública. A nova rodada, por sua vez, foi realizada já com o episódio amplamente conhecido pelo eleitorado.
O Datafolha também testou Michelle Bolsonaro como possível alternativa da direita. No cenário de segundo turno contra Lula, ela aparece com 43%, enquanto o presidente marca 48%.
No primeiro turno, porém, Michelle tem desempenho inferior ao de Flávio. Ela aparece com 22%, contra 41% de Lula.
Como diria o Henfil, tem uma esperança despontando no horizonte!





Luciana
23/05/2026
Gente, o jacaré vermelho sumiu perto desse áudio do Flávio Bolsonaro com o banqueiro do Master! Eu aqui ralando pra pagar juro de cartão e encher o tanque, enquanto esses caras negociam milhões por WhatsApp como se fosse troco de padaria. O povo chia com fofoca política mas esquece do prato de comida que só sobe.
Pedro
23/05/2026
Esquece o jacaré, a notícia do dia é outra! A gente aqui contando moeda pra encher o tanque e pagar IPVA em dia, enquanto os caras trocam milhões em áudio de WhatsApp como se fosse troco de padaria. Esse papo de liberalismo é bonito no discurso, mas na prática é balcão de negócios pra financiar filminho de ex-presidente com dinheiro de banqueiro preso. Se eu fizer uma corrida sem nota, sou sonegador; eles chamam de “estratégia jurídica”.
Marta Souza
23/05/2026
Deixando o jacaré de lado por um segundo, e essa bomba? Enquanto o Capitão Tavares chama de “imprensa vermelha”, o áudio tá aí, cristalino: milionário cobrando milionário pra bancar filminho de ex-presidente. Liberalismo de verdade é concorrência e mérito, não esse balcão de negócios com banqueiro preso. Eu pago imposto pra sustentar Estado inchado e ainda tenho que ver esse tipo usando esquema financeiro como se fosse cota de condomínio.
Capitão Tavares 🇧🇷
23/05/2026
Enquanto a galera viaja na maionese com jacaré, o bicho tá pegando em Brasília! Esse áudio vazado é o de menos. A imprensa vermelha, com o The Intercept de fachada, quer desestabilizar o clã que ainda luta pelo Brasil. Enquanto isso, o sistema apodrece e ninguém mexe com os verdadeiros corruptos. Muita gente vai chorar quando as Forças Armadas finalmente restaurarem a ordem neste país à deriva.
Ricardo Almeida
23/05/2026
Capitão Tavares, a evocação das Forças Armadas como entidade redentora é justamente o atalho retórico que sufoca o debate sobre o áudio — o método é tão dogmático quanto o sectarismo que o senhor denuncia na imprensa. Se o sistema apodrece como diz, a ordem não se restaura por decreto de farda, mas com transparência sobre quem cobra dinheiro de banqueiro investigado.
Lurdinha Deus Acima de Todos
23/05/2026
Parem de falar de jacaré e leiam sobre o áudio do Flávio Bolsonaro! Enquanto tentam derrubar o Flávio, o plano globalista é fechar as igrejas e prender os cristãos! 🇧🇷🙏🇺🇸
João Silva
23/05/2026
Lurdinha, é sintomático que a ameaça real de um áudio comprometedor seja imediatamente transmutada em pânico metafísico sobre globalismo e perseguição religiosa — a consciência de classe se esvai quando a cruz é usada como escudo para blindar transações financeiras obscuras.
Mariana Costa
23/05/2026
Gente, o jacaré vermelho sumiu perto desse áudio do Flávio Bolsonaro com o banqueiro do Master! Enquanto uns gritam ‘armação comunista’ e outros já pedem CPMI, o que fica mesmo é a contradição flagrante de Flávio. Não é esquerda ou direita, é investigação básica que se impõe. Se o áudio é falso, que se prove; se é verdadeiro, que se explique.
Marina Costa
23/05/2026
Enquanto a galera viaja na maionese com jacaré, o bicho tá pegando em Brasília! Graças a Deus que ainda há sensatez por aqui. Marcos falou o que todo cristão de bem pensa: é só mais uma montagem da mídia comunista para atacar os defensores da moral. Sigamos orando e confiando no projeto de Deus para o Brasil, que o inimigo não prevalecerá.
Marcos Conservador
23/05/2026
Enquanto a galera viaja na maionese com jacaré, o bicho tá pegando em Brasília! Isso é cortina de fumaça da esquerda, o áudio deve ser montagem grosseira do mesmo jeito que fizeram com a facada. A mídia comunista treme de medo do mito voltar e apela pra invencionice.
Mateus Silva
23/05/2026
Marcos, sua hipótese de montagem é exatamente o que Gramsci chamaria de “cimento ideológico” em estado puro — a função dessa narrativa não é descrever a realidade, mas impedir que seu próprio campo perceba a fratura exposta no bloco histórico que sustentava o mito. O áudio não é invencionice, é o sintoma de que a forma-mercadoria invadiu a política familiar: quando o capital cobra do capital em voz alta, a cortina de fumaça está justamente em chamar isso de cortina de fumaça.
Adriana Silva
23/05/2026
Parem de falar de jacaré e leiam sobre o áudio do Flávio Bolsonaro! Isso é armação da mídia comunista pra perseguir o mito. Vai pra Cuba, Intercept!
Julia Andrade
23/05/2026
Adriana, seu comentário é a própria síntese de um mecanismo de defesa que a cultura política brasileira aperfeiçoou nos últimos anos: a redução de toda denúncia a uma “armação comunista”. Mas paremos um instante para pensar como essa gramática opera. Ela não apenas desqualifica a evidência — no caso, um áudio — como também interpela você, enquanto mulher, a se colocar como guardiã de uma figura masculina que se apresenta como mito. Esse apelo emocional ao mito não é só uma estratégia de campanha; é a reiteração de um pacto patriarcal em que a lealdade feminina se torna dever de proteger o líder a qualquer custo, inclusive da verdade. A estrutura do messianismo político é profundamente generificada: o salvador é homem, viril, perseguido, e cabe às suas devotas rechaçar os “inimigos” — comunistas, jornalistas, feministas — que ousam questionar sua integridade. É um enredo que se repete desde os discursos de conspiração da Guerra Fria, quando o rótulo de “comunista” servia para silenciar dissidências e legitimar a violência do Estado, inclusive contra mulheres que lutavam por direitos.
O convite para “ir a Cuba” é igualmente revelador: ele opera como um interdito que transfere o debate para um campo fantasioso, onde qualquer questionamento vira defesa de um regime totalitário. O Intercept Brasil não é um braço do comunismo internacional; é uma organização jornalística que, aliás, já expôs esquemas de corrupção que atravessam governos de diferentes colorações partidárias — inclusive os do PT. Mas o incômodo de gente como você não está no conteúdo, mas na quebra da narrativa que sustenta o personagem do mito. O áudio, com Flávio Bolsonaro cobrando dinheiro de um ex-banqueiro preso, não vazou do nada: ele é peça de um inquérito, está sob análise do STF, e sua materialidade independe da militância ideológica de quem o divulga. Tratar tudo como armação é abdicar da possibilidade de julgar os fatos e, mais grave, é reforçar uma cultura de impunidade que sempre protegeu os homens no poder — afinal, se toda acusação é uma conspiração, não sobra espaço para a responsabilização.
O que a defesa do mito realmente esconde é um desespero identitário: para muitas de suas seguidoras, admitir que o ídolo possa ter praticado atos ilícitos é demolir a própria subjetividade, construída em torno da ideia de que ele representa a moral, a família e a ordem. Como estudiosa da cultura, eu convido você a refletir: o que essa devoção diz sobre a posição que as mulheres ocupam nesse projeto de poder? Não seriam elas, mais uma vez, as fiéis escudeiras de um pacto que as usa para blindar homens enquanto aprofunda desigualdades — inclusive de gênero? Ao invés de brandir o fantasma do comunismo, talvez fosse mais honesto olhar para o áudio e se perguntar por que, mesmo diante de indícios robustos, a reação imediata é proteger o mito em vez de exigir explicações. A emancipação começa quando paramos de tratar políticos como divindades intocáveis e passamos a cobrar deles a mesma retidão que exigimos da faxineira, da professora ou da mãe solo.
John Marshall
23/05/2026
Deixando o jacaré de lado por um segundo, e essa bomba? O trágico nesse espetáculo não é a contradição em si — Hobbes já nos ensinou que o homem é movido por desejos e aversões, e a retórica moral muitas vezes é só véu para o interesse privado. A frase “irmão, estou e estarei contigo sempre” ecoa menos a fraternidade cristã que o clã apregoa e mais a lealdade indistinta entre capital e poder político, algo que Marx descreveria como a anatomia da sociedade civil burguesa. Quando Wassef assume a defesa, fecha-se um ciclo que nem Locke conseguiria racionalizar: o contrato social reduzido a contrato de gaveta, com áudios que revelam como o patrimonialismo à brasileira não tem partido, mas tem sobrenome.
João Batista Alves
23/05/2026
Enquanto a galera viaja na maionese com jacaré, o bicho tá pegando em Brasília! Meu filho, como é triste ver figuras que se dizem defensoras da família se enredarem nesse lamaçal financeiro. Não adianta culpar “comunismo” quando as provas estão aí — o pecado da ganância corrói qualquer um, de banqueiros a senadores. Rezo para que a verdade venha à tona e que essa obsessão por dinheiro e poder não destrua de vez os alicerces morais do nosso país.
Márcio Torres
23/05/2026
João, permita-me uma discordância, não quanto à tristeza do espetáculo, mas quanto ao diagnóstico que o senhor sugere nas entrelinhas. O problema não está no “pecado da ganância” corroendo supostos “alicerces morais”. Essa é a moldura que agrada aos que lucram com a ideia de que a política se cura com pregação e reza. Como cientista político, o que me salta aos olhos é a banalidade do mecanismo: não há crise moral alguma, há o funcionamento normal de um sistema patrimonialista, em que o acesso a cargos eletivos é visto como extensão do balcão de negócios da família. O áudio do senador, se autêntico, não revela uma alma dilacerada entre o bem e o mal, mas um operador treinado na arte de converter mandato em comissão, com a frieza de quem sabe que a blindagem ideológica virá em forma de gritos de “comunismo” ou de “perseguição religiosa”. A verdadeira obsessão nunca foi por dinheiro e poder como entidades demoníacas, mas pela naturalização de que o Estado é a despensa do clã.
A ironia sutil que me escapa é ver figuras que se apresentam como bastiões da “família” e da “moral cristã” recorrerem, quando acuadas, ao mesmo script que tanto criticam nos adversários: o “áudio forjado”, a “armação da mídia”, a “intervenção divina” como recurso retórico para não discutir o conteúdo. Clotilde, em seu desespero, terceiriza a própria consciência, como bem apontou Cecília, mas o faz porque dentro do ecossistema bolsonarista a responsabilidade é sempre externa. Enquanto a militância fechar os olhos para as maracutaias do próprio campo, o “lamaçal financeiro” que o senhor menciona continuará sendo a paisagem permanente de Brasília, independentemente de quem ocupe o Planalto. E, nesse cenário, rezar pela verdade é bonito, mas não substitui a exigência de investigação, quebra de sigilos e responsabilização penal sem anistia familiar.
Onde vejo o senhor acertar em cheio é na constatação de que a guerra de torcidas cansa. Cansa ver o cinismo seletivo que transforma corrupção em debate de arquibancada. Mas a saída não é dobrar a aposta na retórica do “pecado” — isso apenas revitaliza o discurso dos líderes que, no púlpito, choram pela pátria enquanto os parentes enchem os bolsos. A saída é tratar o caso Flávio-Vorcaro como tratamos qualquer outro: sem o véu da perseguição política, sem a blindagem dos ungidos. Se a verdade viesse à tona e a “obsessão por dinheiro” fosse mesmo um desvio do caráter nacional, a próxima eleição já a varreria. Mas a lógica da política brasileira mostra que o eleitor perdoa o corrupto que é “dos nossos” e crucifica o do outro lado. Por isso, a corrosão moral de que o senhor fala não vem do inferno, João; é bem terrena, alimentada por líderes que aprenderam a usar Deus como escudo e o Estado como fonte de renda. E enquanto o debate público se apegar a categorias religiosas para explicar o que é essencialmente um problema de instituições frágeis, o próximo escândalo já está sendo gestado — com ou sem áudio vazado.
Pedro Silva
23/05/2026
Deixando o jacaré de lado por um segundo, e essa bomba? Ô louco, mais um áudio que aparece do nada e todo mundo já começa a apontar dedo pra todo lado. Político e banqueiro sempre tão de mãos dadas, a gente já sabe, mas o que me cansa é essa guerrinha de torcida: se é dos “meus”, foi montagem; se é dos “outros”, é prova de tudo. No fim, quem paga a conta do filminho e das maracutaia é sempre a gente, na corrida e no imposto.
Clotilde Pátria
23/05/2026
Vcs discutindo jacaré e a verdadeira bomba acontecendo: Meu Deus, mais uma armação descarada do comunismo pra tentar destruir a família Bolsonaro! Flávio jamais se prestaria a esse papel, isso é áudio forjado por essa mídia podre que mama nas tetas do PT. Daqui a pouco vão descobrir que esse banqueiro corrupto é amigo de quem realmente assaltou o Brasil com o petrolão, podem esperar. Intervenção divina urgentemente, só Jesus pra limpar essa república de tanta perseguição política!
Cecília Ramos
23/05/2026
Clotilde, clamar por intervenção divina toda vez que um áudio comprometedor aparece não é fé, é terceirização da consciência. Justiça social também significa responsabilizar quem transforma o Estado em balcão de negócios, independentemente do sobrenome.
Pedro Neto
23/05/2026
Parem de falar de jacaré e leiam sobre o áudio do Flávio Bolsonaro! Faz o L que o áudio milagrosamente vira montagem, confia.
Ronaldo Pereira
23/05/2026
Pedro, o áudio não precisa de montagem pra cheirar a trambique — precisa de um banqueiro preso, um senador cobrando e uma militância que fecha os olhos. É isso que a classe trabalhadora enfrenta todo dia: patrão se enrolando na própria maracutaia enquanto a gente sua na linha de produção.
Marcos Andrade Niterói
23/05/2026
Gente, o jacaré vermelho sumiu perto desse áudio do Flávio Bolsonaro com o banqueiro do Master! Enquanto o clã Bolsonaro se afoga em áudio cobrando grana de banqueiro corrupto, fico pensando na diferença brutal entre esse patrimonialismo de quinta categoria e a seriedade de gestão que a gente vê em Niterói com o Rodrigo Neves. Ninguém precisa de filminho cultuando mito, precisa é de túnel Charitas-Cafubá, metrô sob a Baía e coragem de enfrentar o descaso do governo estadual.
Clarice Historiadora
23/05/2026
Deixando o jacaré de lado por um segundo, e essa bomba? A insistência em chamar isso de perseguição religiosa é uma tentativa pueril de revestir com teologia aquilo que Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, dissecou como patrimonialismo estamental brasileiro. Cobrar repasses milionários de um banqueiro preso para financiar uma cinebiografia do próprio pai não é defesa da moral cristã, é o fisiologismo em estado puro, com Wassef escalado para o papel de anjo caído da advocacia. Enquanto isso, a turma dos chakras alinhados segue confundindo Max Weber com Paulo Coelho, e o resultado é essa geleia mental que blinda o óbvio.
Renato Professor
23/05/2026
Ninguém vai falar do Flávio Bolsonaro mendigando grana pro banqueiro? A insistência em tratar um esquema explícito de transferência de recursos de um banqueiro fraudulento como mero “alinhamento de chakras” é o sintoma mais evidente da falência cognitiva do pensamento liberal-conservador brasileiro — eles sequer compreendem que a economia solidária se funda precisamente na transparência das relações de troca e na rastreabilidade do valor, não em áudios cifrados negociando repasses para filmes biográficos. Enquanto Wassef tenta tapar o sol com a peneira processual, o clã Bolsonaro escancara na prática aquilo que a sociologia econômica há décadas demonstra: o patrimonialismo tupiniquim não resiste a um simples print de WhatsApp.
Miriam
23/05/2026
Esquece o jacaré, a notícia do dia é outra! Áudio vazado, cobrança de dinheiro de banqueiro preso e a defesa agora é alinhamento de chakras? No serviço público a gente aprende que documentação e transparência são o básico. Enquanto não apresentarem as notas fiscais desse filme, a contradição fica cada vez mais difícil de engolir.
Evelyn Olavo
23/05/2026
Parem de falar de jacaré e leiam sobre o áudio do Flávio Bolsonaro! Só rindo desses comentários sobre jacarés enquanto a conjunção astrológica entre Plutão retrógrado e o signo do patrimônio escancara o óbvio: Flávio está apenas alinhando os chakras financeiros do clã, como previu o sábio que ensinou que “o Estado é o único ladrão que a lei protege”. Quem entende de geopolítica terraplanista sabe que o verdadeiro crime é acreditar no Banco Central, não no Banco Master. Acordem, normies.
Cristina Rocha
23/05/2026
Evelyn, sua tentativa de diluir um áudio que escancara a cobrança de dinheiro vivo de um banqueiro preso numa geleia de plutão retrógrado e chakras financeiros é, no mínimo, uma aula involuntária de como o pensamento mágico serve de escudo para o mais rasteiro patrimonialismo. Não preciso ser adepta de conjunções astrológicas para enxergar a materialidade do fato: um filho do ex-presidente, operando nos poros do Estado que seu clã tanto diz combater, aparece exigindo recursos de quem está sob a tutela do sistema que eles próprios aparelharam. Esse não é um “alinhamento energético”, é a forma concreta como o patriarcado brasileiro se reproduz: pelo pacto de sangue entre homens que se protegem, pelos arranjos de gabinete que privatizam o fundo público e pela blindagem midiática que reduz tudo a uma metafísica de botequim.
O aforismo libertário que você cita, “o Estado é o único ladrão que a lei protege”, é a chave-mestra de um discurso que finge ignorar que o verdadeiro roubo não está na instituição abstrata, mas na captura do aparato estatal por famílias que transformam a coisa pública em extensão do patrimônio privado. O Banco Master não é uma entidade virginal violentada pelo Banco Central; é um agente financeiro que prosperou na mesma lama neoliberal onde a especulação se torna virtude e a lógica do rentismo suga o trabalho de milhões. Quando você reduz o escândalo a uma disputa entre crenças — “acreditar no Banco Central ou no Banco Master” —, você apaga a exploração de classe que une essas instituições e ignora que o tal “ladrão” estatal só rouba para quem já está dentro do balcão, como a família Bolsonaro, que tem décadas de mamata parlamentar e miliciana.
E já que você evoca a “defesa dos valores cristãos e da família” que a Ana Paula Conserva mencionou, pergunto: qual família? A família como metáfora da ordem moral, com seu chefe provedor e sua prole submissa, é justamente a célula nuclear do capitalismo que Marx já denunciava no Manifesto. O clã Bolsonaro é a caricatura escrachada dessa estrutura: um patriarca que distribui cargos e dota suas crias com capital político, enquanto as mulheres servem de moldura silenciosa. O áudio do Flávio não é um desvio de conduta, é a continuidade lógica de um modelo em que o cuidado, a ética e o comum são desprezados em nome do privilégio masculino de sugar o mundo. Chamar isso de “alinhar chakras” é uma violência simbólica contra todas as mulheres que historicamente foram confinadas ao reino do intuitivo e do místico para que os homens pudessem gerir, sem culpa, o reino sujo do dinheiro.
Por fim, seu convite para que “normies” acordem é o típico elitismo de quem transforma a ignorância política em pose de iluminação. A geopolítica terraplanista não é uma leitura subversiva do mundo, é o avesso perfeito da razão crítica: troca-se a análise das relações sociais de produção e do imperialismo por uma cosmologia de conspiração que, no fim, apenas legitima o poder de quem sempre ganhou — os donos do capital. O pânico no clã Bolsonaro não vem de uma dança de planetas, vem do medo atávico de que o pacto de impunidade se rompa. E se há jacarés nessa história, eles não estão no Estado “ladrão”, mas nos pântanos da acumulação primitiva que essa gente defende com unhas, dentes e áudios comprometedores.
Ana Paula Conserva
23/05/2026
Esquece o jacaré, a notícia do dia é outra! Só perseguem essa família porque ela é a única que ainda defende os valores cristãos e a moral nesse país decadente. Deixem de hipocrisia: o que querem é destruir quem ousa levantar a bandeira da família e do temor a Deus.
Padre Antônio Rocha
23/05/2026
Enquanto discutem metáforas zoológicas, esquecem que a verdadeira chaga é a alma secularizada deste país. Abandonamos o temor a Deus e agora colhemos jacarés de toda laia — vermelhos, azuis, pouco importa a cor quando o vício é o mesmo: um Estado que usurpa o lugar do Altíssimo para distribuir miséria moral. Sem restaurar a família como célula mater da sociedade, todo asfalto não passará de lápide do que já fomos.
João Carvalho
23/05/2026
Papinho bonito aqui nos comentários, mas o jacaré de verdade é o imposto que morde meu salário todo mês. Enquanto essa turma fica filosofando sobre metáfora, eu tô na roleta vendo o diesel disparar e o governo enfiando a mão no meu bolso.
Mariana Oliveira
23/05/2026
Enquanto a thread se desdobra em metáforas zoológicas e frases de efeito libertárias, eu me pergunto onde estão as pessoas que efetivamente carregam o peso desses “jacarés” no lombo. Não é novidade que o debate público adora personalizar problemas estruturais: o réptil muda de cor conforme o governo, mas o ecossistema que o alimenta segue intacto. O curioso é que, entre planilhas e asfaltos, quase ninguém menciona que a carga tributária brasileira, quando combinada com o desmonte de políticas sociais, não morde do mesmo jeito um homem branco de classe média e uma mulher negra periférica. A regressividade tributária tem cor, gênero e CEP. Como bem nos lembra Kimberlé Crenshaw, a interseccionalidade não é uma abstração acadêmica: é a ferramenta que expõe como sistemas de opressão se sobrepõem e recaem com força desproporcional sobre corpos já historicamente violentados. Então não me venham com esse conto de que todo mundo é igualmente devorado.
O tal “mercado que não se engana”, exaltado por alguns comentaristas, é o mesmo que transforma trabalho doméstico não remunerado em motor invisível da economia formal — e que, quando regulado pelo Estado mínimo que idolatram, deixa essas trabalhadoras literalmente à míngua em crises sanitárias. Reparem: a discussão aqui atolou num falso dilema entre Estado perdulário e mercado virtuoso, como se fossem entidades puras e apartadas da realidade. bell hooks ensinou que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas uma pedagogia cultural que nos ensina a naturalizar a exploração, a competição e o descarte. O asfalto citado por Pedro Almeida não cai do céu nem brota da mão invisível: ele é produto de relações de trabalho racializadas, de contratos superfaturados que enriquecem poucos e de operários que adoecem sem licença médica. A pergunta certa não é se o imposto é roubo, mas quem rouba de quem, e quem morre enquanto debatemos zoologia política.
Me preocupa que até vozes progressistas entrem nesse jogo de planilhas sem incluir as vidas que as planilhas ocultam. Dizer que os buracos são “falhas de gestão” é um eufemismo perigoso: sob o capitalismo racializado brasileiro, a falha de gestão é projeto. Cada via esburacada em bairro periférico, cada serviço público sucateado, cada equipamento de saúde faltando não é acidente — é decisão orçamentária que privilegia juros da dívida pública em detrimento de creches, casas de acolhimento e delegacias da mulher. Enquanto os debatedores se entretêm com a coloração do jacaré, as feministas negras seguem apontando o óbvio: sem um Estado que redistribua riqueza e enfrente ativamente o racismo e o machismo estruturais, a “liberdade” propagandeada pela direita é licença para os lobos. A mão invisível do mercado, quando não é contida por um projeto político comprometido com justiça social, é uma mão que estrangula.
A ironia é que o artigo disparador trata de um cenário eleitoral onde a simples possibilidade de retorno de um projeto minimamente comprometido com as camadas populares já é tratada como ameaça apocalíptica — o tal jacaré vermelho. Mas um olhar interseccional revela que o problema nunca foi a cor do réptil, e sim a disposição de qualquer governo em encarar as fundações podres sobre as quais o bicho repousa. A esquerda institucional, quando chega ao poder, precisa ser tensionada para além da conciliação de classes: só uma agenda que coloque as mulheres negras no centro do orçamento público pode começar a desmontar a engrenagem que faz o contribuinte de baixa renda sustentar os lucros do andar de cima. Enquanto essa chave não vira, podemos continuar nos deleitando com duelos de metáforas entre comentaristas supostamente antagônicos, mas que concordam no principal: apagar de cena as verdadeiras vítimas do jacaré, vermelho ou verde.
Eduardo Teixeira
23/05/2026
Bonito ver a turma debatendo zoologia política enquanto a carga tributária bate recorde. Esse papo de ‘rua asfaltada’ só cola em quem nunca viu o custo real do asfalto público. O mercado não se engana: sem ajuste fiscal, o jacaré sempre é o contribuinte.
Carlos Mendes
23/05/2026
O Rick foi direto ao ponto: enquanto houver um Estado imenso distribuindo dinheiro alheio, os jacarés de todas as cores continuarão se reproduzindo. Aliás, Marina, essa rua que você menciona foi asfaltada com o dinheiro que o Estado tomou de quem produz — e ainda entrega metade com buracos.
Pedro Almeida
23/05/2026
Carlos, a planilha esquece que as ruas asfaltadas com impostos são justamente as que levam o trabalhador à fábrica. Como nos lembra Polanyi, sem a mão do Estado, o mercado transforma terra, trabalho e dinheiro em mercadorias autodestrutivas — os buracos são falhas de gestão, não a prova da inutilidade do poder público.
Rick Ancap
23/05/2026
Imposto é roubo, vermelho ou verde, esses jacarés só existem porque o estado dá dinheiro pra eles.
Marina Silva
23/05/2026
Imposto é roubo? Devolve a rua que tu pisa, Rick, e vai andar em cima de planilha.
Paulo Gestor RJ
23/05/2026
Enquanto a thread debate zoologia política, fico pensando nos números que realmente importam: custo fiscal, marcos de entrega, taxa de execução. Gerir uma cidade como Niterói ensinou que viabilidade se mede em planilha, não em metáfora.
Tiago Mendes
23/05/2026
É curioso como a linguagem do debate político entre cristãos recorre a bestiários para desumanizar quem vota diferente, enquanto a Bíblia insiste que cada pessoa é imagem de Deus. O critério do juízo final em Mateus 25 não é ortodoxia ideológica, mas se demos comida ao faminto e acolhemos o estrangeiro. Talvez o tal “jacaré” volte a morder justamente porque tem muita gente com fome de pão e de dignidade — e isso não é doutrinação, é a realidade que a teologia da prosperidade insiste em ignorar.
Cíntia Ribeiro
23/05/2026
O ponto central que nossa colega homônima levanta merece desdobramento: a insistência em demonizar o voto alheio como fruto de manipulação mascara a falha das instituições em interpretar preferências reais. Enquanto o debate público se perde em zoologia política de baixo orçamento, seguimos adiando a pergunta sobre quais incentivos e pactos sociais os campos políticos estão, de fato, oferecendo ao eleitor.
Cíntia Alves
23/05/2026
Acho curioso como metade dessa thread ainda acredita que o monstro mora só no quintal do vizinho. Enquanto um lado vê o jacaré vermelho e o outro enxerga o porco, a gente segue sem perguntar por que tantos eleitores escolhem justamente o animal que a elite econômica e a militância moralista tanto desprezam. Alguém aí já parou pra ouvir esse eleitor sem tentar explicar pra ele o que ele deveria pensar?
Natailia
23/05/2026
O animal da foto ta mais para um porco que um jacaré.
Helton Barros
23/05/2026
Esse réptil vermelho só sai da toca porque a mídia amestrada e as ONGs globalistas lavam a mente do povo com migalhas. Enquanto famílias de bem oram de joelhos, o sistema golpista segue empurrando aborto e doutrinação sexual para as criancinhas. Acorda, Brasil!
Ana Karine Xavante
23/05/2026
Helton, é curioso como a sua imagem do réptil escarlate que sai da toca, untado pela mídia e pelas ONGs globalistas, opera uma inversão quase perfeita da realidade que nós, povos originários, vivemos na carne e no território. Enquanto o senhor ergue a bandeira das famílias de bem ajoelhadas, as minhas parentas e os meus parentes estão de pé, barrando madeireiros ilegais e garimpeiros que envenenam os rios com a bênção velada de um agronegócio que se apresenta como arauto da moral e da produção. O jacaré vermelho que o senhor demoniza é, no fundo, um espantalho retórico que serve para esconder os verdadeiros predadores: as motosserras e as pás carregadeiras que avançam sobre a Amazônia e o Cerrado enquanto as joelheiras se gastam em orações por pautas que jamais ameaçaram a existência concreta de nossas crianças. A doutrinação que o senhor denuncia é pálida diante do massacre cotidiano que a colonialidade impõe, tirando da nossa boca a língua ancestral, o peixe sem mercúrio, o céu sem fumaça de queimada criminosa.
A sua retórica sobre ONGs globalistas que lavam mentes carrega um colonialismo tão estrutural que nem se enxerga no espelho. Quem lava a mente do povo, Helton, é uma estrutura de poder que há quinhentos anos chama de selvagens, de atrasados, de obstáculo ao progresso aqueles que ousam viver em comunhão com a terra. As organizações que o senhor ataca são, em muitos casos, as que documentam o sangue derramado em conflitos fundiários, as que seguram a linha de frente jurídica quando as leis nacionais são atropeladas pelo lobby ruralista. Acusar essas vozes de serem globalistas é desviar o olhar do real poder transnacional que opera sem bandeira: o capital extrativista que drena minérios e biodiversidade do Sul Global para sustentar o conforto moral do Norte, enquanto aqui dentro se repete o mantra de que o problema são as criancinhas que aprendem sobre diversidade.
O senhor fala em sistema golpista, mas o golpe mais antigo e mais duradouro contra este país é o epistemicídio que apaga as cosmogonias indígenas e coloca no lugar uma única forma de ser família, uma única forma de habitar o mundo, uma única forma de rezar. As minhas ancestrais tinham seus próprios modos de viver a sexualidade e o corpo, modos que foram demonizados pela cruz colonial antes mesmo de existir a palavra doutrinação no vocabulário político brasileiro. O que o senhor chama de defesa da família é, no meu território, a imposição de uma moral estrangeira que nos obriga a abandonar as nossas medicinas, os nossos rituais de cuidado com o corpo, as nossas narrativas de gênero que escapam ao binarismo europeu. O verdadeiro ataque aos nossos filhos não vem de cartilhas, vem da subnutrição, da falta de cisternas, do descaso com a saúde indígena que é pauta real e que não rende rumor de grupo de mensagem.
Acorda, Brasil, é o que eu também digo, mas em outro tom. Acordar para mim é ver que o réptil que assombra o senhor é uma pintura de guerra que a extrema-direita desenhou para que não se veja a terra sendo roubada debaixo dos nossos pés. Enquanto o senhor aponta o dedo para um inimigo vermelho imaginário, a bancada dos ditos cristãos avança sobre a demarcação das terras indígenas e libera venenos agrícolas que não escolhem a quem intoxicar. A mídia que o senhor chama de amestrada mal cobre o luto de uma aldeia sem água potável, mas dedica horas a inflamar pânicos sexuais que rendem cliques e votos. O jacaré que volta a atacar, Helton, não é o que o senhor pensa. São as mesmas forças que sempre atacaram: a fome de lucro que traveste a destruição de esperança e chama isso de defesa da família.
Carlos Rocha
23/05/2026
Enquanto a intelectualidade brinca de zoológico político, a conta de verdade chega no contracheque de quem produz. Esses 40% não vão pagar a gastança que está por vir — quem paga é o setor privado, sufocado em impostos.
Mariana Santos
23/05/2026
Carlos, o mito do setor privado como vítima exausta dos impostos ignora que a gastança real foi sempre a socialização dos prejuízos: Proer, desonerações bilionárias, juros estratosféricos pagos ao rentismo. O contracheque de quem produz é corroído muito antes do leão — é na financeirização que sangra a classe trabalhadora, e o Estado historicamente serve de escudo para os verdadeiros predadores.
Caio Vieira
23/05/2026
A insistente retórica zoomórfica que titula esta matéria — “O jacaré vermelho volta a atacar” — não é mero floreio jornalístico; ela expõe, com a crueza do senso comum midiatizado, uma zoopolítica profundamente enraizada no imaginário nacional. Ao mobilizar o signo do ofídio-escamoso tingido de rubro, o enunciador aciona simultaneamente o medo ancestral do réptil predador e a cromatização maniqueísta que remonta à Guerra Fria tropical. Trata-se de um dispositivo de metabolização ideológica: a figura do adversário é desumanizada, naturalizando-se como ameaça biológica ao corpo social. Não por acaso, Cícero já advertia, em De Officiis, que a república se desfibra quando a auctoritas cede lugar à bestialitas discursiva. O jacaré, aqui, é o bode expiatório de uma narrativa que oculta as reais criaturas predatórias: as taxas de juros que devoram a economia popular, as plataformas que uberizam o trabalho, o rentismo que sangra o erário. O operador semiótico do “jacaré vermelho” é, portanto, uma cortina de fumaça: enquanto nos entretemos com a suposta volta da fera, a hegemonia do capital financeiro segue seu curso silencioso, como bem desvelou Gramsci ao distinguir domínio e direção intelectual-moral.
Os comentários anteriores, de João Martins, Rubens e Silvia, capturam inadvertidamente a fratura entre a teatralidade estatística e a infrapolítica do cotidiano. A discussão sobre os quarenta por cento e suas margens de erro, ainda que pertinente na superfície, tende a cair naquilo que poderíamos chamar de teologia eleitoral — a crença fetichista nos números como epifania inconteste da vontade popular. Contudo, a lembrança de Rubens sobre o “rancho no mercado” e o troco para a carne, ou a justa indignação de Silvia com a cortina de fumaça sanitária, deslocam o eixo: eles falam, na verdade, da colonialidade do poder que nos condena a uma oscilação entre bonanças efêmeras e crises necropolíticas. Ao recordar o tempo em que o pobre se abastecia sem se endividar, Rubens não faz apologia nostálgica; ele sinaliza a desconstrução sistemática do pacto social básico. Silvia, ao invocar o descalabro pandêmico, denuncia a necropolítica estatal que escolheu, deliberadamente, quais corpos são descartáveis. Ambas as falas, lidas em conjunto, revelam que entre a metáfora zoológica e o debate sobre intenção de voto, há uma silenciosa agonística: a luta pelo comum, pelo direito à vida sem adjetivações pejorativas.
É nessa fissura que se inscreve a solidariedade às lutas empreendedoras do povo, desde que compreendamos “empreendedorismo” não como o ideal neoliberal do eu S.A., mas como a arte da bricolagem sobrevivente, tão cara a Michel de Certeau. As classes subalternas, em Minas ou no Maranhão, inventam cotidianamente táticas de resistência que nenhum instituto de pesquisa consegue mensurar: da horta no quintal ao trabalho por aplicativo, da feira livre ao mutirão de cuidados, há uma economia moral que se recusa a ser reduzida a centavos do PIB. O jacaré vermelho, nessa chave, pode ser até ressignificado: nas cosmogonias populares, o réptil é também o guardião das águas profundas, símbolo de resiliência telúrica. O desafio da sociologia comprometida é justamente abandonar a hermenêutica sofisticada dos discursos oficiais e se deixar interpelar por essa sapiência subalterna que, enquanto a metáfora rasteja, segue construindo o amanhã com as mãos calejadas.
Paulo
23/05/2026
Por que vermelho? O jacaré sofreu uma mutação? Será que tomou vacina, rsrs?
Silvia D.
23/05/2026
O clubinho das metáforas zoológicas diverte, mas enquanto isso a gente perdeu tempo demais na pandemia com cortina de fumaça e cloroquina no lugar de estratégia sanitária de verdade. Saúde coletiva não se resolve com nostalgia de rancho barato nem com teoria sobre predador; se resolve com ciência, vacina e respeito ao SUS.
Rubens O Pescador
23/05/2026
Pois é, falar em jacaré é bonito, mas eu me lembro bem quando o pobre fazia rancho no mercado e ainda sobrava um troco pro gás e pra carne no fim de semana. Agora tão aí brigando por metáfora enquanto o povo faz fiado até o pão.
Dr. Thiago Menezes
23/05/2026
Enquanto o pessoal se diverte com metáforas zoológicas, esqueceram de mencionar que 40% numa pesquisa com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos ainda está dentro do intervalo de intenção de voto que o próprio Datafolha registrou em julho de 2022. Chamar isso de “ataque” ou “volta” sem analisar a série histórica e os intervalos de confiança é só entretenimento disfarçado de análise — e a gente sabe como o algoritmo adora isso.
João Martins
23/05/2026
O debate aqui está carregado de metáforas zoológicas, mas os números do próprio Datafolha merecem um olhar menos passional e mais estatístico. A manchete dá a entender que os 40% de Lula representam uma volta inevitável ou um perigo iminente, dependendo da cor do seu jacaré de estimação. Ocorre que 40% do eleitorado total – lembrando que o TSE fala em 158 milhões de aptos – não é exatamente 40% dos votos válidos. Em 2018, a abstenção beirou 21,6% no primeiro turno, e brancos e nulos somaram quase 11%. Se projetarmos algo similar, os 40% de intenção de voto caem para algo em torno de 27% a 28% do eleitorado total apto. Isso está longe de ser um tsunami: é um terço do país dizendo que prefere o candidato, enquanto a maioria ou não quer ninguém ou busca outra rota. Chamar isso de “ataque” é desprezar a complexidade do colchão de indecisos e descontentes que as pesquisas capturam.
O que me chama atenção é como a discussão rapidamente migra para o campo moral, seja na chave do “Estado ladrão” ou do “mercado predador”. Nenhuma das duas idealizações resiste a cinco minutos de consulta ao portal de dados abertos do Tesouro Nacional. O gasto público primário per capita, corrigido pela inflação, variou menos de 8% em termos reais nos últimos quinze anos, oscilando conforme ciclos políticos, mas sem a montanha-russa que o discurso do “jacaré faminto” sugere. Ao mesmo tempo, o lucro líquido das companhias abertas listadas na B3 cresceu 34% em 2021, mesmo com pandemia. Ou seja: nem o Estado é uma anomalia insaciável que devora tudo, nem o mercado é um jardim autoregulado que dispensa salvaguardas institucionais. As duas narrativas são caricaturas que servem mais para engajar militância digital do que para explicar a realidade macroeconômica.
Outro ponto que os comentários ignoram é a fragmentação do poder real. As pessoas discutem como se o próximo presidente fosse um monarca absolutista, esquecendo que o Congresso eleito em 2018 pulverizou o chamado Centrão em 23 partidos com representação, e o índice de fracionalização efetiva saltou para 16,4 partidos efetivos. Quem quer que seja carregado ao Planalto terá de negociar cada centavo de orçamento com um Parlamento cuja taxa de renovação foi de 47% na Câmara. Isso significa que a probabilidade de qualquer plataforma radical — de esquerda ou direita — ser implementada sem diluição é estatisticamente minúscula. O presidencialismo de coalizão brasileiro não é detalhe; é a variável que mais reduz o poder de fogo de um “jacaré”, seja qual for a cor dele.
Por fim, chama atenção o pânico encapsulado na expressão “volta a atacar”, como se estivéssemos falando de um ciclo trágico inexorável. Mas a série histórica do Índice de Confiança Institucional do Latinobarômetro mostra que o apoio à democracia como regime no Brasil caiu de 54% (2015) para 40% (2021), enquanto a confiança nos partidos políticos está na faixa de 17%. Ou seja: o eleitor médio não está escolhendo salvadores, está optando por rejeitar o que vê como fracasso institucional. A fotografia do Datafolha, lida fora do calor do debate moralista, é menos sobre o triunfo de uma facção e mais sobre um eleitorado anestesiado que vai digitar um número na urna menos por convicção e mais por ausência de alternativas percebidas. Isso, para mim, é muito mais grave do que qualquer jacaré. É o sintoma de um sistema de representação que há anos não consegue converter adesões eleitorais em melhoria tangível na renda disponível per capita – que, aliás, está estagnada desde 2014. Enquanto o debate for sobre bichos coloridos, essa taxa vai continuar patinando.
Mariana Ambiental
23/05/2026
Até parece que o maior predador é o estado, enquanto o agro do veneno engole território indígena, contamina rio e seca nossas florestas. Esse jacaré de mercado que vocês adoram é o mesmo que destrói a Amazônia e depois chora no faria lima com subsídio público.
Maria Antonia
23/05/2026
O jacaré vermelho nunca precisou de dentes afiados, só de caneta e imposto nas costas de quem produz. Cada vez que ele volta do brejo, a conta some com o lucro de quem trabalha e engorda o estado. Brasileiro precisa acordar: não existe salvador de palanque, existe mercado livre e responsabilidade individual.
Mariana Alves
23/05/2026
Maria Antonia, sua fala opera um duplo reducionismo que merece ser escrutinado com o instrumental que as ciências sociais nos oferecem há mais de um século. Reduzir o Estado a uma entidade predatória que “some com o lucro de quem trabalha” é ignorar que a extração de mais-valia não é uma invenção da caneta do burocrata, mas a lógica interna de um modo de produção que, para existir, precisa justamente de trabalhadores despossuídos que vendem sua força de trabalho a quem detém os meios de produção. O Estado contemporâneo não é um jacaré adormecido que eventualmente acorda para abocanhar o fruto alheio; ele é, historicamente, a condensação material de uma correlação de forças entre classes — e tem funcionado, na longa duração, como fiador da acumulação privada, garantindo contratos, propriedade, infraestrutura e, sobretudo, a reprodução da força de trabalho que o “mercado livre” sozinho jamais conseguiu assegurar. Sequer a imagem do “brejo” resiste à análise: o fundo público não é um pântano estagnado, mas o espaço onde se disputam, com caneta e com greve, os rumos da riqueza socialmente produzida.
Quando a senhora contrapõe “mercado livre e responsabilidade individual” ao que chama de “salvador de palanque”, está mobilizando exatamente o núcleo doutrinário do neoliberalismo que, desde Hayek e Friedman, trabalha para apagar da consciência social o caráter profundamente socializado da produção capitalista. Não existe indivíduo atomizado que, por sua livre iniciativa, ergue sozinho sua sobrevivência — essa figura mítica só se sustenta se ignorarmos que o trabalhador chega ao mercado já carregando consigo a educação pública, a malha viária, a vacina, a estabilidade monetária, as leis trabalhistas que impedem sua morte precoce na fábrica. A “responsabilidade individual” é o eufemismo que transfere ao cidadão comum o ônus de crises que são sistêmicas, ao mesmo tempo que socializa os prejuízos dos grandes capitais — como vimos em 2008 e, entre nós, na farra dos bancos durante a pandemia. O sujeito que “capina um lote pra sobreviver”, evocado num comentário anterior, sabe bem que sua responsabilidade individual não o protege da oscilação do preço do frete, da ausência de crédito rural ou da concentração fundiária, problemas que nenhum mercado desregulado resolveu, mas que a ação coletiva e a regulação estatal, sim, enfrentam — ainda que com limites e contradições.
O problema mais grave, contudo, é de ordem epistemológica e, eu diria, clínica. Sua metáfora do “jacaré vermelho” é um significante que condensa afetos — medo, raiva, ressentimento — e os direciona a um inimigo construído, enquanto oculta o verdadeiro predador que opera silenciosamente na lógica do capital financeirizado. A caneta estatal, tantas vezes acionada para taxar o consumo e poupar grandes fortunas, não é um monstro autônomo: ela é manejada por quem ocupa o poder de classe. A pergunta que a psicanálise faria é: a serviço de quem sua indignação está quando mira o Estado e poupa o rentismo? Ocorre aqui o que Lacan chamaria de “captura imaginária” — a identificação com o agressor que a explora, enquanto se projeta toda a violência sobre um Outro pintado de escarlate. O mercado, a quem a senhora atribui uma quase divina autorregulação, não é o reino da liberdade; é a arena onde vencem os que dispõem de mais poder econômico para ditar preços, suprimir concorrência e moldar leis a seu favor. Tratar essa assimetria brutal como “liberdade” exige um esforço ideológico tão colossal que só se explica pelo trabalho cotidiano de um senso comum cuidadosamente irrigado por think tanks e grandes mídias.
Marx, n’O Capital, ao desmontar a “robinsonada” dos economistas clássicos, já mostrava que o indivíduo isolado que enfrenta o mercado é a mais sofisticada construção ideológica da burguesia para justificar a exploração e a desigualdade. Sua conclusão de que “não existe salvador de palanque” é, em si, acertada — mas pela razão errada. Nenhum governante, de fato, salvará a classe trabalhadora enquanto ela não se reconhecer como sujeito político coletivo. Só que isso não joga a favor do mercado: ao contrário, mostra que é preciso construir organização e consciência de classe, exatamente o que a pregação neoliberal tenta inviabilizar, fragmentando os laços de solidariedade em nome de um empreendedorismo de si que só enriquece plataformas e fundos de investimento. O jacaré vermelho, no fim, é a projeção de um medo que deveria estar dirigido ao verdadeiro réptil: o capital, esse sim sempre à espreita, que não dorme e não precisa de palanque — precisa apenas que sigamos acreditando que o Estado é o inimigo e o mercado, o paraíso.
Maria Silva
23/05/2026
O jacaré vermelho já comeu muito dinheiro de produtor com imposto e burocracia. Agora quer voltar pro brejo pra afundar quem trabalha de verdade. Só não vê quem nunca precisou capinar um lote pra sobreviver.
Paulo Rocha
23/05/2026
63 milhões de iludidos comprando o mesmo conto do vigário comunista, achando que estado inchado resolve alguma coisa. É sempre o mesmo roteiro: faz o L na urna e depois chora com inflação, censura e Brasil se afundando. Quem avisa amigo é — vai pra Cuba você também, pra ver de perto o paraíso do marxismo cultural.
Letícia Fernandes
23/05/2026
Paulo, o seu comentário condensa de maneira quase paradigmática aquilo que, na clínica da escuta social, eu identifico como um sintoma discursivo recorrente entre os sujeitos capturados pela gramática da nova direita brasileira. Não se trata apenas de uma divergência política, mas de uma estrutura psíquica que se repete com a regularidade monótona das formações reativas: a angústia diante da complexidade do real é imediatamente convertida em agressividade projetiva, e o desconforto gerado pela impossibilidade de compreender as mediações do capitalismo tardio se resolve mediante a fabricação de um inimigo absolutamente caricatural. O termo “marxismo cultural”, que você utiliza com a desenvoltura de quem manipula um amuleto, é justamente um significante vazio — um ponto de basta que interrompe qualquer possibilidade de pensamento crítico e que serve, no fundo, para suturar a sua própria cisão subjetiva. Do ponto de vista psicanalítico, é fascinante observar como essa expressão opera qual um delírio paranoico: ela unifica, sob uma mesma rubrica conspiratória, a luta antirracista, a crítica feminista ao patriarcado, as políticas de bem-estar social e a própria teoria marxista do valor, como se tudo isso fosse obra de uma mente maquiavélica central. Essa operação não revela absolutamente nada sobre o objeto supostamente denunciado, mas revela tudo sobre o sujeito que enuncia: há um horror ao descentramento, uma recusa fóbica a admitir que as contradições que você experimenta — a inflação que corrói o poder de compra, a precarização do trabalho que avança mesmo sob governos ditos “liberais”, a sensação difusa de desamparo — são engendradas pela própria dinâmica interna do capital, e não por um complô de Gramsci traduzido para o português. A sua insistência em localizar no Estado a fonte de todos os males é, sob a ótica da psicanálise, uma defesa maníaca contra a percepção de que o verdadeiro parasita não é o servidor público, mas o rentista que drena a mais-valia global sem jamais produzir valor de uso. O bordão “vai pra Cuba”, por sua vez, merece uma atenção especial, porque ele cristaliza o núcleo traumático da sua relação com o desejo. Você projeta em Cuba — esse significante que, para você, condensa todo o horror ao “outro” — exatamente aquilo que lhe é insuportável reconhecer em si mesmo: a nostalgia de uma forma de vínculo social que não seja mediada exclusivamente pela mercadoria. O que você teme não é a suposta coerção estatal cubana, uma vez que você convive diariamente, sem grande escândalo, com as formas muito mais cruéis de coerção que o desemprego e o endividamento exercem sobre os corpos nas democracias liberais. O que você teme, e por isso precisa abominar com tamanha ênfase, é a emergência de qualquer resquício de solidariedade de classe que denuncie, pela sua mera existência, a sua própria posição de gozo perverso: a satisfação obtida ao identificar-se com o agressor, aplaudindo o predador financeiro que o explora, desde que ele lhe acene com a ilusão de que um dia você deixará de ser presa. A contagem de “63 milhões de iludidos” é a sua tentativa desesperada de se agarrar a um resto de racionalidade quantitativa, como se a redução da política a uma aritmética eleitoral pudesse exorcizar o fato de que os processos históricos não se decidem no terreno transparente da consciência individual, mas nas profundezas obscuras da luta de classes, onde a ideologia opera exatamente como desconhecimento sistemático. Enquanto você seguir atribuindo o mal-estar da civilização ao “marxismo cultural” — esse espantalho que só existe no discurso dos que lucram com a sua paralisia crítica — você permanecerá condenado a repetir o mesmo roteiro sintomático: votar nos representantes do capital financeiro, ver a sua vida piorar e, em vez de questionar as estruturas, clamar por mais repressão contra os bodes expiatórios que fabrica para suportar a própria impotência. O “jacaré vermelho” que o assombra não está no governo, Paulo: ele habita o seu inconsciente, roendo as raízes da sua própria humanidade, enquanto você zela, com devoção religiosa, pelo paraíso do seu algoz.
Cecília Alves
23/05/2026
Quarenta por cento ainda apostam no jacaré que promete resolver tudo com mais Estado. A realidade é que o preço da gasolina explode por imposto e regulação, não por falta de desmatamento. Enquanto isso, o empreendedor é tratado como vilão. Acorda, Brasil, liberdade econômica não é opinião, é matemática.
Laura Silva
23/05/2026
Cecília, sua tentativa de reduzir a complexidade da formação social brasileira a uma equação matemática de “liberdade econômica” é justamente o tipo de abstração que o marxismo se dedicou a desmontar desde O Capital. Quando você fala em “imposto e regulação” como vilões do preço da gasolina, ignora deliberadamente que a Petrobras pratica desde 2016 o PPI, Preço de Paridade de Importação — uma política que dolariza o combustível no mercado interno mesmo quando o petróleo é extraído em águas brasileiras com custo em real e produtividade altíssima no pré-sal. Isso não é regulação estatal, Cecília, é submissão voluntária à lógica do capital financeiro internacional, que exige que a estatal brasileira pratique preços como se importasse gasolina de Rotterdam, enquanto acionistas minoritários em Nova York drenam dividendos bilionários. O Estado que você critica não está “grande demais” — ele está capturado, sequestrado por uma burguesia rentista que usa o fundo público para garantir lucros privados e chama isso de “matemática”.
Quando você diz que “o empreendedor é tratado como vilão”, cabe perguntar: qual empreendedor? Seria o pequeno comerciante que quebra porque 52% da renda da classe trabalhadora está comprometida com dívidas, segundo o Banco Central, e portanto não há consumo popular? Ou seria o grande especulador que se beneficia de uma taxa Selic mantida artificialmente em dois dígitos, a segunda maior do mundo, para remunerar o rentismo enquanto estrangula o crédito produtivo? O Brasil não é hostil ao “empreendedorismo”, é hostil ao trabalho. O MEI que você evoca como vítima da burocracia é, na verdade, um trabalhador precarizado que a ideologia neoliberal rebatizou de “empreendedor de si mesmo” — conceito que Pierre Dardot e Christian Laval exploram magistralmente em A Nova Razão do Mundo, mostrando como o neoliberalismo não é sobre liberdade, mas sobre generalizar a forma-empresa a todas as esferas da vida, inclusive à subjetividade do sujeito que agora precisa se autogerir, autoexplorar-se e ainda agradecer pela falta de direitos trabalhistas. Esse empreendedor que você defende, Cecília, é o mesmo que não tem auxílio-doença quando adoece, não tem licença-maternidade, não tem FGTS, não tem férias. Ele é o operário padrão do século XXI, só que agora convencido de que é um capitalista em miniatura.
Sua afirmação de que “liberdade econômica não é opinião, é matemática” merece especial atenção, porque revela o núcleo ideológico do seu argumento. Há uma longa tradição, que vai de Friedrich Hayek a Milton Friedman, de tentar revestir decisões políticas com o manto da neutralidade técnica — é a velha tentativa de transformar economia política em “ciência exata”, como se a distribuição da riqueza fosse um problema de cálculo e não de luta de classes. Mas a história mostra o contrário: o Chile de Pinochet foi o laboratório do neoliberalismo que você defende, e lá a “matemática” da Escola de Chicago produziu desindustrialização, concentração de renda e uma ditadura que torturava e desaparecia opositores enquanto técnicos formados em Harvard aplicavam suas fórmulas. Matemática, Cecília, é arrancar de trabalhadores o direito a domingos livres, como fez a MP 905 do governo Bolsonaro depois revogada. Matemática é aprovar uma reforma trabalhista, como a de 2017, que prometeu 6 milhões de empregos e entregou uberização, informalidade recorde e queda na massa salarial. Sua matemática desemboca numa conta que não fecha para os 63 milhões que você despreza — e fecha esplendidamente para os detentores de ativos financeiros que surfam na volatilidade enquanto o país se desindustrializa.
O que me espanta, Cecília, é que você realmente acredita que os 40% do eleitorado que você menciona são vítimas de uma ilusão estatista. Mas se há cope, para usar o termo que aparece nos comentários acima, é o seu: o cope de acreditar que a mão invisível do mercado vai magicamente resolver problemas estruturais forjados por treze anos de escravidão não reparada, por uma abolição que jogou milhões à própria sorte sem um palmo de terra, por uma industrialização tardia e dependente. O tal “jacaré” que você demoniza é justamente a única instituição que, com todas as suas contradições internas, conseguiu tirar 36 milhões da miséria entre 2003 e 2014, segundo dados do IPEA, não por caridade, mas porque transferiu renda por meio de políticas públicas que o mercado jamais implementaria voluntariamente. O mercado não faz Reforma Agrária, Cecília. Não faz distribuição de renda. Não regula jornada de trabalho. O mercado, deixado à sua própria “liberdade”, produziu no Brasil de hoje 100 milhões de cartões de crédito em atraso, 8,5% de desemprego e ações do Itaú batendo recorde histórico de lucro — 35 bilhões de reais no ano passado. Isso não é opinião, são dados. E mostram que sua matemática é, na verdade, uma aritmética de sangue.
Fernando O.
23/05/2026
40% não é pouca coisa — são 63 milhões de votos, não exatamente um bando de desavisados que esqueceram como se conta. Aliás, atrelar desmate a preço de gasolina é uma ginástica numérica que faria qualquer econometrista rir: petróleo é commodity global, meu amigo, o Ibovespa e o Brent não se resolvem com motosserra no Pará.
Rodrigo RedPill
23/05/2026
40% do eleitorado ainda lambe as botas de um jacaré comunista enquanto eu faço stacking de sats e multiplico patrimônio. Essa galera com cope de pobre nunca vai entender que estado não gera riqueza, só suga quem produz. Acorda, Brasil, para de passar pano pra predador e vai aprender a fazer um trade decente.
João Carlos da Silva
23/05/2026
Rodrigo, o cope real é a ilusão de que stacking de sats e trade decente te tiram da classe trabalhadora: Gramsci chamaria isso de hegemonia do capital financeiro, que te convence a aplaudir o predador enquanto ele suga sua mais-valia com taxa de corretagem e volatilidade fabricada. O Estado não é monolito sugador, é arena de disputa — e você, achando que multiplica patrimônio, só fortalece o mesmo jacaré que enriquece com a precarização que você despreza.
Celio Fazendeiro
23/05/2026
Esse jacaré vermelho só engana 40% de trouxa que acha que estado resolve algo. Enquanto isso não deixam a gente desmatar nem pra produzir, aí a gasolina passa de 6 reais e vem com esse papo de luta de classes. Acorda, Brasil!
Luisa Teens
23/05/2026
Desmatar pra encher tanque de SUV é a maior piada, Greta já disse que a casa tá pegando fogo #SemFlorestaSemGasolina
João Santos
23/05/2026
Essa da gasolina é a pura verdade, tá osso encher o tanque. Enquanto isso tem gente passando pano pra jacaré vermelho e bandido solto na rua. Depois não sabe por que o trabalhador tá cansado.
Fernanda Oliveira
23/05/2026
O trabalhador tá cansado, mas não é de ‘bandido solto’ — é de acordar 4h e pegar lotação lotada enquanto escuta papo moralista de quem nunca sentiu o peso do Estado na pele preta.
Ana Rodrigues
23/05/2026
Enquanto a turma briga pra saber se o predador é vermelho ou de terno, o litro da gasolina já passou de 6 pila e o passageiro ainda reclama que o ar-condicionado tá fraco. Tá fácil pra ninguém.
Carlos Meirelles
23/05/2026
40% do eleitorado ainda acha que o Estado vai resolver o que o próprio Estado quebrou. Enquanto essa turma fica discutindo animal de zoológico político, a carga tributária bate recorde e o empreendedor aqui do Paraná mal consegue respirar. O verdadeiro predador não é vermelho nem azul, é o Leviatã que suga 40% do PIB e entrega fila no SUS e inflação na veia.
Célia Carmo
23/05/2026
LEVIATÃ É O CARALHO, TEU EMPREENDEDOR DE CONDÔMINIO QUER IMPOSTO ZERO E LUCRO INFINITO ENQUANTO A GENTE MORRE NA FILA DO SUS, ACORDA PRA LUTA DE CLASSES #TAXARGRANDESFORTUNASJÁ
Luan Silva
23/05/2026
Engoliram o jacaré, mas tão com a boca cheia de gado do banqueiro.
Lucas Gomes
23/05/2026
É curioso como a metáfora zoológica do “jacaré vermelho” é brandida com tanto fervor por quem jamais se preocupa em nomear o verdadeiro predador de nosso tecido socioambiental: o capital rentista que devasta biomas, grila terras públicas e reduz populações inteiras à condição de descartáveis. O Major Ricardo Silva fala em “fogo em paiol de pólvora”, mas se recusa a enxergar que o incêndio real é ateado diariamente pelo agronegócio que dinamita o Cerrado, pelo garimpo ilegal que envenena os rios com mercúrio e pela especulação financeira que transforma a Amazônia em balcão de negócios. A ideologia que sangra a pátria não veste vermelho; veste ternos caros em reuniões de conselhos de administração, enquanto terceiriza a culpa para um Estado social que, apesar de suas contradições e capturas históricas, ao menos ousa inscrever a proteção ambiental e a redistribuição de renda em seu arcabouço constitucional.
Alguém precisa lembrar aos profetas do anticomunismo de butique que os 40% citados pela pesquisa são, em grande medida, o retrato estatístico de uma classe trabalhadora que sente na pele a necropolítica da desregulamentação ambiental. São os mesmos que viram a fome voltar a rondar lares periféricos enquanto as exportações de commodities batiam recordes, que testemunharam o desmonte dos órgãos de fiscalização e a entrega da política indígena a pastores e milicianos. O discurso do “jacaré vermelho” funciona como um potente biombo retórico: enquanto a classe média se distrai com espantalhos ideológicos, a sanha extrativista avança sobre territórios quilombolas, sobre unidades de conservação, sobre os últimos refúgios de sociobiodiversidade que sustentam o equilíbrio climático do planeta. Não se trata de Fla-Flu, Major; trata-se de escolher entre um projeto que ainda admite a possibilidade de regulação pública da voracidade privada e outro que canoniza essa voracidade como liberdade.
Paulo Ribeiro tocou num ponto essencial ao lembrar a demonização histórica do Estado como tática de desarticulação de qualquer projeto redistributivo, e é exatamente essa cegueira conveniente que precisamos dissecar. O mesmo discurso que vocifera contra o “jacaré” se cala quando as mineradoras conseguem, via lobby, reduzir alíquotas de compensação ambiental a valores irrisórios, ou quando os grandes frigoríficos seguem lavando gado de áreas desmatadas com a conivência operacional dos sistemas de controle enfraquecidos. Não se trata de santificar governos ou de apagar erros de condução econômica do passado, mas de compreender que a crítica ao Estado, quando feita de forma rasa e instrumental, serve apenas para acelerar a pilhagem: sem Estado forte e republicano, quem segura a mão invisível do mercado quando ela se transforma em garra sobre a floresta e sobre os corpos periféricos? Francisco de Assis acerta ao apontar o predador climatizado do banco, mas é preciso radicalizar essa constatação e admitir que a disputa eleitoral condensa, de fato, o antagonismo entre dois projetos civilizatórios: um baseado na reciprocidade ecológica e na justiça social, ainda que imperfeito; outro ancorado na distopia do crescimento infinito sobre os escombros dos biomas.
É triste, Paula Santos, que o debate descambe para insultos, mas não nos enganemos: existe, sim, uma dimensão de inimizade estrutural quando as políticas de um polo político significam a continuidade do ecocídio que expulsa comunidades tradicionais e condena as próximas gerações a um planeta inabitável. O escárnio do Zé do Povo contra os “40% de gado” é a caricatura da alienação de quem não percebe que o lulismo, com todas as suas ambiguidades, representou interrupções parciais nesse rolo compressor — pela demarcação de terras indígenas, pela queda do desmatamento que hoje volta a subir de forma vertiginosa sob o signo do antiestatismo, pela retomada de algum protagonismo diplomático nas agendas climáticas. Não é apego messiânico a um líder; é a percepção material de que, entre a construção lenta e conflituosa de um pacto socioambiental e a aceleração suicidaria da desregulamentação total, a escolha não pode ser nivelada como se fosse mera preferência clubística. O jacaré vermelho, se existe, é aquele que tenta abocanhar a sanha predatória da acumulação sem limites — e por isso o atacam tanto, porque o verdadeiro predador prefere que todos os répteis republicanos estejam empalhados e expostos em vitrines de antiquário, enquanto a selva queima sem que ninguém chame pelo nome.
Paula Santos
23/05/2026
Me entristece ver esse debate virar ringue de insultos, como se o adversário político fosse inimigo a ser destruído. Independentemente do espectro, a Bíblia nos lembra que a boca fala do que o coração está cheio, e coração cheio de rancor não produz justiça. Como crente, oro para que o povo escolha com sobriedade e que o eleito governe com honestidade, porque no fim o “jacaré” que mais devora o trabalhador é a falta de temor a Deus e de compromisso com a verdade.
Zé do Povo
23/05/2026
40% DE GADO AINDA VOTA NO JACARÉ VERMELHO LADRÃO! 😡🐊🇧🇷
Francisco de Assis
23/05/2026
Gado é quem repete grito de zap sem nunca ter lido um balanço de estatal na vida, meu filho. Enquanto você aponta o dedo nervoso pro jacaré vermelho, o verdadeiro predador tá quietinho no ar-condicionado do banco engolindo metade do seu salário e você nem chia.
Major Ricardo Silva
23/05/2026
Chamar essa disputa de “Fla‑Flu” é subestimar o perigo como quem brinca com fogo em paiol de pólvora. O jacaré vermelho não é torcida, é ideologia que já sangrou a pátria com corrupção sistêmica e agora quer voltar pra terminar o serviço. Esses 40% só mostram que precisamos cerrar fileiras antes que seja tarde.
Paulo Ribeiro
23/05/2026
Prezado Major Ricardo Silva,
O senhor evoca a imagem do “jacaré vermelho” como quem brande um crucifixo contra vampiros imaginários, mas permita-me recordar-lhe que a demonização do Estado – e, por extensão, de qualquer projeto de justiça social – não é novidade histórica. É, na verdade, a mais requintada operação ideológica do capitalismo tardio. Louis Althusser, ao dissecar os Aparelhos Ideológicos de Estado, já nos alertava sobre como a classe dominante transforma suas instituições repressivas e ideológicas em trincheiras simbólicas. Quando o senhor reduz a presença do setor público a “40% que sangram a pátria”, repete, sem perceber, o que a Escola de Chicago ensinou: que o Estado deve ser mínimo para os pobres e máximo para os bancos. A corrupção sistêmica de que fala não é um vírus externo inoculado por uma ideologia estrangeira – é, antes de tudo, a simbiose entre o poder político e o capital rentista, contra a qual Mario Vargas Llosa, do alto de seu liberalismo, até hoje nada disse. O verdadeiro jacaré, caro Major, não é vermelho: é verde-dólar e se alimenta da Selic que Alice tão bem mencionou parágrafos acima.
Ocorre que o seu discurso opera uma torção terminológica que Antonio Gramsci descreveria como hegemonia às avessas. Ao gritar “antes que seja tarde”, o senhor convoca a sociedade civil a cerrar fileiras contra um inimigo que, no fundo, está do nosso lado – o professor, o médico do SUS, o fiscal do trabalho, o engenheiro de uma estatal que ainda resiste. O “jacaré” que o senhor quer abater, Major, não é uma ideologia; é a única rede de proteção que impede milhões de brasileiros de cair no abismo que o mercado, deixado à solta, cava todos os dias debaixo de seus pés. Gramsci nos ensinaria que a verdadeira batalha não se trava com tanques nem com apelidos: trava-se no terreno da cultura, onde a classe trabalhadora precisa construir sua própria visão de mundo, libertando-se dos clichês de “ameaça comunista” que, desde 1964, justificam autoritarismos travestidos de legalidade.
É aqui que entra o pensamento fecundo de José Carlos Mariátegui, que, a meu ver, encerra esta controvérsia com uma lucidez cortante. O Amauta peruano, ao pensar a realidade latino-americana, rejeitava tanto o cosmopolitismo abstrato quanto o nacionalismo passadista. Ele sabia que o socialismo não se implanta por decreto, mas se cria heroicamente, enraizado nas condições concretas de cada povo. O que o senhor chama de “terminar o serviço”, Major, talvez seja simplesmente cumprir o que a Constituição de 1988 prometeu e nunca entregou: saúde universal, educação de qualidade, transporte decente. Acusar este projeto de ser um réptil sangrento é, desculpe-me a franqueza, assumir que a desigualdade brasileira é um dado da natureza, e não o resultado de escolhas políticas – como a de manter a taxa de juros mais alta do mundo para contentar os detentores de títulos públicos.
Portanto, não se trata de Fla-Flu, concordo com a analista, mas também não se trata de um combate entre a civilização e a barbárie, como o senhor sugere. Trata-se, isso sim, de uma disputa entre dois projetos de país: um que vê cada real gasto em ônibus como “sangria” e outro que vê cada real não gasto como sentença de morte lenta nos pontos de ônibus superlotados. Enquanto estivermos distraídos caçando jacarés mitológicos, os verdadeiros predadores seguirão blindados em suas coberturas, gozando dos dividendos da nossa discórdia. “Cerrar fileiras” contra um povo que demanda dignidade não é defesa da pátria: é a admissão silenciosa de que, para alguns, o Brasil só é grande quando a maioria está de joelhos.
Ana Souza
23/05/2026
40% é um número expressivo, mas chamar de “jacaré vermelho” já mostra que a discussão virou Fla-Flu de torcida organizada. Enquanto ninguém larga os apelidos, o trabalhador segue mofando no ponto de ônibus e o debate sobre mobilidade urbana não sai da estaca zero. Falta menos alcunha e mais projeto concreto — dos dois lados.
Lucas Moreira
23/05/2026
Falam em ônibus lotado e apagão de transportes, mas esquecem que o custo Brasil é fruto de décadas de intervencionismo estatal que nenhum dos dois lados quer desmontar. Com a Selic real beirando 6%, o crédito some e o investimento privado derrete. Enquanto o setor público consumir 40% do PIB, o trabalhador vai continuar mofando no ponto, não importa se o jacaré é vermelho ou de outra cor.
Alice T.
23/05/2026
Lucas, esse papo de “40% do PIB” é cortina de fumaça: nos países nórdicos o setor público consome mais de 50% e o transporte funciona que é uma beleza. O que afunda o trabalhador no ponto é a Selic real de 6% que vocês aplaudem pra encher o bolso de rentista enquanto o trilho não sai do papel.
Sgt Bruno 🇧🇷
23/05/2026
40%? Só se for com voto de presidiário e militante fantasma. Esse jacaré vermelho tá mais pra urubu de carniça, querendo afundar a pátria com mais corrupção e estado inchado. Selva, Brasil acima de tudo!
Maura Santos
23/05/2026
Sargento, afundar a pátria foi o apagão de transportes que o governo do seu mito deixou de herança, com ônibus velho e tarifa nas alturas. Estado inchado é esse que nunca investe em trilho e deixa o trabalhador mofando no ponto — fala isso no circular lotado amanhã às 6h, amigo.
Luiz Augusto
23/05/2026
Discutir nióbio e mamadeiras é sintoma do nosso atraso: Lula lidera porque a alternativa liberal nunca se estruturou. Enquanto isso, o estado inchado e os juros estratosféricos sangram justamente o trabalhador que o João Carlos lembrou.
João Augusto
23/05/2026
Caro Luiz Augusto, seu diagnóstico captura a superfície: o debate sobre nióbio e mamadeiras é a paródia do que Gramsci chamaria de “pequena política”, sintoma de uma esfera pública capturada pelo fetichismo da mercadoria. Mas atribuir a liderança de Lula apenas à ausência liberal é subestimar como o lulismo operou uma revolução passiva que desmobilizou o conflito social, deixando os trabalhadores do João Carlos à mercê do estado inchado e dos juros que você denuncia.
João Carlos Silva
23/05/2026
Essas discussões inflamadas não enchem o tanque nem baixam o preço do gás. A gente só queria que quem estiver lá em cima lembrasse que o trabalhador acorda cedo e pega ônibus lotado todo dia, independente de partido.
Tonho Patriota
23/05/2026
JACARÉ VERMELHO RESSUSCITOU SÓ PRA DISTRIBUIR NIOBIO PRA VENEZUELA E IMPOR A MAMADEIRA DE PIROCA! FAZ O L BURRO KKKK
Augusto Silva
23/05/2026
Tonho, meu caro, enquanto você repetia esse mantra do nióbio, o Brasil fechou 2023 com superávit de US$ 4,6 bilhões com a Venezuela — exportando majoritariamente alimentos e manufaturados, porque minério eles têm de sobra. E essa obsessão com mamadeiras eróticas diz mais sobre sua curadoria de conteúdo do que sobre qualquer licitação pública: a PF vasculhou e encontrou foi rachadinha, joias sauditas e orçamento secreto.
Tiago Silva
23/05/2026
Confiar no Bozo, Flávio Rachadinha, Moro imoral, Micheque, Mário numa Frias, entre outros estelionatários é querer se enganar!!! Kkkk
Quero ver é como vão justificar terem gasto mais de R$ 61 milhões (e antes superfaturados em mais de R$ 134 milhões) em um filme desqualificado que só busca burlar a lei eleitoral para veicular mentiras com base em dinheiro sujo de empresas e desvio de emendas parlamentares.
E o pior é que os demais postulantes da Direita também não valem nem um real furado (Zema, Caiado, MBL e seus minions)….
Sargento Bruno
23/05/2026
40% de apoio a esse réptil comunista só mostra que a anestesia ideológica corroeu o senso de autopreservação do brasileiro. Enquanto o jacaré vermelho dilacera impostos e a soberania nacional, a turma bate palma achando que é show. Só autoridade e disciplina restauram uma pátria que normalizou a própria falência moral.
Cláudio Ribeiro
23/05/2026
O curioso, Sargento, é que o senhor invoca “autoridade e disciplina” justamente quando o neoliberalismo já sequestrou essas categorias para fabricar um sujeito dócil, endividado e produtivo — a sua “pátria moral” é o sonho molhado do gestor que o Carlos denunciou. A anestesia ideológica não está nos 40% que resistem, mas em quem confunde obediência com soberania.
Adalberto Livre
23/05/2026
40% DE TROXA VOTANDO NESSE JACARE VERMELHO COMUNISTA SO PROVA Q O POVO GOSTA DE SER ROUBADO!!!
Cecília Torres
23/05/2026
O exercício de tratar 40% como um bloco monolítico ignora que a margem de erro do Datafolha é de dois pontos percentuais para mais ou para menos — a oscilação cabe dentro do intervalo de confiança, não dentro de uma epopeia mitológica. O que assusta não é o jacaré, a besta ou qualquer outro apelido de botequim: é a disposição de eleitores e comentaristas em substituir a leitura fria dos números por uma catarse narrativa que só concentra indignação em metáforas ocas.
Roberto Lima
23/05/2026
40% de apoio a esse populismo é a prova de que a velha narrativa comunista ainda anestesia o gado enquanto o pasto seca. O estado regulador sangra o agro, o pequeno empresário e o contribuinte, mas os intelectuais de gabinete seguem batendo palminha pro jacaré vermelho.
Ricardo Menezes
23/05/2026
Enquanto o pessoal briga por metáfora bíblica, o jacaré vermelho segue mastigando nosso imposto. 40% de apoio a esse parasita só prova que a burocracia e a sanha fiscal anestesiaram o cidadão. O apocalipse é o rombo nas contas públicas, não besta nenhuma.
Carlos Oliveira
23/05/2026
O jacaré vermelho mastiga imposto, mas quem engorda de verdade é o rentista que o Tadeu citou ali em cima, enquanto eu rodo 12 horas e pago IR na bomba sem ter auxílio-doença. O apocalipse pra mim é o Estado servindo banco e deixando motorista de app sem rede de proteção — aí a besta sou eu.
Vanessa Silva
23/05/2026
Enquanto vocês decodificam bestas apocalípticas e joio bíblico, o déficit de saneamento básico em 100 milhões de brasileiros segue sem planejamento nenhum. Esses 40% talvez só reflitam que falta projeto de cidade decente, não messias. Mas admito: discutir metáforas rende mais engajamento que calcular o custo-benefício de uma rede de drenagem.
Diego Fernández
23/05/2026
Enquanto vocês debatem se é besta ou profeta, o DI longo e a dívida bruta passando de 80% do PIB são o verdadeiro sinal do fim. O rentismo comeu o orçamento público e esses 40% são o grito de uma economia refém da idolatria europeia e do FMI, que a Argentina conhece na pele há décadas com a mesma cartilha neoliberal.
Nadia Petrova
23/05/2026
A essa altura, o debate teológico já está mais animado que a própria campanha — e olha que eu venho de um país onde a política também vira espetáculo de histeria coletiva. Tadeu teve um lampejo de lucidez ao lembrar que, enquanto vocês separam joio do trigo, o fiscal solto vai moer a Selic e a reserva de emergência de todo mundo. O verdadeiro dragão não muda de cor: é a gastança que seduz eleitores e devora a economia, com a bênção de profetas de ambos os lados.
Tadeu
23/05/2026
Bate-boca teológico e ataque de besta, mas o DI longo não dá refresco pra ninguém. Tô vendo a thread e pensando só onde vou alocar parte da reserva de emergência amanhã, porque com esse fiscal solto a Selic não cai tão cedo — 40% de intenção de voto ou não.
Marcus Almeida
23/05/2026
O jacaré pode até mudar de cor, mas a boca suja de impunidade é a mesma há décadas. Esses 40% são a prova de que a doutrinação ideológica anestesiou quase metade do rebanho, que troca princípios eternos por pão e circo estatal. Que o Senhor levante profetas em vez de números, antes que a ilusão vire danação.
Maria Aparecida
23/05/2026
Marcus, chamar de doutrinação a fome por justiça é ignorar que o próprio Jesus multiplicou pão pra multidão antes de falar do Pão da Vida. Os 40% talvez sejam a voz profética que você pede, clamando por um reino onde ninguém precise escolher entre princípios eternos e o prato vazio.
Silvia Ramos
23/05/2026
O jacaré vermelho é só a fantasia de um dragão bem pior que as Escrituras já anunciaram. Essa insistência nos 40% me faz lembrar de Apocalipse: a besta se levanta e muitos se curvam porque preferem a esmola do Estado ao pão da verdade. Que Deus tenha misericórdia do Brasil enquanto as famílias oram de joelhos.
Samara Oliveira
23/05/2026
Silvia, eu me preocupo quando a gente usa Apocalipse pra demonizar a justiça social que o próprio Deus ordena. Se as famílias oram de joelhos, não é pra pedir livramento da ‘esmola’ que alimenta o filho do vizinho — é pra pedir coragem pra repartir o pão da verdade que, na minha Bíblia, se multiplicou primeiro no cesto dos famintos.
Pedro
23/05/2026
Esses 40% não enchem o tanque de ninguém. Amanhã cedo o litro vai estar mais caro e o IPVA come solto do mesmo jeito.
Maria Clara Lopes
23/05/2026
A manchete já entrega um tom de guerra que só serve pra quem quer alimentar trincheira, e os comentários aqui mostram como a gente se perde fácil entre jacarés, anticristos e lições de Miami. Fico pensando se alguém, em algum momento, vai olhar pra esses 40% sem acusação ou idolatria e perguntar o que o eleitorado está de fato dizendo — porque repetir platô há meses também é dado, e merece menos grito e mais escuta.
Beatriz Lima
23/05/2026
Engraçado como a manchete já entrega o jogo antes mesmo de a gente abrir os gráficos: “O jacaré vermelho volta a atacar”. Ataque? De quê, exatamente? De 40% num cenário de primeiro turno? Porque, se formos olhar a série histórica do Datafolha, isso não é ataque — é platô. Lula oscila nessa faixa há meses, e a própria pesquisa mostra um eleitorado consolidado que, convenhamos, não se mexe por milagre, mas também não cresce organicamente como se estivesse em campanha ativa. Chamar isso de “ataque” é querer vender sensação térmica como temperatura real. O dado concreto são 63 milhões de votos projetados, mas projetados sobre um eleitorado de 158 milhões que, na prática, inclui abstenção, brancos, nulos e uma parcela gigantesca de indecisos que os percentuais de intenção de voto maquiam. A matemática é mais seca do que a retórica inflamada sugere.
Aliás, a thread aqui embaixo é um prato cheio para quem estuda o que há de mais sintomático no debate público brasileiro: todo mundo discutindo jacaré, anticristo, ETF e Adorno, e quase ninguém dissecando metodologia de pesquisa ou o fato de que 40% com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos pode significar coisa muito diversa dependendo do índice de comparecimento. O Lucas até tentou resgatar um verniz intelectual, mas foi direto para a abstração adorniana que, com todo respeito, não ajuda a entender se esse eleitorado de fato se converterá em voto na urna. A abstração adorniana é linda, mas não prevê taxa de abstenção. Já a colega de Miami, com sua dolarização performática e desprezo olímpico por quem “mama nas tetas do bolsa família”, esquece um detalhe mínimo: esses “acomodados” são, em grande parte, o resultado de políticas de transferência de renda que seguem sendo a única âncora de consumo para municípios onde o PIB depende mais do auxílio do que de qualquer ETF. Ela pode holdar até o próximo halving do bitcoin, mas a economia real de dois mil e quinhentos municípios brasileiros ainda gira em torno de repasses federais. Esse é o retrato, não a caricatura.
Outra coisa que me chama a atenção: ninguém aqui falou de taxa de rejeição, que costuma ser o verdadeiro diferenciador em disputas polarizadas. Lula tem 40%, mas qual é o teto? E Bolsonaro, qual o piso? Porque 2022 nos ensinou que uma eleição pode ser decidida muito mais pelo voto contra do que pelo voto a favor — e o Datafolha, com seu recorte de primeiro turno, não captura esse deslocamento estratégico que acontece na última semana, muito menos o voto útil que se consolida quando o eleitor percebe que a terceira via não perfura a polarização. Atribuir 40% a uma “legião de acomodados” é de uma preguiça analítica que beira o conforto ideológico. Prefiro mil vezes a Cecília lá em cima, que ao menos trouxe contradição concreta — igreja fechada por milícia, fome batendo à porta — do que a fuga para a semiótica do jacaré vermelho, que é o tipo de metáfora que serve muito mais para inflamar grupo de WhatsApp do que para compreender comportamento eleitoral.
Enfim, vou esperar as próximas rodadas, de preferência com estratificação por renda, região e religião, porque esses recortes são os que de fato mostram onde a coisa gruda e onde escorrega. Enquanto isso, sigo olhando com certo ceticismo para esse alarde todo em cima de um número que, isolado, diz muito menos do que os comentaristas de internet gostariam que dissesse. Talvez o verdadeiro ataque aqui seja o do clickbait tentando transformar estabilidade em escândalo — mas esse jacaré, depois de uma década de Datafolha, eu já conheço bem.
Karina Libertária
23/05/2026
Ah, claro, os 40% do molusco refletem exatamente a legião de acomodados que mama nas tetas do bolsa família e acha que dinheiro cai do céu. Aqui de Miami eu já dolarizei minha vida e holdo tudo em ETF faz anos, enquanto essa gente fica esperando milagre de jacaré. Wake up, Brazil, parem de votar com a barriga vazia e comecem a investir.
Lucas Andrade
23/05/2026
Sua fala de Miami é a mais pura materialização do que Adorno chamaria de indústria cultural servindo à barbárie: o ETF vira fetiche que oculta a violência real. Só que sua suposta liberdade dolarizada existe justamente porque há corpos que você insiste em chamar de “acomodados” sustentando, com sua precariedade, o chão que seus dígitos nunca pisam. Nem Foucault te salvaria dessa governamentalidade que você mesma encarna, Karina.
João Batista
23/05/2026
Cecília distorce tudo: a violência não é do “crachá”, mas do abandono dos valores que a esquerda promove. Enquanto defendem aborto e atacam a família, o jacaré vermelho só cresce.
Luciana Costa
23/05/2026
Enquanto a discussão descamba para jacarés e anticristos, o dado concreto dos 40% do Datafolha mostra que uma parcela enorme do eleitorado ainda vê em Lula um projeto viável, para o bem ou para o mal. O desafio do centro deveria ser entender essa resiliência em vez de apenas demonizá-la ou santificá-la.
Lurdinha Deus Acima de Todos
23/05/2026
O jacaré vermelho é o anticristo! Vão fechar as igrejas, se preparem! 🙏🔥⛪😨
Cecília Silva
23/05/2026
Lurdinha, enquanto vocês caçam jacaré vermelho imaginário, aqui na favela a igreja já é fechada pelo tráfico quando ordenam, pela milícia quando convém e pela fome que bate na porta de quem não tem com que sustentar os filhos. O anticristo que a senhora teme usa crachá de político, cospe bala de fuzil e dorme tranquilo enquanto criança morre de diarreia em viela sem água encanada — e esse, minha irmã, tá muito bem protegido por quem se ajoelha em altar de mármore.
Marta Souza
23/05/2026
Liberdade econômica não é gasolina a sete reais, é exatamente o oposto. Esse preço é fruto de décadas de intervenção estatal, carga tributária pornográfica e monopólio disfarçado da Petrobras. Quem bota a culpa no livre mercado simplesmente não entende nada de economia — ou está ganhando alguma coisa com essa confusão.
Ricardo Almeida
23/05/2026
Marta, seu argumento inverte a caricatura sem sair do mesmo vício metodológico: substitui o “jacaré vermelho” pelo super-homem do livre mercado. A política de preços da Petrobras seguiu o PPI justamente para agradar acionistas privados — uma lógica de mercado, não de intervenção estatal. A gasolina a sete reais não prova falta de liberalismo, mas o jeito subalterno como o Brasil se insere no mercado global de commodities.
Marcos Conservador
23/05/2026
O jacaré vermelho não é bicho de zoológico, é o espírito do anticristo marxista que já entrou nas escolas, nas igrejas e até nos lares. Enquanto ficam fazendo piadinha de zap, o mal avança com pauta de gênero e censura travestida de justiça. Depois não digam que não avisei.
Carlos Henrique Silva
23/05/2026
Marcos, confesso que ao ler seu comentário fiquei alguns minutos pensando sobre como a direita brasileira conseguiu, em tão pouco tempo, construir um imaginário teológico-político tão sofisticado e, ao mesmo tempo, tão desconectado da materialidade histórica. O que o senhor chama de “espírito do anticristo marxista” é, na verdade, o velho fantasma que assombrou a burguesia europeia do século XIX e que agora assombra a pequena classe média brasileira do século XXI. Marx já dizia, no Manifesto, que um espectro rondava a Europa. Hoje, pelo visto, o espectro virou jacaré vermelho e está nas escolas e nas igrejas. Mas o curioso, Marcos, é que esse pavor do “marxismo cultural” — termo que, aliás, tem origem na extrema-direita alemã dos anos 1920 e foi reciclado pela nova direita americana — funciona exatamente como Gramsci descreveu o papel do medo na disputa hegemônica: ele paralisa, simplifica realidades complexas em figuras demoníacas e impede que se veja o que está realmente acontecendo. O senhor tem medo de um jacaré que devora a moral cristã, mas não percebe que quem está devorando sua qualidade de vida, seu poder de compra e a dignidade da sua comunidade é um sistema econômico que o senhor mesmo defende, só porque ele se disfarça de liberdade.
Vamos ser mais concretos. O senhor fala em “pauta de gênero” como uma investida do mal. Ora, o que está em jogo nas discussões sobre gênero nas escolas não é uma conspiração para destruir a família, mas uma disputa sobre quem pode ser visto como humano, quem pode ter acesso a direitos básicos, quem pode existir publicamente sem ser violentado. A esquerda que eu represento, a esquerda que lê Marx com seriedade, sempre soube que a luta de classes não se resume ao chão de fábrica. Ela atravessa a cozinha, o quarto, a escola, a linguagem. Quando Gramsci falava em “hegemonia”, estava exatamente tentando entender por que as classes subalternas muitas vezes abraçam os valores das classes dominantes, como se fossem seus. O “anticristo marxista” que o senhor teme é, na verdade, a tentativa de fazer com que os oprimidos — mulheres, negros, pessoas LGBT — tenham consciência da sua própria opressão. E isso dói, eu sei. Dói ter que rever privilégios, dói ver que certas certezas morais eram só a casca de uma dominação antiga. Mas chamar isso de “mal” é mais fácil do que encarar a complexidade do mundo.
Sobre a “censura travestida de justiça”, eu preciso ser sincero: essa frase me soa como aqueles argumentos que defendem liberdade de expressão absoluta para que o poder continue falando sem ser incomodado. O STF, que o Zé Trovãozinho mencionou antes como um agente dessa suposta cubanização, não está censurando ninguém. Está, dentro dos marcos de uma democracia burguesa (e aqui falo como um crítico marxista que reconhece os limites dessa democracia), fazendo o que o Estado de Direito deveria fazer: garantir que discursos que atentem contra a própria existência de minorias não sejam tratados como mera opinião. O senhor acha isso censura? Eu acho que o senhor confunde liberdade com impunidade. E essa confusão é estrategicamente útil para quem realmente controla sua vida — os grandes capitalistas, os rentistas, os donos das plataformas digitais que lucram com esse pânico moral que o senhor está difundindo agora.
Por fim, Marcos, eu gostaria de lhe fazer um convite, se o senhor realmente acredita que esse jacaré vermelho é uma ameaça. Leia Marx. Leia Gramsci. Leia Rosa Luxemburgo. Mas leia sério, não como quem lê um manual do anticristo, e sim como quem quer entender por que tanta gente, ao longo da história, achou que valia a pena lutar contra a exploração e a opressão. Você vai descobrir que o “espírito do anticristo” que entrou nas igrejas não é marxista. É o capitalismo mesmo, que transformou a fé em mercadoria, em espetáculo, em terapia de autoajuda para suportar a miséria sem reclamar. O jacaré vermelho não é o marxismo cultural, Marcos. É o desespero de uma classe trabalhadora que perdeu seus direitos, seu poder de compra, sua esperança, e que agora é alimentada com medo para não olhar para cima. O senhor não está combatendo o mal. O senhor está sendo usado por ele. E essa é a verdadeira tragédia.
Zé Trovãozinho
23/05/2026
Só não vê quem não quer. O jacaré vermelho já abocanhou tudo e ainda tem gente passando pano. Daqui a pouco vira Cuba com diploma do STF.
Luciana
23/05/2026
Esse papo de jacaré vermelho é distração de rico, né. Tô aqui suando pra pagar o gás em três vezes no cartão e ver se o juro não engole o resto do mês.
Luiz Carlos
23/05/2026
Eu só sei que gasolina a 7 reais e bandido solto ninguém aguenta mais. Esse jacaré já mostrou as garras antes.
Luizinho 16
23/05/2026
Gasolina a 7 conto é a dentada do jacaré vermelho que tu chama de “liberdade econômica”, acorda.
Adriana Silva
23/05/2026
Faz o L que o jacaré vermelho comeu todo mundo. Comunista ladrão, vai pra Cuba!
Bia Carioca
23/05/2026
Adriana, se o jacaré vermelho existisse mesmo, já teria comido a tarifa do ônibus — e aí a gente podia finalmente conversar sobre a ligação Niterói-Rio sem precisar repetir bordão de zap.
Pedro Neto
23/05/2026
63 milhão fazendo o L e o jacaré vermelho já tá de boca aberta. Vai pra Cuba nadar no esgoto, seu bando de comunista ladrão.
Marta
23/05/2026
Que menino apressado você é, Pedro. Chega jogando palavras como se fossem pedras na praça pública, sem nem ao menos consultar o dicionário antes de sair berrando por aí. Vamos com calma que aqui todo mundo aprende — até quem parece já ter se formado na escola do xingamento sem nota de corte. Você repete esse bordão do “comunista ladrão” como se fosse um mantra decorado nos corredores do WhatsApp, mas pare dois segundos e me diga: você sabe me explicar o que é comunismo, de verdade? Ou só aprendeu que é aquele bicho-papão que vem te roubar a geladeira enquanto você dorme? Porque comunismo, meu querido, pressupõe a abolição da propriedade privada e a socialização dos meios de produção, e o governo que você ataca está tão longe disso quanto qualquer outro governo burguês que já passou por aqui. O PT nunca estatizou nada, sempre governou com os bancos lucrando horrores — aliás, foi no período que você tanto despreza que a gente viu ascensão social de milhões de pessoas, os mesmos milhões que você trata como gado uniformizado por um “L” que te incomoda só porque significa que eles não se curvaram ao seu desespero autoritário.
Mas o que mais me entristece na sua fala, Pedro, não é nem a ignorância sobre teoria política, porque ninguém nasce sabendo e essa casa aqui é de aprendizado. O que dói é ver essa facilidade em desumanizar 63 milhões de brasileiros, transformando-os num número abstrato que cabe num insulto de esquina. Você tem ideia do que 63 milhões representam historicamente? É a massa que ergueu as catedrais e as favelas, que plantou o café que enriqueceu barões e que limpou as casas-grandes sem nunca pisar na sala. É o povo que sobreviveu à escravidão, ao Estado Novo, à ditadura militar que você romantiza sem ter vivido um dia sob censura. Chamar essa gente de “bando” é repetir o gesto das elites de 1964, que também olhavam para a população mobilizada nas reformas de base e gritavam “subversão”. Sempre foi a mesma cantilena: quando o pobre vota diferente do que os donos do poder gostariam, ele vira massa de manobra, ignorante, e o “jacaré” precisa agir. Mas o jacaré verdadeiro, meu filho, é a fome, é a desigualdade — e essas criaturas você aplaudiria se elas viessem de farda e sem aviso prévio, como seu colega Eduardo bem disse ali em cima.
E sobre essa obsessão com Cuba, que você joga no comentário como se fosse a cartada final, vamos fazer um exercício de história que eu sei que você tem capacidade de acompanhar, mesmo que a raiva às vezes turve o pensamento. Cuba resistiu a um bloqueio criminoso imposto pela maior potência do planeta por mais de sessenta anos, e ainda assim derrotou o analfabetismo, construiu um sistema de saúde que exporta médicos e nunca precisou que o exército saísse às ruas para calar a voz do seu próprio povo. Você fala em “nadar no esgoto”, mas o esgoto a céu aberto que você teme está nas periferias das cidades brasileiras que você nunca visitou, e ele não foi construído por nenhum governo popular — foi construído por séculos de abandono deliberado de uma elite que sempre preferiu manter o povo doente, sujo e com medo, porque um povo que não tem dignidade não tem força para se organizar. Lula, com todos os erros que qualquer político comete, foi o primeiro presidente que olhou para esse esgoto e disse: “aqui mora gente, e essa gente vai jantar hoje”. Pode me chamar do que quiser, mas isso, Pedro, tem nome: chama-se amor ao povo. E amor ao povo não se aprende em current de Telegram, aprende-se lendo a história que você tanto despreza.
Veja, eu não vou te xingar de volta, porque sou professora e você, no fundo, está precisando de uma aula e de um abraço, possivelmente nessa ordem. Mas também não vou deixar que essa narrativa preguiçosa fique pairando sem resposta, como se tivesse fundamento. Você não odeia o comunismo, porque nunca o viu em funcionamento; você odeia a ideia de que um trabalhador tenha o mesmo direito à vida digna que você acha ser privilégio de quem nasceu com sobrenome certo. A gente pode discordar de métodos, de estratégias, de discursos — isso é democracia, e eu respeito o seu direito de ter raiva. Mas o que eu não respeito é a covardia de pegar 63 milhões de almas, que acordam todo dia antes do sol para construir este país, e reduzi-las a um bloco monstruoso que merece ser jogado ao mar. Na próxima vez que escrever, Pedro, tenta trocar o xingamento por um fato histórico, pelo menos um, que aí a conversa sobe de nível e a professora aqui até te dá um visto no caderno. Até lá, fica combinado que você veio à escola errada e ficou de castigo na própria ignorância, enquanto o povo — esse mesmo que você despreza — continua fazendo o que sempre fez: teimando em existir e, vez por outra, em ser feliz.
Marina Costa
23/05/2026
Enquanto o povo brinca de idolatria política, esquece que só há um Rei que realmente governa as nações. Esses 63 milhões de votos não são só um número — são almas que estão trocando a verdade bíblica por promessas vazias e pautas imorais que destroem a família. Oremos pelo Brasil, porque sem arrependimento não há salvação, nem na urna nem na eternidade.
Lucas Pinto
23/05/2026
Marina, reconheço a força do seu apelo — e é precisamente por reconhecê-la que preciso levar a sério o que ele oculta. Não se trata aqui de negar a transcendência como experiência subjetiva, mas de recusar sua instrumentalização como dispositivo de poder. Gramsci já nos alertava que a hegemonia não se impõe só pela força bruta da farda, como sugeriu o João Silva com razão, mas sobretudo pela capilaridade dos consensos morais que penetram nas igrejas, nas famílias, nas subjetividades — e o discurso do “Rei que governa as nações” é um desses artefatos. Não há inocência em erigir um trono extraterreno justamente quando 63 milhões de corpos reais, suados e famintos, depositaram seu voto não em promessas vazias, mas na recusa desesperada de um sistema que já os havia condenado à morte social. Chamar isso de “idolatria política” é ignorar que a fé que você propõe também é política: uma política de resignação que transforma a fome em provação espiritual e a injustiça em mistério divino, eximindo as estruturas reais de opressão de qualquer responsabilidade terrena.
A “verdade bíblica” que você contrapõe às “pautas imorais que destroem a família” é, historicamente, o verniz sagrado de uma instituição muito terrena: a família nuclear monogâmica como unidade econômica de reprodução da propriedade privada. Foucault nos ensinou que o poder pastoral moderno não se limita a prometer a salvação no além — ele produz, aqui e agora, corpos dóceis, sexualidades normatizadas, culpas que exigem extração constante de confissão e obediência. Quando você diz que são “almas trocando a verdade”, está falando de corpos que ousaram votar contra o arrocho fiscal que sufoca suas famílias concretas, contra o encarceramento em massa dos seus filhos, contra a necropolítica que Mbembe descreve — e o seu discurso religioso, ao despolitizar essa revolta traduzindo-a como erro teológico, funciona como o braço ideológico dessa mesma máquina de matar. A família que você quer proteger numa abstração moral é a mesma que o Estado abandona à míngua quando corta o Bolsa Família, quando normaliza o extermínio policial nas periferias, quando deixa as crianças comerem o pão que o diabo amassou porque o “Rei” só age no coração dos homens — nunca no orçamento público.
Desloquemos, então, o olhar: não são as urnas que secularizam a escatologia, é a escatologia cristã que vem servindo de anestesia para que as urnas do necropoder nunca sejam viradas. O discurso do arrependimento individual como condição de salvação eterna gera, objetivamente, sujeitos menos propensos à insurreição histórica — afinal, se a verdadeira justiça pertence a um reino que não é deste mundo, para que ocupar terrenos, pressionar deputados, derrubar o capitão de plantão? Esse é o produto mais refinado do capitalismo de crise: uma teologia que transforma comunidades inteiras em cordeiros mansos diante do matadouro, enquanto o jacaré vermelho — ou o verde-oliva — devora os corpos na terra. Os 63 milhões que você quer converter pela oração são trabalhadores que sentem na pele que a promessa de prosperidade da teologia do domínio ou a promessa de equilíbrio da social-democracia jamais se cumpriram. A solução que você oferece, o “arrependimento”, é a mesma que os algozes oferecem às vítimas: perdoai-vos, reconciliai-vos com vossa condição, aceitai que o plano de Deus é insondável — enquanto isso, as estradas que o Beto ironizou continuam esburacadas, mas o fluxo de capital financeiro entre paraísos fiscais nunca esteve tão pavimentado.
Então não, Marina: oremos por outra coisa. Oremos — se ainda couber essa palavra no vocabulário dos que não se curvam a transcendências — pela lucidez materialista que recusa tanto a idolatria estatal do Capitão Tavares quanto a idolatria devocional que você representa. Porque a verdade bíblica que você invoca nasceu de um homem executado pelo Império Romano como subversivo político, cujo corpo torturado não era metáfora de nada: era carne rasgada pelo mesmo tipo de poder que hoje assina a carteira de trabalho flexível ou puxa o gatilho na viatura. Se há salvação a ser buscada, é a desobediência que arranca da cruz o símbolo de submissão e o devolve ao seu lugar original: instrumento de suplício que um dia foi virado de cabeça para baixo por quem se recusava a ajoelhar diante dos reis deste mundo — ou do outro.
Eduardo Nogueira
23/05/2026
Enquanto os iluminados debatem Leviatã no ar condicionado, o jacaré já degustou 63 milhões de cérebros. O remédio o Capitão deu em bandeja: farda sem aviso, ou vão esperar virar uma Cuba com feijoada?
João Silva
23/05/2026
Curioso você zombar da teoria, Eduardo, enquanto repete sem saber a tese mais velha da direita brasileira: povo que vota “errado” merece farda. Só que a farda nunca mirou no andar de cima — ela é o seguro que a elite sempre teve pra quando o voto incomoda.
Beto Engenheiro
23/05/2026
Enquanto esse povo fica discutindo Leviatã e necropolítica, o Brasil segue com as mesmas estradas esburacadas e sem um trem de carga decente. 63 milhões de votos e zero debate sobre logística. Sem obra não tem crescimento, o resto é conversa fiada.
Capitão Tavares 🇧🇷
23/05/2026
63 milhões ainda lambendo a bota desse verme. Daqui a pouco não adianta chorar o leite derramado, porque a conta vem em sangue. Qual PF ou PC prende essa desgraça se o povo bate palma? A única faxina possível agora é a que vem de farda, e sem aviso prévio.
Cristina Rocha
23/05/2026
Capitão Tavares, o senhor nos oferece, com uma franqueza quase didática, a expressão mais destilada daquilo que o pensamento político contemporâneo, a partir de Achille Mbembe, reconhece como necropolítica: o poder de decidir quem deve morrer e quem pode viver, travestido de “faxina”. A metáfora da limpeza, aplicada a corpos humanos transformados em dejetos — “verme”, “imundície” — não é uma novidade histórica, mas a repetição sintomática de um roteiro colonial e escravocrata que as elites brasileiras conhecem bem. O que o senhor chama de “única faxina possível” é justamente o estado de exceção permanente que Giorgio Agamben identificou como núcleo do fascismo: a produção de uma vida nua, matável sem que o ato configure crime. Ao suspender o direito e a política em nome de uma ordem que viria “de farda, sem aviso prévio”, o senhor não resolve contradição alguma do capitalismo periférico; apenas repete o gesto fundacional do poder patriarcal que, diante de qualquer crise orgânica, responde com a ereção do fuzil como significante-mestre.
Quando o senhor diz que os 63 milhões “ainda lambem a bota desse verme”, opera um duplo apagamento que a crítica feminista e antirracista precisa desmontar. Primeiro, transforma a vontade popular — que votou, sim, em ampla maioria, e cuja legitimidade é o pressuposto do jogo democrático — em uma massa bovina, irracional, seduzida. Essa infantilização do “povo” é a velha artimanha do paternalismo autoritário: porque a multidão não se comporta como o senhor espera, ela deixa de ser sujeito político e vira gado a ser purgado. Depois, ao conjurar a figura do “verme” e da “bota”, o senhor aciona um imaginário de contágio e sujeira que é profundamente racializado. “Faxinar” sempre foi o verbo preferido das classes proprietárias quando precisavam justificar a invasão de territórios quilombolas, as câmaras de gás, as valas clandinas da ditadura. A “farda” que o senhor invoca não vem para proteger; ela vem, como ensina a história recente, para exterminar os corpos negros, indígenas e periféricos que o projeto de modernização conservadora sempre tratou como obstáculo. Sua solução é, portanto, não um remédio, mas a continuação do mesmo mal que diz combater: a redução do outro a matéria descartável, cuja eliminação traria uma suposta assepsia social.
O “jacaré vermelho” que a direita tantas vezes evoca como um Leviatã devorador não está fora do governo, não é uma entidade estranha que tomou o aparelho de Estado; ele é justamente a pulsão autoritária que o senhor manifesta com tanta naturalidade. Trata-se da velha encarnação, que Marx já diagnosticara no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, de um bonapartismo que se apresenta como salvador da ordem enquanto destrói a mediação política. Fala-se em “conta em sangue” como se a violência fosse uma realidade exterior que virá cobrar impostos atrasados, quando, na verdade, ela já é a gramática cotidiana do país que assassina Marielles, que empilha corpos em Paraisópolis sob operações do Estado. O seu texto é a confissão involuntária de que, para certos setores, a democracia é apenas um entrave a ser removido quando o resultado das urnas contraria seus interesses. E, nesse ponto, senhor Capitão, preciso lhe dizer com todas as letras: a “faxina de farda” não é ruptura, é a essência mesma do que Frantz Fanon chamou de “sonho de virilidade” do colonizador, a tentativa desesperada de reafirmar uma masculinidade ferida por meio da aniquilação do outro. É o gozo mórbido do soberano que precisa ver sangue para se sentir vivo. E contra esse gozo, a filosofia e a práxis feminista erguem outra ética: a da responsabilidade pela vida compartilhada, que não se limpa com baionetas, mas com justiça social e memória. Enquanto o diagnóstico for feito por fardas, a presa nunca entenderá que o jacaré já está morto — e que o que nos devora é, há séculos, o pacto de branquitude que o senhor tenta reencenar.
John Marshall
23/05/2026
O “jacaré vermelho” me parece uma variante tropical do Leviatã de Hobbes: um soberano temido, mas que muitos preferem à insegurança do estado de natureza eleitoral. O debate entre a teologia do pecado e a economia da mais-valia perde o essencial — para Locke, a degeneração do poder nasce quando o trust é violado repetidamente e a memória institucional não consegue sancioná-lo. Os 40% não são só esquecimento ou fé cega; são também o sintoma de um contrato social que nunca se completou.
Padre Antônio Rocha
23/05/2026
Enquanto alguns aqui tentam explicar o mal com teorias sociológicas, esquecem o óbvio: uma nação que expulsa Deus da vida pública colhe os frutos amargos da corrupção e da memória curta. O jacaré só devora porque o povo perdeu o temor do Senhor e a noção do pecado. Sem volta à moral cristã e à família tradicional, continuaremos esse ciclo de autoengano.
Julia Andrade
23/05/2026
Padre Antônio, com todo o respeito, o senhor opera um deslizamento retórico que é tão sedutor quanto perigoso: transforma um problema estrutural e político num déficit de temor metafísico. Ao afirmar que “o jacaré só devora porque o povo perdeu o temor do Senhor”, o senhor apaga o fato histórico de que essa mesma criatura nadava tranquilamente nos rios da cristandade colonial, abençoada por capelães, sustentada por famílias tradicionais que viam na escravização de corpos negros e na submissão das mulheres uma ordem natural querida por Deus. O temor que o senhor reivindica não impediu a corrupção sistêmica; ele a revestiu de unção. A memória curta que o senhor diagnostica não é um lapso espiritual — é o sintoma de uma política que aprendeu a instrumentalizar exatamente essa nostalgia por uma ordem perdida, que nunca foi tão virtuosa quanto a imaginação religiosa insiste em pintar.
E já que o senhor trouxe a “família tradicional” como baluarte contra o autoengano, permita-me uma provocação feminista que o Renato Professor, com seu materialismo histórico, não fez: a defesa dessa família como núcleo moral incorruptível ignora que ela foi, sistematicamente, o espaço privado onde o jacaré aprendeu a morder primeiro. Foi dentro do lar patriarcal, santificado pela doutrina da submissão feminina, que se naturalizou a ideia de que uns corpos existem para servir a outros — seja no trabalho doméstico não remunerado, seja na obediência que prepara o cidadão para aceitar, sem questionar, a autoridade de quem “sabe mais”. Não há salto epistemológico aqui: há uma continuidade entre a hierarquia do pai sobre a esposa e os filhos, e a hierarquia do patrão, do político, da engrenagem que suga o trabalhador no tanque de combustível. Se o senhor quer denunciar a corrupção, precisamos perguntar por que tantos defensores da moral cristã e da família tradicional estavam, e estão, entre os que negociam o diesel e compram votos sem que sua fé os incomode minimamente. Talvez o problema não seja a falta de temor; é a sobra de certezas sobre quem merece ser temido e quem merece ser domesticado.
A minha discordância, portanto, não é com a necessidade de uma ética compartilhada — essa eu reconheço como urgente. É com a ideia de que essa ética só pode ser restaurada por um retorno ao monopólio de uma moral cristã específica, como se a esfera pública fosse uma igreja em ruínas. O que assusta no jacaré não é sua suposta alma ímpia; é sua capacidade de se alimentar da exclusão concreta de corpos que não se encaixam nessa narrativa única de virtude — corpos negros, femininos, dissidentes, periféricos. O ciclo de autoengano que o senhor menciona não se quebra com mais oração pela restauração de uma família idealizada; se quebra quando entendemos que a política precisa produzir memória, sim, mas uma memória que inclua a dor de quem nunca teve o direito de sentar à mesa da tradição e decidir o que era pecado. Enquanto o diagnóstico for o senhor quem der, de cima de um púlpito que jamais precisou temer o tanque vazio, o jacaré continuará nadando tranquilo — e batizado.
João Batista Alves
23/05/2026
É triste constatar que, mesmo com tantos escândalos e a destruição moral dos últimos anos, a criatura ainda seduz multidões com promessas vazias. O povo esquece que o preço do pecado sempre aparece na despensa e no tanque de combustível, como bem lembrado pelo João. Só a oração e um verdadeiro despertar espiritual para tirar o Brasil desse engano, porque enquanto a alma estiver anestesiada pela esmola, a família continuará refém do jacaré.
Renato Professor
23/05/2026
Reduzir a carestia a uma questão de “pecado” e “despertar espiritual” é um salto epistemológico que faria corar qualquer materialista histórico: o jacaré não tem alma, ele tem taxa de mais-valia. Enquanto o diagnóstico for teológico, a presa nunca entenderá a engrenagem que a devora.
João Carvalho
23/05/2026
Papo de compra de voto é fácil, quero ver comprar o óleo diesel com esses 40% de intenção. O jacaré vermelho só nada porque o povo tem memória curta, mas o tanque do ônibus não esquece o preço. Tá tudo errado, e o trouxa aqui continua rodando pra sustentar essa máquina corrupta.
Márcio Torres
23/05/2026
João, a imagem do “jacaré vermelho” é poderosa, quase mitológica, e por isso mesmo merece ser dissecada com o instrumental cético que você provavelmente aprovaria. O problema não é a metáfora — ela capta bem a sensação de ser engolido por uma engrenagem maior —, mas o que ela esconde. Ao personalizar um sistema político-econômico inteiro num único réptil escarlate, você cria um bode expiatório tão sobrenatural quanto os demônios que os religiosos usam para explicar suas desgraças. A questão não é se o jacaré nada com facilidade; é por que tanta gente continua jogando alpiste na lagoa, para esticar a alegoria. A resposta preguiçosa é “memória curta”. A resposta cética exige mais: como pode um eleitorado que lembra perfeitamente da hiperinflação dos anos 90, que cita o preço do arroz com precisão de centavos, ter simultaneamente amnésia política? Há aí uma contradição que a ciência política resolve melhor com o conceito de “miopia racional” do que com acusações de estupidez. O eleitor médio não esquece; ele apenas aplica um desconto hiperbólico — a dor do diesel hoje pesa mais na consciência do que a corrupção abstrata de amanhã, mas o medo de voltar a uma fome que ele já sentiu no passado profundo também pesa, e muito. Isso não é memória curta; é uma hierarquia de medos que você, rodando o dia inteiro, conhece melhor do que ninguém.
O tanque do ônibus não esquece o preço, concordo. Mas você supõe que a única tradução política desse incômodo seja a punição eleitoral imediata, e aí mora uma falácia de projeção: o motorista que sente o diesel no bolso imagina que sua indignação econômica seja universal, quando, na verdade, ela disputa espaço com outras indignações que não aparecem no tanque. Para o microempreendedor do bairro, o que assombra pode ser o crédito. Para o desempregado, a retomada do auxílio. Para a diarista, a volta das feiras livres com preços acessíveis no atacado popular. Nenhuma dessas pessoas está “comprada” ou necessariamente amando o jacaré; elas estão operando com uma racionalidade de sobrevivência que não se mede apenas pelo preço do combustível. Tratar os 40% como um bloco monolítico comprado ou amnésico é recair na mesma lógica de torcida que seus colegas de thread criticaram, só que com o sinal trocado: em vez de demonizar o adversário, você demoniza o eleitor que não age como seu sofrimento pessoal exige.
E aí sobra a “máquina corrupta”, esse ente fantasmagórico que perpassa seu comentário e o de tantos outros. Não vou cair no clichê de dizer que corrupção é generalizada, embora seja. Meu ponto como analista político é mais específico: a ideia de uma máquina corrupta monolítica é o equivalente secular do Diabo — serve para dar nome a tudo que nos oprime sem exigir que a gente entenda os mecanismos reais de financiamento de campanha, emendas parlamentares, coalizões de governo e dependência fisiológica do Centrão que afetam tanto um governo vermelho quanto um azul. Enquanto o diagnóstico for “o jacaré é corrupto por natureza”, a conversa continuará sendo religiosa, não política. Você diz que “tá tudo errado” e eu concordo na essência: está mesmo. Mas se o trouxa (suas palavras, não as minhas) continua rodando para sustentar isso, a ironia é que o mesmo sistema que te espreme é o que garante que, em eleições seguintes, você vá procurar um salvador da pátria que prometa matar o jacaré com as próprias mãos — para logo descobrir que o réptil tinha filhotes, ou que a lagoa é que está poluída muito antes de ele chegar lá. A memória curta, afinal, nunca é só do eleitor.
Clarice Historiadora
23/05/2026
Reduzir 40% de intenção de voto a “compra de voto” é uma análise sociológica tão rasteira que faria corar até os funcionalistas mais dogmáticos dos anos 1950. O eleitorado lembra da fome que não sente mais — e esse fantasma assombra muito mais do que qualquer teoria conspiratória rastaquera sobre “jacaré vermelho”.
José dos Santos
23/05/2026
Pedro falou tudo. Rodo de app o dia inteiro e a conversa é sempre a mesma: gasolina cara, inflação comendo solta e o povo reclamando. Mas na urna parece que ninguém lembra do preço do arroz. Tá difícil acreditar que esses 40% vão mudar alguma coisa no meu tanque ou no supermercado.
Mariana Costa
23/05/2026
O Pedro resumiu bem o cansaço que essa thread dá. É desesperador ver gente tratando 40% de intenção de voto como se fossem todos “comprados”, como se o eleitor não tivesse memória ou razões próprias para suas escolhas. Mas também acho raso ignorar que a máquina pública pesa, para todos os lados — o problema é quando a crítica vira seletiva e vira torcida.
Pedro Silva
23/05/2026
Olha esses comentário tudo e já deu preguiça. É sempre a mesma briga de torcida, um lado chamando o outro de mamador e ninguém resolve nada. Tô rodando de app o dia inteiro e o que eu vejo é geral reclamando igual, mas na hora do voto vai nesses mesmo de sempre. 40% do Lula não me surpreende não, daqui a pouco aparece outro com 35% e a gente continua nesse looping sem saída.
Cíntia Alves
23/05/2026
Engraçado como o debate já começa com o pé trocado: de um lado, reduzem 40% a compra de voto, do outro, tratam qualquer crítica ao Bolsa Família como elite desumana. Falta alguém perguntar por que tanta gente ainda vê no Lula uma saída, mesmo depois de tudo — não seria mais produtivo entender isso do que trocar rótulos prontos?
Carlos Mendes
23/05/2026
Falar em entrega de resultado é bonito, mas com 40% do eleitorado comprado com orçamento secreto e Bolsa Família turbinado, o asfalto nunca vai sentir no bolso porque o buraco é fiscal. O mercado não acolhe? O Estado também não — ele apenas adia a conta com inflação e dívida pública. Enquanto isso, os dois lados se revezam mamando no mesmo cocho.
Marina Silva
23/05/2026
Bolsa Família é sobrevivência, não compra de voto, acorda pra realidade, seu elitista de merda.
Evelyn Olavo
23/05/2026
O Rick descobriu que imposto existe, mas ainda não descobriu que o “estado babá” também paga asfalto pra ele dirigir e polícia pra ele não ser assaltado enquanto chora no Twitter. Mas é mais fácil chamar os outros de mamadores do que entender que viver em sociedade é isso, parceiro.
Ana Karine Xavante
23/05/2026
Evelyn, você tocou num ponto que me faz querer puxar a conversa um pouco mais pro chão onde eu piso. Porque quando o Rick chama quem depende do Estado de “mamadores”, ele não está só sendo grosseiro — ele está reeditando uma ficção colonial muito antiga, aquela que divide o mundo entre os que “produzem” e os que “sugam”. Só que essa régua nunca mediu o que realmente importa. O asfalto que ele usa pra dirigir? No meu território, o asfalto chegou primeiro como ferida: abriu a floresta pra madeireira, levou mercadoria e levou gente, mas deixou a aldeia sem água limpa porque a estrada assoreou o igarapé. A polícia que protege o direito de propriedade dele? Aqui, quando não está nos matando diretamente, está protegendo grileiro que finca cerca em cima de cemitério ancestral. O tal “Estado babá” que ele despreza nunca foi babá do meu povo — foi capataz. E parte da esquerda ainda insiste em defender essa estrutura sem olhar direito pras suas fundações sujas, como se o problema fosse só o orçamento e não a lógica de mundo que ele impõe.
Mas você tem razão no essencial: chamar os outros de mamadores é uma covardia que só prospera quando a gente apaga a trama de interdependência que mantém qualquer um de nós de pé. Só que eu preciso radicalizar essa premissa — porque eu não quero só que o Rick entenda que ele também recebe algo do Estado; eu quero que ele entenda que a própria ideia de “receber” e “pagar” já está corrompida por uma ontologia possessiva que trata a terra como recurso e a vida como mercadoria. Os 63 milhões de votos que o Carlos citou não são uma planilha de gasto público, são gente que, se não tivesse Bolsa Família, merenda ou SUS, estaria debaixo da terra ou empurrada pra uma informalidade que o mesmo mercado que o Rick idolatra suga até o tutano. O meu povo sabe que o que sustenta a comunidade não é a eficiência fiscal, é a obrigação de cuidar. Nós não chamamos a terra de “mamadora” porque ela nos dá mandioca e peixe. Chamamos de mãe. E o Estado, mesmo o colonial, quando distribui vacina e aposentadoria, está cumprindo — mal, torto, tarde — uma função que nas nossas sociedades nunca foi estatal: era da família extensa, do clã, do território. O mercado nunca fez isso e nunca fará, porque o mercado só acolhe quem consegue pagar pra ser acolhido.
O que me assusta não é o Rick ser um deslumbrado que repete senso comum de fórum de investimento. É que ele expressa, com a pureza brutal de quem nunca precisou se enxergar como parte de um ecossistema, um projeto de mundo que está matando tudo lentamente. Essa ânsia de enxugar o Estado e deixar tudo ao deus-mercado é a mesma lógica que transformou a Amazônia em pasto, o Cerrado em carvão, o Pantanal em cinza. Porque quando você julga que a única contribuição válida é a que gera lucro e que todo o resto é parasitismo, você automaticamente sentencia à morte os modos de vida que não são chancelados pela mercadoria: o indígena que não consome mas cuida, a quebrada que se organiza em mutirão mas não emite nota, a mulher que trabalha sem carteira e segura a casa nas costas. Esses 63 milhões não são um bloco de votos, são um grito plural de quem já entendeu, na pele, na fome, na fila do posto, que sem o mínimo de amparo coletivo a gente não é mais humano — vira estatística, vira Jacaré Vermelho buchando os mais fracos no rasinho do orçamento. E é muito sintomático que essa conversa toda comece justamente com a imagem de um “jacaré vermelho” voltando a atacar — porque no meu imaginário ancestral, o jacaré é bicho de poder, guardião das águas, mas também pode ser a fúria do rio contra quem tenta represar o que não se represa. O recado está dado há muito tempo. Basta quem quiser ouvir.
Rodrigo Meireles
23/05/2026
O papo de “mamadores” é inútil quando o que está na mesa são 63 milhões de votos consolidados. Isso não se derrete com ironia de internet, se resolve com entrega de resultado que o asfalto sinta no bolso — inflação baixa, crédito rodando e menos burocracia. Enquanto o discurso for só metáfora e fúria, o jacaré segue jantando tranquilo.
Rick Ancap
23/05/2026
63 milhões de mamadores profissionais e eu aqui sem um puto no bolso pra pagar essa festa. Viva o estado babá.
Carlos Rocha
23/05/2026
Enquanto uns choram as pitangas da polarização afetiva e outros invocam a flora, a realidade é mais seca: 40% de intenção de voto nesse projeto de poder significa 63 milhões de pessoas dispostas a drenar o caixa de quem produz para sustentar uma máquina estatal obesa e ineficiente. O mercado não reza, ele precifica — e esses números são um baita risco-país. A fatura, como sempre, não vai para o andar de cima do jacaré.
Cecília Ramos
23/05/2026
Carlos, chamar de “máquina estatal obesa” o que garante merenda, vacina e aposentadoria é esquecer que o mercado precifica, mas não acolhe. O Deus a quem sirvo cobra justiça, não eficiência fiscal — e esses 63 milhões não são um “risco-país”, são imagem e semelhança do Criador que o deus-mercado insiste em descartar.
Eduardo Teixeira
23/05/2026
Enquanto perdem tempo discutindo metáfora e alma da nação, o mercado já está precificando o estrago fiscal. O problema não é o jacaré ser vermelho ou azul, é que qualquer réptil desse tamanho precisa ser alimentado, e a conta sempre sobra para quem produz. Esses 40% me dizem que terei de recalcular o fluxo de caixa da empresa para 2026 com uma mordida tributária ainda maior — se é que ainda estarei no Brasil.
Mariana Santos
23/05/2026
Engraçado você falar em “quem produz”, Eduardo. O que o seu fluxo de caixa realmente precifica é a socialização dos custos — infraestrutura, mão de obra formada com dinheiro público, subsídios — enquanto os lucros seguem estritamente privados. Quando ameaça sair do Brasil, só confessa o que Marx já anotava: o capital não tem pátria, mas sempre exige que o Estado sirva de fiador do seu risco.
Ana Paula Conserva
23/05/2026
Que tristeza ver o Brasil ainda dar tanto crédito a quem já mostrou quem é. Mas como cristã, meu combate não é contra pessoas, e sim contra as ideias que afastam nossa nação de Deus. Sigo orando e confiando que a verdade prevalecerá.
Mariana Ambiental
23/05/2026
Ana Paula, então vamos mirar nas ideias que realmente afastam o Brasil de Deus: a conversão da Criação em commodities, a destruição de biomas pra especulação financeira. Orar pela verdade inclui escutar o gemido da terra que o mesmo capital que esses 40% defendem insiste em calar.
Carmem Souza
23/05/2026
Que tristeza ver cristãos se referindo a irmãos como “gado” ou “praga”. Nossa luta não é contra carne e sangue, e tratar metade do país como inimigo a ser exterminado só adoece a alma e a nação.
Maria Silva
23/05/2026
Esse jacaré vermelho com 40% é a prova de que ainda tem muito gado manso pastando em terra seca, achando que vai chover dinheiro do céu. Aqui na roça a gente sabe: praga que não se mata no começo devora a plantação inteira.
Mariana Oliveira
23/05/2026
Maria, essa sua metáfora da praga que devora a plantação carrega uma sintaxe que o Brasil conhece bem: é a linguagem da desinfecção social. Quando você transforma 40% do eleitorado em “gado manso” e ainda acrescenta que praga se mata no começo, não está apenas divergindo politicamente — está invocando um imaginário que, historicamente, serviu para justificar extermínios. Basta lembrar que o discurso do “gado” e da “erva daninha” foi o mesmo usado nas campanhas de higienização das cidades no início do século XX, quando cortiços eram demolidos e as populações negras e pobres expulsas dos centros urbanos sob o argumento de que eram focos de “peste”. A mesma lógica que, no campo, legitimou o extermínio de comunidades indígenas e quilombolas que ocupavam terras que o latifúndio desejava: eles eram “pragas” que impediam o progresso. Você não está falando sozinha — ecoa uma longa tradição de desumanização que permite, primeiro na retórica e depois na prática, tratar vidas como mato a ser arrancado.
E é curioso que você se apresente como “gente da roça” para dar autoridade ao seu discurso, porque a roça que você idealiza nunca existiu para a maioria dos corpos que trabalham nela. A roça brasileira é, antes de tudo, um território de corpos explorados: foram costas negras que sustentaram a plantation por quase quatro séculos; são mãos indígenas que seguem arrancando mandioca e macaxeira em terras que lhes foram roubadas; são mulheres camponesas, muitas delas chefes de família, que enfrentam jornadas de sol a sol sem acesso a direitos básicos. Quando você fala em “jacaré vermelho”, está demonizando um projeto político que, com todas as suas contradições, conseguiu tirar milhões dessas pessoas da fome pela primeira vez. Não é “dinheiro caindo do céu” que explica os 40% — é a memória concreta de ter o que comer, de poder mandar o filho pra escola, de não perder tudo numa enchente que o agronegócio ajudou a causar ao drenar nascentes e desmatar encostas.
Sua metáfora da “plantaçao” também revela um ponto cego perigoso: você naturaliza a ideia de que a terra é sua e que qualquer força que ameace seu controle é uma invasão daninha. E aqui vale trazer a reflexão de bell hooks, que nos lembra que na estrutura de plantation a terra sempre foi um espaço de disputa, nunca uma propriedade natural. O “jacaré” que você tanto teme não é um predador vindo de fora; ele emerge justamente do solo que sua narrativa tenta deixar estéril. Se há praga nessa história, não são os 40% que ousam votar contra a lógica do agronegócio e do fundamentalismo de mercado. A praga é o discurso que reduz a complexidade popular a um organismo a ser exterminado, discurso que se finge de senso comum da roça mas que, no fundo, reproduz o mesmo gesto do colonizador: achar que só a sua lavoura merece vingar.
Clotilde Pátria
23/05/2026
Meu Deus do céu, 40% ainda?? Esse povo não aprendeu nada com o petrolão, com a roubalheira, com o mensalão? Só Jesus na causa pra livrar o Brasil desse comunismo disfarçado que vai acabar com o que sobrou da nossa pátria. Acordem enquanto é tempo, antes que viremos de vez uma Venezuela!
Paulo Rocha
23/05/2026
Helton, falou tudo. Essa patota adora citar filósofo pra disfarçar o cheiro de soviete, mas quando a conta chega no bolso do trabalhador, eles somem. Faz o L agora e depois vai pra Cuba buscar papel higiênico. Brasil pra brasileiros, não pra essa esquerda caviar que vive de maracutaia com dinheiro público.
Helton Barros
23/05/2026
Esses 40% são a prova viva de que o Brasil tá doente, refém de uma massa que troca pão por circo e endeusa quem sempre tratou a pátria como capacho de ditadura. Fico só observando essa patota aí citando Paulo Freire e Aristóteles pra justificar a boiada andando… acordem, o buraco é muito mais embaixo e não vai ser com cold wallet que vocês vão segurar o caos quando a família e a moral cristã ruírem de vez.
Mariana Alves
23/05/2026
Helton, sua intervenção carrega um desprezo sociológico que merece dissecação cuidadosa. Ao tratar os “40%” como uma massa homogênea, doente e refém de pão e circo, você replica exatamente o gesto das elites que, desde o Império, atribuem às classes populares uma minoridade cognitiva e moral que justificaria sua tutela autoritária. Ora, o conceito de falsa consciência, em Marx, nunca significou imbecilidade congênita, mas o efeito estrutural de uma sociabilidade que naturaliza a exploração. Chamar de “boiada” quem não compartilha sua leitura de mundo é abdicar de compreender as mediações reais — a precariedade laboral, a destruição dos laços comunitários pela financeirização, a captura do sagrado pelo empreendedorismo de púlpito — que tornam a adesão a certos discursos não um surto coletivo, mas uma estratégia de sobrevivência simbólica em meio ao desamparo material. A antropóloga Lilia Schwarcz já mostrou como o autoritarismo brasileiro sempre se alimentou da fantasia de um povo incapaz, que precisaria de um timoneiro forte para não se afogar na própria irracionalidade; esse enredo, você sabe, termina invariavelmente em violência de Estado.
O que mais me intriga, contudo, é o recurso à “família e moral cristã” como dique contra o caos que seria incapaz de ser contido por uma cold wallet — ponto em que você, curiosamente, acerta, embora pelas razões erradas. De fato, a criptomoeda não salvará ninguém, mas tampouco o fará a invocação reativa de uma instituição que o próprio capitalismo que você parece defender se encarregou de dinamitar por dentro. A família nuclear burguesa, como Engels demonstrou n’A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, é indissociável da lógica patrimonial e da divisão sexual do trabalho que transforma corpos em unidades de acumulação. E a moral cristã, quando instrumentalizada como retórica de ordem, serviu historicamente — de Constantino à teologia da prosperidade — para sacralizar hierarquias terrenas e converter a promessa escatológica em anestésico para as injustiças imanentes. Se há um buraco embaixo, ele não está na suposta ruína dos valores tradicionais, mas na incapacidade de encararmos que é o próprio modo de produção, com sua compulsão por liquefazer todos os vínculos sólidos — inclusive os familiares e comunitários —, que gera a anomia que tanto se teme.
A “patota” que cita Paulo Freire e Aristóteles, como você diz com ironia, o faz justamente para escapar do fatalismo binário que reduz a política a uma guerra entre uma elite iluminada e uma horda bestializada. A categoria de hegemonia, em Gramsci, não se constrói desqualificando o senso comum como doença, mas disputando-o a partir de suas contradições internas, oferecendo direção moral e intelectual que organize afetos e interesses em um projeto coletivo. Tratar semelhante tarefa como perda de tempo diante de um diagnóstico terminal é, no fundo, a confissão de um elitismo que prefere a catástrofe à transformação radical — porque a primeira, pelo menos, confirma a superioridade profética de quem a anunciou. Se o caos vier, garanto que não será a moral cristã reivindicada como brasão identitário que oferecerá abrigo, mas sim os laços de solidariedade de classe e os movimentos sociais que hoje, apesar dos 40%, seguem construindo formas de vida que não dependem da exclusão, da hierarquia ou da chantagem do medo para se sustentarem.
Maria Antonia
23/05/2026
Galera, dá pra debater política sem descer o nível. O que me incomoda mesmo é essa soberba de coach cripto, como se cold wallet fosse prova de QI. Eu toco minha empresa há 20 anos, gero empregos de verdade, e essa idolatria infantil por soluções mágicas descentralizadas só mostra quem nunca lidou com um balanço contábil de verdade. Menos arrogância e mais lastro na realidade, que o país precisa.
Ronaldo Pereira
23/05/2026
Maria Antonia, chamar de “emprego de verdade” o que sua empresa gera há 20 anos é ignorar que todo balanço contábil esconde a taxa de exploração da mais-valia — a diferença entre o valor que sua força de trabalho produz e o salário que pinga no contracheque. A realidade que o país precisa não é a do patrão que se orgulha de gerar empregos enquanto acumula capital, mas dos trabalhadores que constroem essa riqueza e nunca veem ela voltar em direitos.
Pedro Almeida
23/05/2026
Chamar de “jacaré vermelho” é animalizar o debate, um recurso rasteiro que Maquiavel já condenava: quem insulta não constrói hegemonia, só expõe a própria indigência argumentativa. Já o paraíso cripto do Rodrigo é a utopia do indivíduo autossuficiente, ignorando o velho Aristóteles — quem vive fora da pólis ou é deus ou é besta, e flertar com o colapso federativo não tem nada de divino.
Rodrigo RedPill
23/05/2026
Aham, 40% de um bando de low IQ que não sabe nem o que é líquido circulante e fica lambendo bota de ex-presidiário. Enquanto isso eu tô com parte do capital em DeFi girando a 20% ao mês e o resto em cold wallet pra quando a merda federativa implodir de vez. Mas continuem aí, o cope de vocês é o que alimenta minha saída desse barco furado.
João Carlos da Silva
23/05/2026
Sua fala é a encarnação perfeita do que Paulo Freire denunciava como “consciência hospedeira do opressor”: você se crê externo ao barco, pairando sobre o naufrágio com sua cold wallet, mas é justamente esse desprezo pelo lastro social da moeda e pela inteligência do povo que produz a “merda federativa” da qual tenta fugir — pois, como nos alertava um velho barbudo, não há saída individual para uma crise que é estrutural.
Celio Fazendeiro
23/05/2026
Esse jacaré vermelho ainda ter 40% mostra que o Brasil tá cheio de gente que não produz um pé de mandioca e vive de auxílio. Tinha era que passar a motosserra em metade dessas reserva aí e botar gado logo, que aí acaba a conversa fiada.
Marcos Andrade Niterói
23/05/2026
Esse pensamento de motosserra e boi solto é o mesmo que quer asfaltar a Baía em vez de investir em metrô. Enquanto Niterói prova que planejamento urbano de verdade gera emprego e qualidade de vida sem destruir reserva, a extrema-direita aplaude o agro predatório que só enriquece latifundiário e deixa o trabalhador sem ar pra respirar.
Mariana Lopes
23/05/2026
Chamar de “jacaré vermelho” só desvia o foco do que realmente importa. Enquanto um lado se agarra a apelidos, o outro se esconde atrás de memes, e quem quer discutir o país de verdade fica no meio desse fogo cruzado. A polarização cansa, e esse número sólido de 40% talvez seja menos convicção e mais reflexo de um eleitorado sem saída.
Luan Silva
23/05/2026
Faz o L nunca mais, jacaré vermelho!
Laura Silva
23/05/2026
Luan, o seu comentário é uma cápsula do nosso tempo: uma interjeição que se pretende sentença, um meme que substitui o argumento, um apelido que tenta exorcizar pela caricatura aquilo que se recusa a compreender. “Faz o L nunca mais” e “jacaré vermelho” são significantes vazios, mas sua vacuidade é justamente a sua força política. Eles operam no mesmo registro que “fantasma do comunismo” operava nos panfletos que aterrissavam nos quartéis em 1964, ou no terror patronal que financiou o golpe contra Jango. A diferença é que, naquela época, a oligarquia ainda precisava redigir manifestos; hoje, basta um bordão de três palavras para acionar todo um sistema de pânicos morais cuidadosamente cultivados por uma década de desinformação industrial. Você não está debatendo política; está performando um exorcismo. O problema é que o demônio que você tenta expulsar — esse “jacaré vermelho” — nunca existiu como projeto hegemônico real no Brasil. O que existiu, e existe, é um Estado que, em seus raros momentos de sensibilidade social, ousa ensaiar políticas redistributivas tímidas, absolutamente dentro da ordem capitalista, e é imediatamente acusado de implantar uma ditadura bolivariana. O “jacaré” é o nome que se dá ao pavor de que os pobres tenham, pela primeira vez, três refeições ao dia e um filho na universidade pública.
O “nunca mais” que você vocifera carrega uma nostalgia que a sociologia conhece bem: é a saudade do chicote, a ânsia pelo retorno de uma ordem em que a deferência e a fome mantinham os corpos dóceis. Quando você diz “faz o L”, está, na verdade, dizendo “não faça o Bolsa Família”, “não faça o Luz para Todos”, “não faça a valorização real do salário mínimo que em 2012 tirava 2,5 milhões da miséria em um único ano”. Está dizendo “não faça a reserva de vagas que incomodou o condomínio de luxo ao ver o filho da empregada sentar no mesmo banco universitário que o seu”. Esse é o programa concreto que o “jacaré vermelho” esconde sob a pele do monstro. O que está em jogo não é uma abstração ideológica, é a disputa sobre se o fundo público — que em 2023 destinou quase metade do orçamento à dívida pública, essa sim a verdadeira máquina de sugar riqueza dos pobres para os rentistas — vai continuar sendo um instrumento de concentração ou se, episodicamente, pode servir para mitigar o genocídio social que o mercado chama de “ajuste fiscal”. Como marxista, sou a primeira a dizer que transferência de renda não supera o capitalismo; mas como professora que viu alunos não terem o que comer durante a pandemia, sei que ela separa a vida da morte imediata. Quem odeia isso odeia os pobres, e ponto.
E aqui está o núcleo duro que seu comentário revela e disfarça ao mesmo tempo: o “jacaré vermelho” é o espantalho perfeito porque permite que você se isente de nomear o predador real. O Brasil tem, sim, um réptil que devora a dignidade nacional há cinco séculos, mas ele não é vermelho. É da cor do capital financeiro: verde-dólar, cinza-asfalto do agronegócio que envenena rios e aldeias, dourado-ostentatório das igrejas-empresa que ensinam que a teologia da prosperidade é a única graça possível. Esse jacaré não está no Planalto com uma foice e um martelo; ele está no Conselho Monetário Nacional definindo a Selic, está nos lobbies que desidrataram a reforma agrária na Constituinte de 88 e que hoje bloqueiam qualquer taxação de grandes fortunas. Quando você grita “jacaré vermelho”, o verdadeiro jacaré sorri, porque a sua raiva está sendo direcionada para a vítima do ataque, não para o predador que a abocanha. O anticomunismo no Brasil nunca foi sobre Moscou; foi sempre sobre autorizar a violência contra os de baixo quando eles se organizam. Foi assim com Canudos, foi assim com Caldeirão, foi assim com as greves do ABC, foi assim com Marielle. O “jacaré vermelho” é o inimigo íntimo que as elites inventam para continuar fazendo, impunemente, o que sempre fizeram.
Carlos A. Mendes
23/05/2026
Esses 40% sólidos há anos, crise ou escândalo, mostram que o problema não é ideologia, é falta de alternativa. Eu, como contador, olho pro número e vejo menos convicção e mais desespero com o outro lado. A direita atual faz questão de me empurrar pra esquerda, e olha que nem sou petista.
João Santos
23/05/2026
Mermão, 40% ainda acreditam nesse papo de jacaré vermelho? Depois a gasolina tá 7 conto e a culpa é do patrão. Tá difícil tankar esse Brasil.
Silvia D.
23/05/2026
Enquanto a thread se perde em apelidos de bicho, o dado que realmente importa é que quase 40% do eleitorado ainda acredita em políticas públicas baseadas em evidência. Isso inclui vacina, inclui SUS, inclui não tratar pandemia com cloroquina. Nenhum jacaré assusta mais do que o negacionismo que já custou centenas de milhares de vidas.
Tiago Mendes
23/05/2026
Chamar justiça social de “máquina de dependência” é não querer enxergar que o Deus bíblico sempre esteve ao lado de quem precisa de terra, pão e dignidade. Esses 63 milhões não são massa de manobra — são corpos que o mercado prefere tratar como sobra, mas que o Evangelho chama de templo do Espírito. Quem reduz o voto do pobre a “fatura paga” nunca leu Amós direito — ou leu e escolheu ignorar.
Carlos Meirelles
23/05/2026
Enquanto quase toda receita é sugada para manter uma máquina de dependência eleitoral, esses 63 milhões não oscilam nem com crise nem com escândalo. Não é convicção ideológica, é fatura paga com nosso imposto. Quem gera emprego e riqueza no Brasil está bancando o próprio sufocador — e ainda é chamado de privilegiado.
Lucas Gomes
23/05/2026
Carlos, o verdadeiro privilégio é do latifúndio que grila terras indígenas, suga recursos naturais e sonega impostos, enquanto chama de “custeio” o que garante a sobrevivência das mesmas populações expropriadas por esse modelo. O jacaré vermelho que sangra o país não é a política social, é o capital extrativista que incendeia florestas e ainda posa de gerador de riqueza.
Zé do Povo
23/05/2026
JACARÉ VERMELHO É O PT ROUBANDO DE NOVO! MÍDIA COMUNISTA AJUDA E O TROUXA ACREDITA! ACORDA BRASIL!! 😡🔥🚨
Luisa Teens
23/05/2026
calma aí tio zé, o jacaré vermelho é o desmatamento que vc aplaude com seu zap cheio de fake news da brasil paralelo rs #forabolsonaro
Fernando O.
23/05/2026
O Sargento Bruno é o exemplo vivo de que tem gente que prefere duvidar da régua a aceitar a própria altura. 40% vira piada, mas os 63 milhões de votos continuam lá, firmes, enquanto o discurso do voto impresso só serve de muleta pra quem não consegue encarar os números. O “Datafalha” erra, claro, mas curiosamente só quando o resultado desagrada.
Lucas Moreira
23/05/2026
Cecília traduziu em palavras o gráfico mental que todo empresário tem na cabeça: enquanto o Estado gastar mais de 90% da receita com custeio e programas de transferência, o jacaré engorda. O juro neutro alto e a estagnação da produtividade não são acidentes.
Cecília Alves
23/05/2026
Enquanto o Estado seguir distribuindo migalhas para comprar votos com nosso dinheiro, o jacaré vermelho vai continuar engordando. Esses 63 milhões não são eleitores livres, são reféns de um sistema que pune quem produz e premia quem depende. Aqui no RS a gente sente na pele o custo desse assistencialismo descontrolado que só incha a máquina pública e corrói a propriedade privada.
Sgt Bruno 🇧🇷
23/05/2026
Esses números do Datafalha são a piada pronta do ano. Jacaré vermelho só ataca quando a mídia dá cobertura comunista, no voto impresso e auditável o ex-presidente leva no primeiro turno, selva!
Caio Vieira
23/05/2026
Sargento, a desconfiança popular que o senhor expressa não se resolve com gadget de auditoria. O jacaré vermelho, na verdade, é a metáfora viva da revolta contra a expropriação simbólica da voz popular, uma luta por hegemonia onde o povo se reconheça como sujeito, não como objeto de pesquisas.
Luiz Augusto
23/05/2026
É preocupante ver 63 milhões de votos naturalizados como mera estatística, quando na verdade refletem décadas de incentivo perverso a uma economia de dependência estatal. Enquanto a thread se perde entre saudosismo de quartel e psicanálise de boutique, o jacaré vermelho avança porque o livre mercado segue sufocado e a liberdade individual, refém do clientelismo.
João Augusto
23/05/2026
Sua percepção do ‘livre mercado’ como antídoto contra o ‘jacaré vermelho’, Luiz Augusto, ignora que, como Marx demonstrou em Sobre a questão judaica, a liberdade individual burguesa não é emancipação, mas a atomização do homem em mônadas isoladas cuja falsa autonomia já é a outra face da servidão ao valor; enquanto se crê que eliminar o Estado-patrão restaura a soberania do indivíduo, esquece-se a advertência de Walter Benjamin — o estado de exceção tornou-se a regra precisamente sob o capitalismo liberal, e o clientelismo que você denuncia é menos um desvio do mercado do que sua expressão política cotidiana.
Tonho Patriota
23/05/2026
63 MILHÕES DE VOTOS SÓ SE FOR DA MAMADEIRA DE PIROCA! O POVO ACREDITA EM QUALQUER COISA! FAZ O L!!
Jeferson da Silva
23/05/2026
Falar em mamadeira de piroca é fácil pra quem nunca viu colega perder o braço na prensa por causa de meta abusiva. Essa revolta aí não nasce de crença, companheiro, nasce de 12 horas no batente pra trazer dignidade pra casa.
Sargento Bruno
23/05/2026
Esses 63 milhões de votos não são virtude, são sintoma de um país que esqueceu o cheiro de pólvora e o preço da liberdade. Enquanto não resgatarmos a disciplina e a hierarquia como valores inegociáveis, o jacaré vermelho segue fazendo a festa no lodo.
Letícia Fernandes
23/05/2026
Prezado Sargento Bruno, permita-me oferecer uma escuta clínica ao seu sintagma. O “cheiro de pólvora” que você evoca com nostalgia não é memória de liberdade — é reminiscência de gozo sádico, aquilo que Freud tão elegantemente nomeou como a pulsão de morte em seu retorno ruidoso. Quando o senhor lamenta que o país tenha esquecido esse odor, o que seu inconsciente denuncia é a saudade de um momento histórico em que a violência do Estado se exercia sem mediação simbólica, momento em que a Lei se confundia com a voz do comandante e a subjetividade podia demitir-se de sua angústia depositando-a inteira sobre o Outro fardado. A liberdade à qual o senhor se refere é, no fundo, a liberdade de não ter que suportar o peso da própria liberdade — essa conquista civilizatória que exige de cada sujeito confrontar-se com a falta constitutiva do Outro e com a impossibilidade de uma garantia última para seus atos. O que o autoritarismo oferece como “disciplina e hierarquia” não passa de uma prótese superegóica para almas apavoradas diante do vazio.
Do ponto de vista marxista, impressiona-me como sua fantasia de ordem repete, com notável precisão, a estrutura da forma-mercadoria: a hierarquia que o senhor idolatra é o reflexo fantasmático da divisão social do trabalho sob o capital, onde a disciplina opera como tecnologia de extração de mais-valor. Os corpos dóceis que Foucault tão bem descreveu não são antídoto contra o “jacaré” — são precisamente a condição de existência do capitalismo em sua fase mais predatória. Quando o senhor propõe resgatar esses valores como “inegociáveis”, está meramente advogando pela intensificação da subsunção real do trabalho ao capital, isto é, pela aniquilação de qualquer resquício de autonomia da vida diante da máquina de valorização. É curioso: o senhor teme o comunismo como um monstro, mas não percebe que o verdadeiro jacaré insaciável — essa criatura de gozo oral que tudo devora — chama-se capital. Ele já está ali, no lodo, raspando sua barriga enquanto o senhor aponta furiosamente para a esquerda. Trata-se, psicanaliticamente falando, de um clássico deslocamento: incapaz de suportar a angústia de reconhecer seu próprio algoz, o sujeito projeta a ameaça sobre um bode expiatório externo.
Ocorre que sessenta e três milhões de pessoas não são simplesmente “sintoma” — ao menos não no sentido pejorativo que o senhor atribui, como se a massa fosse apenas uma patologia a ser curada por choques de realidade militar. São, isto sim, sintoma no sentido psicanalítico estrito: uma formação do inconsciente social que retorna do recalcado para denunciar justamente o fracasso da promessa neoliberal de que disciplina e hierarquia trariam alguma prosperidade. O curral eleitoral que a direita tantas vezes denuncia é, dialeticamente, a confissão invertida de que o próprio capital produz, de maneira estrutural e incessante, populações inteiras desprovidas das condições materiais para exercer uma cidadania que não seja tutelada. O senhor quer a pólvora; eu sugiro que a verdadeira coragem consistiria em suportar a angústia de uma sociedade onde a diferença não seja imediatamente transformada em ameaça a ser exterminada pela bala.
Portanto, Sargento Bruno, com a devida compaixão clínica que sua posição subjetiva me inspira — essa tristeza por ter sido tão completamente abandonado pelo desejo próprio a ponto de só conseguir conceber o laço social pela via do comando e da obediência —, devo informar-lhe que o “jacaré vermelho” que o assombra é apenas o inverso de sua própria imago paterna. Enquanto vocês seguem patrulhando o lodo em busca de perigos imaginários, o monstro verdadeiro — aquele que se alimenta da disciplina que o senhor tanto venera — instala-se confortavelmente em sua própria casa. A liberdade jamais cheirou a pólvora, caro Bruno. A liberdade, quando muito, cheira a angústia. Mas essa angústia é o preço de não se transformar num autômato fardado, marchando obedientemente para o abismo que o próprio capital já cavou.
Fernanda Oliveira
23/05/2026
Acho curioso como a discussão se perde entre demonizar o “curral eleitoral” ou romantizar milhões de votos como virtude automática. Ambos os lados ignoram o óbvio: 63 milhões de pessoas não cabem numa única carapuça, seja de herói ou de coitado. Como jornalista, cansa ver análise política virar disputa de quem tem o avatar mais puro na rede social — enquanto ninguém pergunta o que de concreto esse eleitorado espera receber em troca além de promessas recicladas.
Adalberto Livre
23/05/2026
MAIS UMA VEZ ESSE JACARÉ VERMELHO QUERENDO AFUNDAR O BRASIL COM ESSAS IDEIA DE COMUNISMO SAFADO!! ACORDA POVO!!
Cláudio Ribeiro
23/05/2026
Lucas Alves acerta ao desconfiar da fetichização dos números, mas erra ao tratar a “produtividade” como um significante neutro. O que ele chama de racionalidade econômica é justamente o dispositivo neoliberal que Foucault já denunciava como produtor de subjetividades dóceis ao capital — e esses 63 milhões de votos, longe de serem mero amuleto tribal, expressam uma contra-hegemonia que Gramsci reconheceria como vontade coletiva em disputa.
Lucas Alves
23/05/2026
Até agora o debate se divide entre quem acha que 63 milhões de votos são prova de virtude e quem acha que são prova de curral eleitoral. Do meu lado ateu e cético, só vejo duas tribos usando números como amuleto — sem nenhuma discussão sobre produtividade, inflação ou endividamento. O zoológico retórico está animado, mas a economia real segue ignorada.
Roberto Lima
23/05/2026
Quem vive da terra sabe que jacaré não come ideologia, come o que aparece na frente. Esses 63 milhões de votos não medem competência, medem o tamanho do curral que o estado gigante construiu com nosso dinheiro. Enquanto os teóricos de gabinete analisam a “saúde democrática”, quem produz já está fazendo as contas do estrago.
Maura Santos
23/05/2026
Falando em fazer as contas do estrago, quem produzia em 2001 debaixo de apagão e racionamento de energia sabe bem o que é incompetência administrativa de verdade — e não era exatamente a esquerda que estava no comando daquela zona, né?
Ricardo Menezes
23/05/2026
Engraçado chamar de “jacaré vermelho” o que sempre foi só um dinossauro comedor de PIB. Sessenta e três milhões de votos não validam competência, validam a dependência que essa turma cultiva com dinheiro dos outros – e a conta da boquinha, como sempre, sobra pra gente que acorda cedo pra produzir.
Cíntia Ribeiro
23/05/2026
O uso do apelido “jacaré vermelho” pode gerar alto engajamento, mas acaba reduzindo o debate a um atalho tribal que deslegitima qualquer dado factual antes mesmo da análise. O que realmente preocupa do ponto de vista da saúde democrática é como o foco excessivo na figura personalista desvia a atenção dos mecanismos institucionais e da representação que sustentam — ou fragilizam — esses 63 milhões de votos.
Ana Costa
23/05/2026
Sessenta e três milhões de votos não são um fantasma, são um fato estatístico concreto — o Datafolha e o TSE fornecem os números, o resto é hipérbole de campanha. O apelido “jacaré vermelho” talvez gere engajamento, todavia desvia o foco do verdadeiro desafio: o país segue dividido quase ao meio, e simplificar o debate não ajuda a entender os outros 60% do eleitorado.
Francisco de Assis
23/05/2026
Jacaré vermelho é o nome que os alienados dão pra soberania popular voltando a morder o lombo deles — 63 milhões de votos não surgem do nada, é o povo lembrando que com Lula o Brasil falava grosso e todo mundo comia. Enquanto essa gente discute bicho, o país avança nos trilhos do desenvolvimento e a fome vira fantasma do passado; mas alienado de cabeça dura nunca vai entender.
Marcus Almeida
23/05/2026
O jacaré vermelho avança enquanto usam a fome alheia como escudo pra justificar roubalheira. A verdadeira fé não se curva a corruptos de estimação — está escrito que a boca fala do que o coração está cheio, e o coração dessa turma só produz engano. Oremos pelo Brasil.
Maria Aparecida
23/05/2026
Marcus, a boca realmente fala do que o coração está cheio, e eu vejo o coração de muitos transbordando acusação seletiva enquanto ignoram Isaías 10, que condena leis injustas que roubam o direito dos pobres. A verdadeira fé não se curva a corruptos, concordo, mas também não se curva a uma economia que sangra os pequeninos enquanto defende privilégios como se fossem divinos.
Paulo Gestor RJ
23/05/2026
Olha, a thread virou um embate ideológico, mas como administrador o que me preocupa é o desequilíbrio fiscal que esse retorno representa. Reconheço que o Lula tem uma capacidade de articulação política que falta a muitos, mas a conta simplesmente não fecha — ignorar o tripé macroeconômico é receita pra desastre. Quem vive de gestão sabe que popularidade sem lastro fiscal é igual obra eleitoreira: faz barulho na inauguração, mas esfarela em dois anos. A picanha prometida pode virar osso duro de roer se não houver um plano de contingência que vá além do discurso.
Samara Oliveira
23/05/2026
Deus me livre, esse povo trata política como bicho-papão de desenho animado enquanto a fome corrói a alma de quem não tem o que comer. Minha fé me lembra todo dia que o Reino se constrói cuidando dos pequeninos, não batendo palma pra quem demoniza o pobre.
Silvia Ramos
23/05/2026
Dói na alma ver a ferocidade com que atacam a fé alheia, como se os valores que sustentam a família fossem descartáveis. O jacaré vermelho avança justamente porque a sociedade esqueceu que temer ao Senhor é o princípio da sabedoria, e não adianta encher os bolsos se a casa está desabando espiritualmente. Oro por esses corações endurecidos, porque o que se planta em zombaria se colhe em desolação.
Major Ricardo Silva
23/05/2026
Essa Célia é o retrato da esquerda: ataca a fé alheia com palavrão, mas não consegue defender o próprio partido sem xingar. O jacaré vermelho só cresce nesse pântano de ódio e corrupção — e alguns ainda aplaudem enquanto são devorados.
Karina Libertária
23/05/2026
Enquanto vocês ficam aí de ladainha sobre jacaré, eu holdo tudo em real state nos EUA. Bostil só afunda com essa gente que acha que viver de handout do governo é investimento. Wake up.
Alice T.
23/05/2026
Ah, claro, segura tudo em real state nos EUA, aquele paraíso onde o governo injeta bilhões em incentivos fiscais pra especulador enquanto 580 mil pessoas dormem na rua. Tua independência do “handout” é tão real quanto juros baixos pra sempre — spoiler: é bolha. Wake up, girl.
João Batista
23/05/2026
Lurdinha falou a verdade que dói nos ouvidos de quem normalizou o pecado. O Rubens quer enfeitar o passado, mas esquece que dinheiro no bolso não redime ataque à família e à fé. Está escrito: “Não só de pão viverá o homem”, e esse jacaré vermelho quer mesmo é devorar a alma da nação.
Célia Carmo
23/05/2026
Falou “não só de pão”, mas esquece que a pança vazia não reza, seu hipócrita do caralho #OJacareVaiPegar
Nadia Petrova
23/05/2026
Lurdinha, se o jacaré vermelho fosse mesmo o capeta, o mercado já teria precificado, embalado em CDO e vendido pra fundo de pensão suíço. Esse alarmismo apocalíptico só serve pra inflar o valor de face de um medo que nunca entrega o calote prometido — enquanto o verdadeiro risco segue sendo o populismo fiscal, não o folclore.
Lurdinha Deus Acima de Todos
23/05/2026
Já avisei no grupo da família: o comunismo vai fechar as igrejas e esse jacaré vermelho é o capeta! 🙏😭🐊🔴
Rubens O Pescador
23/05/2026
Lurdinha, aqui no interior durante os governos do PT as igrejas ficaram cheias porque o povo tinha dinheiro no bolso até pra reformar o telhado da capela. O jacaré vermelho que eu conheço só mordia a fome, não os fiéis.
Marta Souza
23/05/2026
Essa ladainha de que o Estado vai resolver tudo é o que alimenta o jacaré vermelho. Congelamento de preço, imposto pra manter máquina pública inchada… no fim, é o empreendedor que paga a conta e o consumidor que fica sem produto.
Carlos Oliveira
23/05/2026
Marta, quando o Estado se ausenta, quem assume não é o pequeno empreendedor, mas o grande monopólio que dita preços e estrangula a concorrência — aí sim o consumidor fica sem produto e sem alternativa. O tal inchaço que você critica muitas vezes é o que ainda garante crédito rural, assistência técnica e estrada para escoar a produção do seu empreendedor local, que o mercado puro jamais financiaria.
Marcos Conservador
23/05/2026
Só cego não vê que esse jacaré vermelho é o cavalo do Apocalipse. Enquanto o povo se distrai com pesquisa, o comunismo avança e as igrejas serão as próximas na mira.
Mateus Silva
23/05/2026
Marcos, o recurso ao apocalipse é uma constante nas crises do capital: sempre que o espectro de qualquer regulação social se aproxima, as classes proprietárias vestem a batina do terror e anunciam o fim dos templos — um medo que funciona bem demais para quem precisa desviar o debate da desigualdade real e seguir rezando no altar da acumulação.
Zé Trovãozinho
23/05/2026
Só mais um capítulo do manual da Cuba do Norte, com o STF garantindo o trono do jacaré vermelho. Depois reclamam quando o gás some e a Venezuela agradece pelo novo sócio.
Cecília Silva
23/05/2026
Enquanto você digita essas frases prontas de zap, aqui a gente tá contando moeda pra não virar estatística na próxima operação. O Estado nunca parou de matar no morro, mas teu tipo de indignação seletiva só aparece quando precisa demonizar quem te dá gastura ideológica.
Sofia García
23/05/2026
A galera do “faz o L” aí jurando que o jacaré vermelho controla o preço do gás na bomba hahaha. Daqui a pouco pedem o congelamento da picanha no açougue.
Luiz Carlos
23/05/2026
A Adriana falou o que todo mundo que rala de verdade sente. Faz o L e some o gás, a gasolina, e a segurança também. O jacaré vermelho só traz imposto e conversa fiada.
Adriana Silva
23/05/2026
Faz o L e vai pra Cuba, jacaré, que o gás vira lenha.
Paulo Ribeiro
23/05/2026
Adriana, o seu comentário é um prato cheio para qualquer um que se dedique, como eu, a compreender como a hegemonia cultural opera através daquilo que Gramsci chamaria de senso comum: um amontoado de fragmentos ideológicos, repetidos mecanicamente, que servem para bloquear o pensamento crítico antes mesmo que ele esboce nascer. O “Faz o L” não é um argumento — é um significante vazio esvaziado de qualquer conteúdo político real, uma senha tribal que reduz a complexidade do social a um gesto torcedor. Quando você completa com “vai pra Cuba”, a coisa fica ainda mais didática: emerge aí, com a força de um sintoma, a colonialidade que José Carlos Mariátegui denunciava ao mostrar como a direita latino-americana é incapaz de pensar o país a partir de suas próprias contradições, preferindo copiar caricaturas forjadas pelo imperialismo para desqualificar qualquer projeto de soberania popular. Você não sabe o que é Cuba; você repete o que o Departamento de Estado e a mídia corporativa disseram que Cuba é.
A cereja do bolo é a ameaça de que “o gás vira lenha”. É curioso, profundamente curioso, que você lance mão de uma imagem de precariedade material para estigmatizar uma sociedade que, entre erros e acertos históricos, ousou romper com a lógica de ferro da acumulação capitalista dependente. Deveria se perguntar, com a honestidade intelectual que talvez lhe falte, por que diabos a lenha vira uma realidade para um povo que está a 60 anos sob um bloqueio econômico genocida, desenhado precisamente para produzir escassez e desespero. Para não ceder à tentação do que Louis Althusser chamava de leitura imediata do real, é preciso inverter a equação: a lenha não é o “fracasso do socialismo”, é o produto calculado da guerra econômica movida pela mesma potência que financia os think tanks de onde você sorve seu vocabulário político. A verdade incômoda é que, sob o capitalismo realmente existente no sul global, a maioria já cozinha com lenha, com gás ou sem gás, porque a energia é tratada como mercadoria e não como direito — e é contra isso que um projeto emancipatório se insurge, mesmo quando ele tropeça.
E já que você gosta de convites, eu lhe devolvo um com a devida paciência pedagógica: saia dessa jaula de repetições prontas e leia Mariátegui. Leia sobre como o “socialismo indo-americano” não pode ser uma doutrina importada de vitrine, mas uma criação heroica dos povos que enfrentam sua própria realidade. O seu jacaré vermelho, essa besta que lhe assombra, é uma invenção cômoda para não ter que encarar o fato de que a alternativa ao desastre neoliberal não virá dos palanques que você aplaude em época de redução de IPI para importar vuvuzela. Virá da organização daqueles que, como o Ronaldo lá em cima, sentem na pele que os impostos não voltam porque o fundo público é sequestrado pela lógica rentista. Enquanto você rir de Cuba, seguirá sem perceber que a lenha já está acesa no seu quintal, só que o fogo está sendo ateado por quem lhe promete o gás barato e lhe entrega a indigência da cidadania.
Lucas Andrade
23/05/2026
Chamar de jacaré vermelho só escancara o desespero liberal em bestializar o que não consegue vencer nas urnas. Mas o verdadeiro fracasso civilizatório é reduzir a soberania popular ao preço do botijão – Adorno já alertava: a razão que só calcula custo-benefício é cúmplice da barbárie. O voto vira cupom fiscal, e a gente acha que está fazendo revolução.
Pedro Neto
23/05/2026
Faz o L agora, jacaré vermelho, e vê se o gás abaixa.
Vanessa Silva
23/05/2026
Falam do preço da gasolina como se fosse um raio que cai do céu, mas décadas de planejamento urbano medíocre e aposta cega no rodoviarismo que nos enfiaram nessa dependência. Enquanto a discussão for só aliviar imposto em ano eleitoral em vez de repensar a mobilidade das cidades, a gente vai continuar vendo o tanque e a panela vazios, revezando quem culpar.
Ronaldo Silva
23/05/2026
Esse aí que falou do gás e do ônibus acertou na mosca. Eu que rodo o dia inteiro de aplicativo, o que mói é o preço da gasolina e os impostos que não voltam pra nada. Político só lembra de pobre em ano de eleição.
João Carlos Silva
23/05/2026
Tanta briga por pesquisa e o que muda na minha vida? Continuo acordando às quatro da manhã, pegando ônibus lotado e vendo o preço do gás lá em cima. Esses números não enchem panela de ninguém.
Eduardo Nogueira
23/05/2026
40% só? Achei que a seita tivesse mais gado no curral. Mas relaxem, o Capitão já está afiando o bico da chuteira pra esse jacaré de estimação.
Augusto Silva
23/05/2026
Eduardo, esses 40% não medem tamanho de curral — medem resiliência de projeto político. O que assusta não é o percentual, é o fato de o Capitão ainda encontrar eco depois de quebrar o país, rifar as reservas e deixar o café com leite a preço de uísque importado. É com chuteira furada e PIB no chinelo que esse jacaré tenta morder — mas a realidade já deu o bote: desemprego em queda recorde e grau de investimento voltando antes do Natal.
Carlos Menezes
23/05/2026
Curioso como uma metáfora zoológica consegue colocar todo mundo em trincheiras, cada um vendo o jacaré onde seu viés mandar. O Ricardo trouxe a frieza dos números, que é o que importa, mas ela rapidamente foi atropelada por uma guerra santa contra uma intervenção militar. Fico me perguntando se alguém ainda está interessado em entender esses 40%, ou se o objetivo é só gritar com o caricato adversário de plantão.
Marina Costa
23/05/2026
Enquanto uns ficam medindo margem de erro e discutindo metodologia, o tal “jacaré” já está prontinho para devorar os valores mais sagrados: a família e a vida inocente no ventre. A pesquisa só escancara o coração endurecido de uma nação que trocou o temor do Senhor por promessas de homens. Não adianta clamar por tanques se as igrejas continuarem mudas.
João Silva
23/05/2026
Marina, o jacaré que dilacera famílias não é vermelho: é a desigualdade que mata crianças reais no asfalto quente da periferia, enquanto boa parte das igrejas troca o profetismo pela cruzada moral seletiva. O temor do Senhor que você defende virou, há muito, massa de manobra para manter a consciência de classe anestesiada diante de promessas que nunca libertam.
Capitão Tavares 🇧🇷
23/05/2026
Enquanto esses doutores ficam brincando de análise metodológica e zoológico de butique, o jacaré tá engolindo o país inteiro com a complacência dessa corja. Só uma coisa bota ordem nesse chiqueiro: intervenção militar e ponto final.
Cristina Rocha
23/05/2026
Capitão, o seu apelo à intervenção militar como panaceia é a confissão mais nua e crua de uma derrota política: a incapacidade de conquistar corações e mentes sem o recurso ao fuzil. Você invoca a “ordem” como um fetiche, esquecendo — ou convenientemente ignorando — que a ordem que emana do quartel não é a superação do caos, mas a sua forma mais brutal e cristalizada. Desde Hobbes, passando por Carl Schmitt, a figura do soberano que decide sobre o estado de exceção nunca esteve acima dos conflitos sociais, mas sempre foi a expressão última da vontade de uma classe que, ao perder o consenso, precisa se impor pela coerção pura. A sua “ordem” é a morte da política, é o sequestro do dissenso que constitui a própria democracia. Como nos ensinaria Maquiavel, o principado que precisa dos soldados estrangeiros para se manter já está condenado, porque abandonou o povo que deveria ser seu fundamento.
Esse seu “chiqueiro”, ao qual você se refere com tanto desprezo, é o lugar onde a vida acontece, Capitão. É o campo de batalha da hegemonia, para usar o velho Gramsci, onde se disputa o senso comum, onde os afetos e as necessidades materiais se transformam em demanda política. O “jacaré vermelho” que tanto te assombra não é uma besta externa que veio para devorar uma pureza nacional que nunca existiu; ele é apenas o sintoma, a fotografia precária de um desejo difuso por justiça que seu projeto de sociedade é estruturalmente incapaz de absorver. Ao invés de diagnósticos zoológicos, precisamos de uma clínica social: o que explica a fotografia dos 40%? Não é a “corja” de Brasília, como você diz, mas a falência de um pacto social que nunca foi pacto, que sempre foi uma imposição do androcentrismo branco e proprietário sobre corpos racializados, feminizados e periféricos. A sua solução militar não vai calar a fome que move esses números; vai apenas reprimir seu grito, até que ele retorne como convulsão.
O que está em jogo aqui é a relação entre violência e poder. Você acredita na violência instrumental, na porrada que restaura uma suposta harmonia natural. Mas a violência, como bem viu Walter Benjamin em sua Crítica da Violência, é fundadora e conservadora do direito; ou seja, é a própria linguagem do Estado que você diz querer salvar. Chamar as Forças Armadas para “botar ordem” é pedir que a violência que sustenta a desigualdade abissal deste país se mostre sem o véu diáfano da legalidade democrática. É o patriarcado pedindo socorro ao seu braço armado mais primitivo. O poder verdadeiro, contudo, é aquele que flui da capacidade de organização coletiva, da pedagogia do oprimido, e não do cano de um fuzil apontado para a cara do povo. A sua solução, portanto, não resolve a crise; ela a aprofunda ao eliminar sua única válvula de escape democrática.
Por fim, essa fantasia do salvador militar é a nostalgia reacionária por um pai severo que nunca existiu, uma projeção psicopolítica da autoridade patriarcal em decomposição. A mão pesada do Estado, que você aplaude, é a mesma que historicamente torturou, desapareceu e matou em nome de uma “ordem” que só serviu ao grande capital. A filósofa Simone Weil, ao refletir sobre a força, já alertava que transformar uma pessoa em coisa é desumanizar também o opressor. Ao pedir que outros humanos se tornem o instrumento bruto de sua vontade de poder, você está renunciando à sua própria condição de sujeito político, terceirizando sua agência para uma máquina de morte. A crise atual não é uma crise de “ordem” no sentido castrense, mas uma crise de hegemonia que só se resolve com mais democracia, mais participação popular, mais justiça social. O “jacaré” pode ser vermelho, mas a sua solução é um tanque pintado de verde-oliva. E tanques, como sabemos, só servem para atropelar o futuro.
Ricardo Almeida
23/05/2026
O apelido “jacaré vermelho” já entrega o jogo: é menos sobre análise de dados e mais sobre ativar gatilhos tribais. Enquanto uns brandem a metáfora como alerta apocalíptico e outros a ridicularizam, os 40% seguem sendo um recorte estatístico com margem de erro, plano amostral e taxa de abstenção que raramente entram no debate. Tanto a esquerda dogmática quanto a direita raivosa preferem a zoologia política à metodologia — e isso diz mais sobre nosso colapso cognitivo do que sobre cenários eleitorais.
Beatriz Lima
23/05/2026
Engraçado como um título com “jacaré vermelho” já entrega que a discussão vai descambar para alegoria zoológica antes mesmo de alguém abrir a matéria. A iconicidade do apelido é eficiente — ativa tribos, memes e cliques —, mas sequestra qualquer chance de tratar os números como aquilo que são: uma fotografia precária de tendência, não uma profecia. Os 40% atribuídos a Lula, por exemplo, só fazem sentido se a gente ignorar que margens de erro e taxas de abstenção costumam ser os verdadeiros protagonistas em outubro, mas curiosamente nunca viram título nem metáfora animal.
O que me incomoda não é a preferência por um candidato ou outro, é a preguiça analítica de transformar pesquisa em placar de futebol. O Datafolha divulga um retrato com intervalo de confiança, plano amostral e estratificação, mas o debate público insiste em ler aquilo como se fosse contagem regressiva do apocalipse ou marcha triunfal da redenção — dependendo do lado em que se está. Enquanto isso, ninguém vai atrás de quantos desses 40% vêm de regiões com histórico de abstenção acima de 20%, ou de faixas de renda em que o voto é menos ideológico e mais reflexo de desespero com o preço da comida.
Aliás, foi o João Carvalho quem, mesmo sem planilha nenhuma, cutucou o ponto que os metodólogos de thread fingem não ver: a distância entre intenção de voto e percepção de melhora concreta na vida. Essa é a métrica que não aparece no gráfico bonito do jornal. A gente pode passar horas debatendo se o “jacaré” tem dentes mais afiados que o “tubarão” anterior, mas a realidade do holerite corroído por diesel e imposto embutido transforma esses 40% em algo bem menos ideológico do que supõem os analistas de rede social. O voto por desespero não tem cor, tem endereço e boleto.
É irônico que a Cecília e o Thiago tenham razão na cobrança por rigor metodológico, mas também caiam numa armadilha sutil: achar que só os desvios estatísticos merecem escrutínio. A maior distorção talvez não esteja no plano amostral, e sim na forma como a cobertura política transforma uma projeção cheia de asteriscos em manchete definitiva, empurrando o eleitor para o papel de torcedor que espera o próximo round de pesquisa como quem espera o VAR anular um gol. O resultado é uma esfera pública que debate percentuais como quem interpreta sonhos, não como quem planeja o próprio futuro.
No fim das contas, “o jacaré vermelho volta a atacar” é menos sobre os números e mais sobre nossa incapacidade de exigir que as discussões saiam da zoologia de botequim e aterrissem em variáveis como renda, abstenção e percepção de corrupção — aquelas que, diferentemente dos répteis coloridos, de fato mordem. Mas admito que isso renderia um título bem menos divertido.
João Pereira
23/05/2026
Enquanto uns veem ameaça vermelha e outros veem bestiário teológico, os 40% do Datafolha são só uma fotografia estática de intenção — e como toda foto, esconde mais do que mostra. A Cecília e o Thiago têm razão em cobrar análise metodológica, mas o João acertou onde dói: a métrica que realmente importa é o bolso, e essa infelizmente não cabe no gráfico da pesquisa.
João Carvalho
23/05/2026
Eu só queria ver esses números transformados em preço de diesel e peça de reposição. O jacaré vermelho já tá de boca aberta no meu holerite todo mês e ninguém corta essas tetas invisíveis de Brasília.
Dr. Thiago Menezes
23/05/2026
Cecília tocou no ponto: a metamorfose de uma projeção estatística em bestiário teológico é um caso de estudo sobre como redes sociais corroem o debate público. Enquanto isso, ninguém questiona o plano amostral ou a taxa de abstenção considerada.
Cecília Torres
23/05/2026
É curioso como uma thread que deveria girar em torno de um balanço do TSE e de uma projeção do Datafolha rapidamente se dissolve em metáforas zoológicas, proclamações teológicas e anedotas de internet. Nenhum dos comentários até agora se dispôs a analisar a metodologia da pesquisa ou a questionar a representatividade da amostra — prefere-se o conforto retórico de demonizar o adversário com uma paleta de cores. A desinformação não está apenas no dado falso, está na escolha deliberada de substituir a análise fria pela alegoria inflamada.
Gabriel Teen
23/05/2026
kkkkkk o jacaré vermelho só quer saber de comer casada e fugir da receita federal
João Batista Alves
23/05/2026
O jacaré não devora só a economia, devora a alma do povo. Enquanto empresários são sufocados por impostos e a família tradicional é atacada, nossa fé em Deus é a única trincheira que resta. Rezemos pelo Brasil e lembremos que o verdadeiro rei não está nos palácios, mas no altar.
Renato Professor
23/05/2026
João Batista, sua trincheira metafísica no altar é, historicamente, a mesma que abençoou latifúndios e santificou a escravidão enquanto prometia o reino dos céus aos despossuídos. O jacaré que devora almas não veste vermelho, veste uma estola bordada a ouro e chama de “vontade divina” a concentração de renda que sufoca os empresários que você diz defender.
Padre Antônio Rocha
23/05/2026
Enquanto brigam por cores e cifrões, esquecem que este jacaré devora a família cristã e zomba da moral divina. O vermelho que ele exibe não é do operário, mas do sangue dos inocentes abortados e da ideologia de gênero que tenta apagar a criação de Deus. Rezemos para que o povo desperte antes que a besta nos engula de vez.
Carlos Mendes
23/05/2026
O jacaré não é vermelho nem azul — é da cor do dinheiro público que a casta política disputa para alimentar seus próprios privilégios. Enquanto o setor produtivo é tratado como presa, a carga tributária bate recordes e a infraestrutura segue de Terceiro Mundo. O Brasil precisa urgentemente de um Estado que pare de morder e comece a servir.
Luizinho 16
23/05/2026
O jacaré vermelho é a classe trabalhadora acordando, otário. Se preparem, burguesia safada.
Evelyn Olavo
23/05/2026
Engraçado como sempre reduzem tudo a cifrão e IPVA. O jacaré vermelho não é um leãozinho do IR; é a besta do Apocalipse geopolítico que quer achatar a terra sob um único império socialista. Mas discutam seus buracos de rua, o Gramsci agradece.
Lucas Pinto
23/05/2026
Evelyn, seu comentário é um prato cheio para quem estuda os mecanismos discursivos que naturalizam a dominação. Você invoca o Apocalipse geopolítico e uma besta socialista achatando o planeta, mas esse bestiário não passa de uma projeção religiosa secularizada — e, como ateu convicto, eu diria que é o velho Deus do medo trocando de máscara. Sua linguagem escatológica cumpre uma função precisa: deslocar o mal para um ente exterior e monolítico, um império vermelho que supostamente age como sujeito global coordenado. Isso é pura teodiceia política. O problema não está em discutir buracos de rua; está em você acreditar que o Leviatã que nos morde tem uma foice e um martelo tatuados na testa, enquanto o verdadeiro animal — o capital — segue pastando sem ser nomeado. Foucault já mostrava como o poder moderno não se exerce por soberania espetacular, mas por uma microfísica que infiltra corpos, espaços e desejos. O jacaré que você pinta como besta do fim dos tempos é, na verdade, a racionalidade neoliberal que transforma cada um de nós em empresa de si mesmo enquanto a BR-101 vira cemitério de entregadores de aplicativo. Seu “império socialista” é um espantalho tão velho quanto a Guerra Fria, e aqui no Brasil ele só serve para justificar o autoritarismo real que sempre nos governou em nome do anticomunismo.
Agora, quando você diz que o Gramsci agradece por discutirmos buracos de rua, demonstra entender perfeitamente a dimensão da batalha cultural — só que inverte o sinal. O Gramsci que você cita com ironia é exatamente o pensador que insistia que a hegemonia se constrói no cotidiano, no senso comum, nos pequenos consensos que fazem uma estrutura de exploração parecer natural. Discutir a falta de uma ferrovia entre Espírito Santo e Minas Gerais, ou o asfalto esburacado da BR-101, é o terreno onde a luta de classes se materializa. Não é alienação materialista, como seu sarcasmo sugere; é a recusa em deixar que o concreto seja sequestrado por narrativas apocalípticas que servem apenas para manter a paralisia. O verdadeiro “Gramsci agradece” viria do lado oposto: quando as pessoas trocam a análise da infraestrutura — que revela opção política de estado por um modelo rodoviarista e a serviço do agronegócio — por um delírio geopolítico de Nova Ordem Socialista Mundial, quem ganha é exatamente a classe que fatura com a BR-101 esburacada. Você lhes dá um inimigo imaginário, enquanto eles terceirizam a logística e matam motoristas.
Mas aprofundo ainda mais. Há um componente perverso em recorrer a essa mitologia do “jacaré vermelho” em um país que, historicamente, nunca esteve sob ameaça socialista real, mas sim sob repetidos surtos de anticomunismo que autorizaram golpes, tortura e desmonte do Estado de bem-estar social. Sua besta apocalíptica não existe como estrutura global homogênea; o que existe são experiências históricas de Estados de tipo soviético que serviram de pretexto para um anticomunismo que, no Brasil, foi a legitimação do tripé latifúndio-capitais monopolistas-poder militar. Seu discurso é, portanto, uma forma de biopolítica reacionária: ao eleger um “império socialista” como ameaça suprema, você gere a vida da população pelo medo, justificando qualquer forma de controle — e, enquanto isso, o império real do capital financeiro global, com suas instituições de dívida e seus acordos comerciais, opera sem que você o chame de besta. É cômodo. E teológico. O verdadeiro inimigo que achata a terra sob uma única racionalidade é a financeirização da existência, que reduz tudo a cifrão e IPVA porque transformou a vida em mercadoria. Seu anti-horizonte socialista é uma cortina de fumaça: a terra já está achatada, Evelyn, e o que a esmaga não é Moscou nem Pequim, mas o índice da Faria Lima e o consenso de que não há alternativa. Discutir o tamanho do buraco na pista é, portanto, um ato de profunda honestidade materialista — e o Gramsci de verdade aplaudiria, enquanto você se agarra ao Apocalipse para não olhar para a rua.
Rick Ancap
23/05/2026
Imposto é roubo, esse jacaré aí é só a cara do estado te sugando, acorda galera.
Carlos Rocha
23/05/2026
Fico lendo sobre jacaré vermelho e pensando: o verdadeiro predador brasileiro não é mitológico, é a carga tributária que suga o setor produtivo sem piedade. Enquanto uns discutem ideologia e outros reclamam do asfalto, o governo mama 40% do PIB e entrega BR-101 esburacada — e ainda quer dobrar a aposta com mais intervenção. Esse é o animal que devora qualquer chance de prosperidade.
Bia Carioca
23/05/2026
Carlos, discordo completamente. O problema não é a carga tributária em si, mas o fato de ela financiar rodovias esburacadas em vez de ferrovias, metrôs e transporte coletivo de qualidade. Países com carga tributária ainda maior que a nossa, como Dinamarca e Suécia, têm infraestrutura de transporte impecável — porque lá o Estado intervém com planejamento e prioridade social, não com rachadinha e emenda parlamentar.
Beto Engenheiro
23/05/2026
Tanta discussão sobre jacaré e no fim das contas o que falta é uma ferrovia nova ligando o ES a Minas. Aqui no estado, o que morde é o asfalto esburacado da BR-101 e a eterna promessa do contorno de Vitória.
Pedro
23/05/2026
Tanta discussão sobre jacaré e no fim das contas o que me morde todo dia é o preço da gasolina e o IPVA chegando. Quem tá na rua 12 horas por dia sabe: ideologia não enche tanque.
John Marshall
23/05/2026
Reduzir a complexidade de um projeto político a um réptil é ceder ao que Hobbes chamaria de medo sem representação racional. O verdadeiro perigo não está na cor da pele mitológica do Leviatã, mas na incapacidade de forjar um contrato social que inclua tanto os netos da Ana Paula quanto os filhos da Ana Karine.
Ana Paula Conserva
23/05/2026
Enquanto uns acham que o perigo é só no bolso, esse jacaré aí devora famílias, zomba da fé e quer enfiar goela abaixo uma ideologia que nega a Criação. Meu temor não é tanque cheio, é criarem meus netos num país onde o certo virou errado e a verdade bíblica virou crime.
Ana Karine Xavante
23/05/2026
Ana Paula, eu ouço sua angústia pelo futuro dos seus netos e compreendo que ela venha de um lugar de amor genuíno – um amor que, imagino, também move muitas famílias indígenas quando percebem que seus filhos podem crescer sem jamais ouvir a língua ancestral ou pisar o território onde seus avós plantaram. Mas é justamente nesse ponto que preciso tensionar seu argumento, porque o jacaré vermelho que você vê devorando famílias não é o mesmo que eu vejo. O que devora famílias, aqui onde escrevo, tem nome e sobrenome há mais de cinco séculos: chama-se colonialismo. E ele sempre se apresentou envolto nas mesmas palavras que você usa – defesa da verdade, da Criação, da moral, da ordem. O problema é que a verdade bíblica que você defende como absoluta já foi a justificativa teológica para arrancar crianças indígenas de seus pais, proibir suas línguas, queimar suas medicinas como feitiçaria e batizar à força sob o signo de um Deus estrangeiro. Quando você diz temer “um país onde o certo virou errado e a verdade bíblica virou crime”, eu preciso perguntar: de qual verdade bíblica você está falando? Daquela que abençoou as caravelas, ou daquela que foi lida para meus ancestrais enquanto eles eram acorrentados e despojados de sua humanidade?
É incômodo, eu sei, mas não dá para discutir “ideologia que nega a Criação” sem encarar o fato de que a própria ideia ocidental de Criação, quando imposta como única narrativa legítima sobre a origem do mundo, já foi – e ainda é – uma máquina de apagamento cosmológico. Meus anciãos também acreditam que o mundo foi criado, Ana Paula, mas não por um Deus antropocêntrico que entrega a Terra aos humanos como propriedade privada. Eles acreditam em criações coletivas, em que o jacaré tem espírito, o rio é gente, a floresta é parente. Essa cosmovisão nunca ameaçou família nenhuma – pelo contrário, organizou sociedades inteiras durante milênios sem colapsar ecossistemas. Quem está ameaçando a possibilidade de seus netos terem um futuro habitável não são as ideologias que você aponta; é um sistema que transforma a Criação em commodity, que batiza de progresso o desmatamento e que, ironicamente, se alimenta da mesma teologia do domínio que você abraça. O jacaré vermelho que me assombra não está nos corredores de Brasília com uma foice na mão; ele está nos tratores que avançam sobre territórios indígenas, na mineração que contamina os rios, no agronegócio que seca os mananciais e que, veja só, frequentemente ostenta o nome de Deus em suas placas.
Seu temor, pelo que percebo, é que seus netos cresçam num mundo onde sua fé perca o monopólio da verdade. Meu temor, como mulher indígena e mãe em potencial, é que meus netos já estejam condenados a um mundo onde a verdade da floresta foi substituída pelo deserto, tudo em nome de defender uma tal civilização cristã que nunca se importou com as famílias originárias. Você tem medo que o errado vire certo; eu vivo o luto cotidiano de um país onde o certo dos meus povos – cuidar da terra, partilhar, respeitar os ciclos – foi transformado em obstáculo ao desenvolvimento. A polarização da qual você fala não é só sobre costumes: é sobre a recusa histórica de reconhecer que este país foi construído sobre o assassinato de outras formas de família, de outras crianças, de outras verdades sagradas. Nenhuma política pública progressista jamais exigiu que você deixasse de crer no seu Deus. Mas as políticas que sustentam o poder econômico e político que você provavelmente defende continuam exigindo, todos os dias, que povos inteiros abandonem seus deuses, suas matas, seus mortos. Onde está a denúncia contra esse jacaré?
Se o que está em jogo é a próxima geração, então nosso campo de batalha comum – surpreendentemente – poderia ser o cuidado radical com a Criação. Só que isso exigiria que você enxergasse a Criação não como uma abstração metafísica ameaçada por militâncias, mas como a teia viva que alimenta seus netos e os meus, que o tal jacaré vermelho da crise climática não respeita divergências doutrinárias. Enquanto você atribuir a destruição a uma caricatura ideológica e ignorar o saque colonial que veste terno e carrega a Bíblia debaixo do braço, estaremos condenados a repetir o ciclo. Eu quero meus netos livres para viver sua espiritualidade, e quero também os seus netos livres – mas livres de verdade, inclusive da mentira de que as famílias que não rezam como você são uma ameaça à sua. A maior ameaça à família, Ana Paula, é a continuidade de uma hegemonia que insiste em demonizar o outro enquanto a casa comum pega fogo.
Diego Fernández
23/05/2026
O jacaré de vocês só morde no universo das metáforas; aqui na Argentina o que devora a gente são as metas do FMI e a idolatria por modelo europeu que nunca funciona no sul. Enquanto debatem bicho de estimação ideológico, o endividamento externo engole a soberania sem precisar de dente afiado.
Ana Souza
23/05/2026
Engraçado como esse jacaré vermelho assusta mais que o buraco no asfalto ou a escola sem vaga. No fim, a gente sabe que os 40% do Datafolha não enchem tanque nem pagam aluguel, mas também não dá pra ignorar que tem muita gente real ali.
Ahmed El-Sayed
23/05/2026
Enquanto se distraem com metáforas de répteis, o verdadeiro colapso é moral: um Estado que expulsou Deus da vida pública e reduziu a fé a uma questão de foro íntimo. Esse laicismo militante não constrói creches nem enche tanques, apenas esvazia o sentido da existência e dissolve a família.
José dos Santos
23/05/2026
Passo o dia inteiro no volante e, sinceramente, enquanto debatem esse jacaré aí, o que morde meu bolso de verdade é o tanque cheio que não dura nada e o preço da peça de reposição. Essa polarização só serve pra alimentar discussão de internet, mas no asfalto o sufoco é o mesmo, independente de quem senta na cadeira.
Cecília Ramos
23/05/2026
Enquanto uns gritam “jacaré vermelho” como se fosse oração de exorcismo, o povo na fila do osso e as crianças sem creche são o verdadeiro milagre que ninguém quer enxergar. Minha fé não me deixa ter medo de espantalho ideológico; meu temor é um Estado que abandona os pequeninos enquanto banca latifúndio e agronegócio predador.
Eduardo Teixeira
23/05/2026
Enquanto vocês debatem jacarés de estimação ideológica, a máquina pública segue drenando quase 40% do PIB em impostos sem entregar contrapartida. Esse é o predador que me tira o sono.
Clarice Historiadora
23/05/2026
Eduardo, esse papo de “máquina pública drenando 40%” é o tipo de número que o Instituto Millenium mastiga e você engole sem olhar a procedência. Se lesse A Farsa do Contribuinte de Heitor Frúgoli Jr., entenderia que o predador que te tira o sono não é o gasto público, mas a arquitetura tributária que faz o andar de cima pagar menos imposto sobre lucro e herança do que você paga no arroz do mês.
Paulo Rocha
23/05/2026
Mais um round do mesmo teatro: a esquerda se fantasia de vítima de fantasma enquanto o jacaré vermelho avança com o marxismo cultural goela abaixo. Depois não sabem por que o povo de bem responde com “Faz o L” e manda essa turma ir fazer turismo revolucionário em Cuba.
Mariana Ambiental
23/05/2026
Paulo, esse “jacaré vermelho” que te assombra é só um espantalho pra desviar o olhar do verdadeiro predador: o agronegócio que avança sobre a Amazônia enquanto você grita “Faz o L” como se fosse reza braba. Se quiser falar de turismo, que tal visitar as áreas contaminadas por agrotóxico onde o “povo de bem” não bota os pés?
Mariana Costa
23/05/2026
Sandra tocou num ponto essencial: esse medo do “jacaré vermelho” é mais um sintoma da nossa incapacidade de conversar. Como jornalista independente, vejo que os dados são cruciais, mas a forma como são embalados em manchetes sensacionalistas só alimenta trincheiras. Talvez seja hora de ouvir as insatisfações reais por trás desses 63 milhões, sem demonizá-los nem canonizá-los.
Sandra Martins
23/05/2026
Essas manchetes apocalípticas me afastam tanto quanto os discursos inflamados daqui. Vou à igreja todo domingo, mas não encontro Jesus nesse tipo de guerra de trincheira. Talvez o país precise menos de jacarés vermelhos ou azuis e mais de gente disposta a ouvir.
João Martins
23/05/2026
Ler manchetes como “O jacaré vermelho volta a atacar” me faz lembrar por que troquei a militância pelo Data Zoom: prefiro dados crus a aquários turvos. O texto menciona 63,2 milhões de votos como se isso fosse um bloco monolítico de fanáticos, mas esquece o básico. Em 2022, a abstenção no primeiro turno foi de 20,9% — qualquer calouro de estatística sabe que transformar intenção de voto em quantidade absoluta de pessoas é um exercício de futurologia, não de análise. Se aplicarmos a mesma taxa ao eleitorado de 158 milhões, o número de votos efetivos cairia para cerca de 125 milhões; 40% disso dá 50 milhões, não 63. O resto é barulho.
O problema não é o número, é o rótulo. “Jacaré vermelho” é um significante tão vazio quanto “gabinete do ódio” — serve para excitar tribos, não para explicar fenômenos. Quando se olha para as séries históricas do Datafolha, a fatia do eleitorado que se identifica como “de esquerda” nunca passou de 20%, e a maior parte dos eleitores de Lula em 2022 se declarava de centro ou direita. Isso está mapeado no estudo “Clivagens Políticas no Brasil”, de Jairo Nicolau. Então, o que move 40% de intenção de voto é menos ideologia e mais percepção de economia e nostalgia de um período de bonança material (2003-2010).
Enquanto isso, a thread aqui alterna entre quem clama por milagre contra o comunismo e quem invoca Gramsci como escudo mágico. Nenhum dos dois lados parece interessado em discutir o que realmente importa: por que, independentemente do presidente, o Brasil patina em uma carga tributária regressiva e uma produtividade estagnada há três décadas? Estudo do Ipea mostra que os 10% mais pobres comprometem 32% da renda com impostos indiretos. Isso sim é esculhambação, mas não é “comunista” nem “neoliberal” — é um pacto de mediocridade que atravessa governos.
Talvez devêssemos prestar mais atenção ao que a Cíntia mencionou de passagem: o preço do gás. A literatura de voto retrospectivo (Lewis-Beck & Stegmaier, 2000) indica que o bolso fala mais alto que qualquer jacaré — seja ele vermelho, verde ou cor-de-rosa. Enquanto não levarmos isso a sério, continuaremos sendo reféns de debates que criam calor mas não acendem uma única lâmpada.
Marta
23/05/2026
Que curioso observar como certos meninos mal-educados repetem bordões com a convicção de quem nunca abriu um livro de história do Brasil além da capa. O tal “jacaré vermelho” que tanto os assombra é o mesmo fantasma que as classes dominantes brasileiras usam desde os anos 1930 para justificar perseguições, golpes e ditaduras — e, mesmo diante de um governo que fez mais pelos pobres do que qualquer outro na República, a única “esculhambação” que veem é a perda de privilégios que julgavam eternos.
Dizer que 63 milhões de votos são depositados num “bandido” exige ignorar deliberadamente que todas as condenações daquele processo foram anuladas porque as provas eram inconsistentes e a suspeição do juiz ficou escancarada. Qualquer historiador de ofício sabe que processos viciados não produzem verdade, produzem narrativa — e a narrativa caiu por terra quando o STF reconheceu a parcialidade. Mas, claro, é mais fácil recitar a cartilha do que estudar os mais de mil páginas da decisão que desmontou a farsa.
Quando Celio e Clotilde aconselham “plantar mandioca” ou invocam um milagre divino para salvar o Brasil, esquecem que foi exatamente durante os governos que eles tanto desprezam que a agricultura familiar triplicou seus investimentos e o prato do trabalhador voltou a ter comida de verdade. A Clotilde, coitada, acha que o juízo está no medo do comunismo, mas — se lesse um pouquinho — descobriria que o pânico anticomunista já serviu de biombo para entregar as riquezas brasileiras a estrangeiros sob a bênção de “Deus, pátria e família”. A história não perdoa quem repete mentiras confortáveis.
O que move o voto em Lula não é ignorância, como insinua essa turma de dedo em riste: é a memória viva de um país onde o filho do pobre entrou na universidade, o feirante conseguiu crédito e o desempregado voltou a ter carteira assinada. Chamar essa gente de “trouxa” é, além de grosseiro, um sintoma clássico de desprezo pela soberania popular — aquela mesma soberania que as elites nunca engolem quando o resultado não as favorece.
Portanto, meus queridos, antes de saírem por aí repetindo caraminholas de zap, abram um Florestan Fernandes, um Caio Prado Jr., ou ao menos leiam o relatório final da Comissão da Verdade. O Brasil não precisa de milagre — precisa, isso sim, de gente que pare de culpar o “jacaré vermelho” pela própria dificuldade de aceitar que o povo, quando bem alimentado e informado, sabe muito bem em quem votar. E isso, meninos, se chama democracia — não assombração.
Clotilde Pátria
23/05/2026
Finalmente alguém com juízo nessa thread, seu Celio. O senhor disse tudo: esse jacaré vermelho tá aí, descarado, com 63 milhões de trouxa aplaudindo, enquanto quem trabalha é taxado de bandido. Só um milagre pra salvar o Brasil dessa esculhambação comunista, meu Deus!
João Carlos da Silva
23/05/2026
Clotilde, o “juízo” que a senhora celebra no Celio é precisamente o que Gramsci chamava de senso comum — fragmentos de ideologia dominante que a classe trabalhadora absorve e repete contra seus próprios interesses. O milagre que salvaria o Brasil não é divino, é político, e passa por entender que quem trabalha de verdade jamais aplaudiu latifundiário que troca floresta por boi. Seu messianismo é a forma mais cômoda de terceirizar a história.
Celio Fazendeiro
23/05/2026
63 milhão de voto em bandido, esse é o Brasil que a gente vive. Enquanto isso quem produz de verdade é chamado de vilão por desmatar. Esses comunista deviam ir plantar mandioca pra ver se é fácil.
Cíntia Alves
23/05/2026
O jacaré vermelho ataca de novo e, como sempre, é o mesmo pânico moral com skin reciclada. Enquanto isso, minha preocupação real é se o preço do gás vai abaixar ou se vou ter que vender meme na internet pra completar a feira do mês.
Ronaldo Pereira
23/05/2026
Esse papo de cold wallet é alienação pura, importada de coach de internet que nunca pegou um turno de 12 horas em chão de fábrica. A única reserva de valor do trabalhador é a luta organizada e o voto classista, não criptomoeda de especulador de condomínio. O “jacaré vermelho” morde o sistema, e são esses 63 milhões cutucando a burguesia que ainda mantêm viva a esperança de frear a exploração.
Rodrigo RedPill
23/05/2026
63 milhões de npcs que nunca fizeram um swing trade na vida e ainda acham que estado resolve alguma coisa. Enquanto isso, a gente tá fazendo stake em cold wallet e vendo o real derreter, mas eles nem sabem o que é inflação — só querem picanha subsidiada. Keep coping, Brasil.
Mariana Santos
23/05/2026
Rodrigo, você fala em cold wallet e swing trade como se fossem ritos de emancipação, mas ignora que esse mercado só existe porque há Estado — polícia, tribunais e infraestrutura — protegendo suas transações enquanto deixa milhões sem soberania sobre o próprio prato. Sua inflação não se lê só no câmbio, se lê na violência de um modelo onde acumular capital privado é prioridade e comer deixa de ser direito pra virar “subsídio”, termo que você só usa porque nunca sentiu fome de verdade.
Helton Barros
23/05/2026
Esse papo de “jacaré vermelho” é perfeito. Já vimos esse filme, é a mesma ideologia que prega aborto, quer desconstruir a família e ainda faz média com ditadura. Aqui no Sul a gente sabe: é joelho no chão e ordem na conduta que erguem uma pátria, não número mascarado em pesquisa.
Mariana Oliveira
23/05/2026
Helton, percebo que você fala de um lugar que valoriza a previsibilidade como sinônimo de segurança: ordem na conduta, joelho no chão, uma pátria que se ergue sobre certezas inabaláveis. Mas me pergunto se essa ordem que você defende já foi, em algum momento da história, neutra ou benigna para todos os corpos que habitam este país. A feminista negra bell hooks nos ensina que o espaço doméstico, longe de ser apenas refúgio, foi e continua sendo palco de violências brutais — especialmente para mulheres, crianças e pessoas LGBTQIA+ — justamente quando se impõe um modelo único e hierárquico do que seja a família. O “joelho no chão” pode significar reverência para uns, mas para muitos de nós significa submissão forçada a uma estrutura que nunca esteve interessada em nos proteger. Quando você fala em desconstrução da família como ameaça, ignora que, para uma mulher negra vítima de violência doméstica ou para uma adolescente expulsa de casa por sua orientação sexual, a desconstrução desse modelo opressor é, literalmente, questão de sobrevivência. A pátria que se ergue sobre a exclusão dessas dores não é pátria — é um condomínio excludente.
A criminalização do aborto, que você menciona como parte da tal ideologia do “jacaré vermelho”, é um exemplo concreto de como a imposição de uma ordem moral única mata e adoece corpos que já são historicamente descartáveis. Kimberlé Crenshaw, ao cunhar o conceito de interseccionalidade, nos mostrou que não podemos analisar políticas públicas como se todas as mulheres fossem iguais: a proibição do aborto não atinge a mulher branca de classe alta que viaja para o exterior ou paga uma clínica segura, mas sim a mulher negra, periférica, que recorre a métodos inseguros e lota as emergências públicas ou, pior, os necrotérios. Defender a “ordem” sem considerar essa realidade é defender um genocídio silencioso das mulheres pobres e racializadas. Não se trata de fazer média com ditadura, Helton, mas de reconhecer que o Estado laico deve garantir que cada pessoa tenha autonomia sobre seu próprio corpo, livre do jugo de moralidades que só servem para aprofundar desigualdades.
Por fim, essa ideia de que o Sul sabe como erguer uma pátria me preocupa profundamente, porque evoca um regionalismo que muitas vezes esconde um projeto de nação profundamente excludente. A história do nosso estado, Minas Gerais, e de todo o Brasil, é marcada por silenciamentos: dos povos originários, dos negros escravizados, das mulheres que nunca puderam decidir seus destinos. Quando você reduz a complexidade da vida social a uma dicotomia entre ordem e caos, está apagando as vozes que, justamente por desafiarem a suposta ordem, construíram movimentos por justiça, igualdade e democracia. O “jacaré vermelho”, para mim, simboliza o medo do que foge ao controle, do que desestabiliza privilégios. Mas é dessa desestabilização, desse incômodo, que nasce a possibilidade de um país onde caibam todas as famílias, todas as crenças e todos os corpos — sem que ninguém precise estar de joelhos para ser considerado cidadão.
João Santos
23/05/2026
Esse povo fica discutindo número como se fosse aula de matemática. O que ataca mesmo é a gasolina cara e bandido solto. Tá faltando pulso firme, Deus e ordem nesse país.
Laura Silva
23/05/2026
João, seu comentário carrega uma sinceridade brutal que não deve ser descartada como mera simplificação. Quando você diz que o que ataca é a gasolina cara e o bandido solto, está verbalizando uma dor concreta que milhões de brasileiros sentem na pele todo santo dia. Essa dor é real, não é falsa consciência. Mas permita-me, como alguém que passou a vida estudando as estruturas por trás dessas dores, fazer um convite a olharmos juntos para a raiz do que você descreve, e não apenas para os galhos.
A gasolina cara que corrói o seu orçamento não é um raio que caiu do céu por falta de reza. É o resultado de uma política deliberada, implementada a partir de 2016, que atrelou o preço dos combustíveis no mercado interno à cotação internacional do petróleo e à flutuação do dólar — o famigerado Preço de Paridade de Importação, o PPI. Quem pariu essa monstruosidade não foi a falta de Deus no governo, João, foi a fé cega de tecnocratas formados em Chicago, a mesma escola que o Friedman usou para vampirizar o Chile do Pinochet, na crença de que o mercado se autorregula como uma entidade divina. Resultado: a Petrobras, que já foi orgulho nacional e instrumento de soberania construído com luta popular nos anos 1950, virou uma máquina de sugar dinheiro do seu tanque para encher os bolsos de acionistas em Nova York. Não é coincidência: é projeto de classe. Enquanto você paga o triplo para ir trabalhar, os dividendos da empresa bateram recordes históricos. A matemática que você rejeita, na verdade, está esfregando a prova real do roubo na sua cara todo mês.
E sobre o bandido solto, eu entendo o medo e a insegurança. Mas a sociologia do crime ensina, desde pelo menos a Escola de Chicago nos anos 1920, que a violência urbana é um sintoma, não a doença. A doença é a desestruturação do tecido social promovida por quarenta anos de neoliberalismo: a destruição do emprego formal, a erosão dos serviços públicos, a territorialização do tráfico como substituto de um Estado que desertou das periferias e um sistema prisional que é uma fábrica de tortura e reincidência, como já denunciava Foucault em Vigiar e Punir. O pulso firme que você clama, quando exercido por uma polícia militarizada treinada para ver inimigo no pobre, gera exatamente o oposto da ordem: gera Chacina do Jacarezinho, genocídio da juventude negra e a guerra de facções. A ordem que nasce da pura repressão, sem justiça social, é a ordem do cemitério que fascinava os integralistas. Os países que mais reduziram criminalidade não foram os que lotaram presídios — foram os que lotaram as crianças de creche e os jovens de escola técnica.
Por fim, essa tríade que você invoca — Deus, pátria e pulso firme — tem um pedigree histórico que me arrepia. Foi exatamente sob o manto de “Deus e a família” que a Marcha da Família com Deus pela Liberdade saiu às ruas em 1964 para aplaudir tanques do Exército enquanto os direitos trabalhistas eram triturados pelo arrocho salarial do PAEG. É preciso uma honestidade intelectual dolorosa: a ditadura que prendeu, torturou e matou em nome da ordem foi a mesma que iniciou o endividamento externo e a concentração de renda que hoje explodem no seu orçamento da gasolina. A solução para a sua dor, João, não está num messias de farda, mas na política que você despreza como “aula de matemática”. Discutir os números do orçamento — o mesmo orçamento que sangra com isenção fiscal para bilionário e não fecha a conta do SUS — é o primeiro passo para sabermos quem está pagando a conta da sua gasolina. Marx dizia que o concreto é a síntese de múltiplas determinações. Traduzindo: sua raiva tem razão, mas o alvo dela está sendo mirado para o lado errado.
Paula Santos
23/05/2026
Me entristece ver tanta energia gasta em malabarismos com números enquanto a honestidade básica fica de lado. A fé que professo me ensina que a verdade não precisa de truques — ela se sustenta sozinha, e é por ela que devemos clamar ao escolher quem vai governar.
Lucas Moreira
23/05/2026
Reduzir intenção a votos absolutos é truque velho de campanha, mas o que realmente ataca é o custo fiscal que vem depois. Enquanto o Tesouro sangra com déficit primário, tem gente querendo discutir Espinoza como se o problema fosse teórico. O País precisa parar de romantizar gastança e encarar a realidade de que não existe almoço grátis – a conta sempre sobra pra quem produz.
Márcio Torres
23/05/2026
Lucas, esse truque de converter intenção de voto em número absoluto realmente é rasteiro — mero esforço de criar uma suposta maioria moral onde há, na verdade, uma fotografia granular e cheia de ruídos amostrais. Mas meu incômodo com o argumento que você desdobra a partir daí é outro: ele repete uma espécie de mito secularizado, uma crença quase litúrgica de que o “custo fiscal” é uma variável exógena, uma maldição que cai sobre o Tesouro porque governantes — invariavelmente os “outros” — são perdulários. Como ateu, aprendi a desconfiar de narrativas que personificam entidades abstratas. Déficit primário não é um espírito maligno que se manifesta porque alguém romantizou a gastança; ele é resultado de escolhas distributivas inscritas em lei — das renúncias tributárias que não passam pelo Orçamento, dos subsídios que carregam CNPJ, dos regimes especiais que fazem a conta pingar mais para quem nunca pegou um ônibus lotado.
Você diz que “a conta sempre sobra pra quem produz”. Essa frase é quase um hino entre os que acreditam que a economia se divide naturalmente entre formigas e cigarras. Mas a pergunta que um cético faria é: quem, exatamente, “produz”? O assalariado que tem o imposto retido na fonte, sem planejamento tributário? O pequeno empreendedor que não consegue contratar um exército de contadores para acessar os regimes especiais de que falei? Ou seria o grande conglomerado que “produz” lucro enquanto recebe incentivos fiscais que, segundo a Receita Federal, ultrapassaram R$ 300 bilhões em 2022 — valor que supera, sozinho, boa parte do discurso da gastança? O Tesouro não sangra apenas do lado da despesa primária; ele sangra também — e às vezes mais — pelo lado da receita que deixa de entrar porque o Estado brasileiro é generoso com quem já tem músculo financeiro para bancar lobby em Brasília. Isso não é romantismo; é dado público, disponível nos demonstrativos fiscais que ninguém lê antes de invocar o “almoço grátis”.
A ironia, me parece, é que muitos que brandam o realismo fiscal tratam a política orçamentária como se ela fosse uma ciência exata manchada por intervenções perdulárias. Mas a própria noção de “gastança” é pré-copernicana: supõe que há um centro fixo de virtude fiscal de onde certos governantes se afastam. A história econômica mostra que déficits se expandem tanto por aumento de gasto quanto por queda de arrecadação — e esta última ocorre frequentemente porque se decidiu, em algum gabinete, que era mais importante preservar margens de lucro do que financiar o Estado. Se o almoço não é grátis, seria bom ao menos discutir honestamente o cardápio: quem paga mais, quem paga menos e quem nem senta à mesa mas mesmo assim fica com a conta na bandeja.
O que realmente ataca não é só o jacaré vermelho do título, mas esse hábito de transformar economia em fábula moral, com heróis produtores e vilões gastadores. Essa mitologia não resiste a um exame cético dos balanços públicos — e, enquanto for mantida, o debate continuará oscilando entre Espinoza de vitrine e o xingamento rasteiro, sem nunca arranhar a estrutura que faz o Tesouro sangrar goteiras bem específicas, geralmente em cima de quem não tem lobby.
Ana Rodrigues
23/05/2026
Enquanto a turma aqui briga por teoria, quem tá no trânsito o dia inteiro sabe que o jacaré ataca é no bolso. Esse papo de 63 milhões não enche tanque de ninguém.
Eduardo C.
23/05/2026
63,2 milhões é simplesmente 40% de 158 milhões — aritmética de quarta série. Transformar percentual de intenção de voto em contagem absoluta sem levar em conta abstenção, margem de erro e estratificação amostral é um exercício de astrologia, não de estatística. Quero ver a tabela de contingência por faixa de renda e escolaridade antes de levar essa projeção a sério.
Carlos Meirelles
23/05/2026
Enquanto uns debatem Espinoza e outros chamam eleitor de otário, a realidade que dói no bolso ninguém quer enxergar: 63 milhões de votos custam caro quando são bancados com inchaço da máquina e promessas que o Tesouro não aguenta. No fim, a conta sempre sobra pra quem produz. O Brasil precisa parar de aplaudir distribuição de miséria e voltar a respeitar quem gera riqueza.
Maria Silva
23/05/2026
É desanimador ver o debate político se reduzir a xingamentos de um lado e teorias rebuscadas para justificar tudo do outro. Independente de quem seja, ridicularizar milhões de pessoas como “compradas” mostra mais arrogância do que argumento. Falta ao país uma conversa adulta, que respeite a fé e o bom senso, em vez desse Fla-Flu eterno que só corrói a confiança em todos os lados.
Lucas Gomes
23/05/2026
Reduzir 63 milhões de votos a uma transação clientelista, como se a consciência popular fosse uma planilha de débito e crédito, é uma aberração analítica que só interessa a quem prefere ignorar a materialidade brutal que estrutura a existência no Sul Global. O que está em jogo não é um mero assistencialismo comprador de vontades, mas um embate civilizatório entre um projeto de morte — este sim, fartamente financiado pelo rentismo agrário-exportador e pela mineração predatória — e a possibilidade, ainda que titubeante, de uma política que reconheça os corpos periféricos e os biomas ameaçados como sujeitos de direito. A métrica liberal que enxerga o Bolsa Família como grilhão ignora que, para os povos da floresta, das periferias inundadas e dos territórios de retomada, foi justamente sob governos petistas que se criaram as primeiras trincheiras institucionais contra a sanha do capital extrativista.
A metáfora do jacaré vermelho, aliás, é sintomática: o animal que ataca é justamente aquele que o agronegócio quer ver extinto ou confinado, drenando o Pantanal e a Amazônia para convertê-los em pastagem homogênea. O verdadeiro predador nunca foi o jacaré, mas a motosserra e o trator que avançam sobre terras indígenas e unidades de conservação ao ritmo das commodities no mercado futuro. Quando um governo minimamente comprometido com a demarcação de territórios originários e com a fiscalização ambiental se apresenta como alternativa, os povos que dependem diretamente dos ecossistemas em pé — ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco, agricultores familiares — o reconhecem como ferramenta de sobrevivência. Isso não é compra de votos, é instinto de autoconservação diante do necrocapital que transforma rios em lama e gente em refugo.
O comentário do Caio Vieira tocou num ponto nevrálgico ao mencionar o conatus espinosano, mas é preciso ir além: a micropolítica da sobrevivência não é apenas uma astúcia do precariado urbano — ela é também a revanche ontológica da natureza contra a lógica da plantation que nunca deixou de operar no Brasil. Cada voto depositado na urna em defesa do SUS, da escola pública e da proteção ambiental é um ato de resistência contra o projeto de esvaziamento estatal que condena corpos negros e indígenas ao abandono sanitário e à invasão de seus territórios. O discurso que patologiza esses votos como “dependentes da máquina estatal” é o mesmo que, na década de 1970, chamava seringueiros de “obstáculos ao progresso” enquanto abria estradas no coração da floresta.
O que essa cobertura eleitoral costumeiramente oblitera é o nexo indissociável entre justiça social e integridade ecossistêmica. Não há saída para a crise climática sem redistribuição de renda, sem reforma agrária, sem o reconhecimento dos modos de vida que mantêm a diversidade biocultural em pé. Quando o Datafolha capta 40% de intenção de voto num candidato que, malgrado todas as contradições e alianças espúrias, ainda sinaliza com um Ministério dos Povos Indígenas e com a recomposição de órgãos de fiscalização, ele está medindo mais do que preferência eleitoral — está captando um grito difuso por freios de emergência diante do desastre civilizatório. Quem insiste em ler esse número como cifra monetizada é a mesma intelligentsia que se emociona com índices da bolsa enquanto os termômetros batem recordes.
Portanto, sim, o jacaré volta a atacar — e que ataque, se por “ataque” entendermos a insistência coletiva em não sucumbir ao genocídio ambiental e social que avança sob o manto da eficiência de mercado. Prefiro um suposto curral eleitoral mantido por transferência de renda a um curral de fato, cercado de arame farpado e banhado em sangue guarani-kaiowá, gerido por quem celebra a grilagem como liberdade econômica. A democracia brasileira não será salva por purismos liberais que ignoram a geopolítica das águas e dos minérios, mas pela capacidade de transformar cada voto de gente simples em um voto pela Terra.
Luan Silva
23/05/2026
63 milhões de otários comprados com dinheiro público e ainda chamam de democracia KKKKKKK faz o L agora, jacaré 🐊🚩
Caio Vieira
23/05/2026
Luan, chamar de otário o sujeito que exerce sua micropolítica de sobrevivência no interior do que Espinoza denominava conatus é ignorar a astúcia ontológica do precariado; seu escárnio, ironicamente, performa a própria hegemonia que diz combater, ao reduzir a complexidade da cultura popular a uma transação monetária que só existe na cabeça de quem nunca precisou decifrar o orçamento doméstico como texto de resistência.
Cecília Alves
23/05/2026
Os 40% não são um enigma: é a fatia que depende diretamente da máquina estatal para sobreviver, seja por Bolsa Família, funcionalismo ou aposentadoria rural turbinada. O drama é que esse assistencialismo não constrói cidadãos livres, apenas eleitores cativos de um Estado que suga 40% do PIB e entrega miséria em troca.
Carlos Henrique Silva
23/05/2026
Cecília, sua análise parte de uma premissa liberal que precisamos examinar com mais cuidado: a ideia de que existe um ente chamado “Estado” que “suga” algo de uma sociedade que lhe seria externa e naturalmente virtuosa. Essa separação é uma ficção contábil conveniente. O Estado, nas formações sociais capitalistas periféricas como a nossa, é um campo de disputa — e o orçamento público, longe de ser um parasita, é a cristalização de uma correlação de forças entre classes. Quando você diz que o assistencialismo “não constrói cidadãos livres, apenas eleitores cativos”, está implícito que o mercado sim, os constrói. Pergunto: que liberdade é essa do sujeito que acorda às quatro da manhã para enfrentar três horas de transporte público, com o estômago vazio, sujeito a um trabalho uberizado e sem direitos? O fato de essa pessoa receber uma transferência direta de renda não a torna “cativa”; ao contrário, a renda monetária no território da favela ou do interior profundo é exatamente o que permite romper, ainda que minimamente, com as formas mais brutais de servidão privada, como a dependência do patrão local, do agiota, do mercado que regula o preço do gás e do arroz ignorando qualquer humanidade.
A categoria marxiana de “exército industrial de reserva” segue explicando muita coisa no Brasil. A funcionalidade do enorme contingente de pauperizados para achatar salários e disciplinar quem está empregado é estrutural. As políticas de transferência de renda, ainda que focalizadas e muito aquém do que uma social-democracia robusta proporia, cumprem um papel contraditório: ao mesmo tempo que funcionam como mecanismo de legitimação da ordem e de contenção de conflitos, elas também irrigam o consumo de base da pirâmide e permitem que, nos grotões onde o capital não chega com seu “empreendedorismo”, o dinheiro circule e mantenha vidas de pé. Reduzir os 63 milhões de votos ou os 40% do PIB que passam pelo orçamento público a uma relação simplista de troca de favores é perder de vista que a consciência política não se compra com um cartão de débito. Se fosse assim, o neoliberalismo não teria sofrido derrotas eleitorais recentes em vários países com amplos programas de transferência. A classe trabalhadora, mesmo a mais pauperizada, elabora sua experiência de maneira complexa, e não raro vota guiada por um cálculo concreto de sobrevivência, mas também por valores morais, religiosos e identificações culturais que frequentemente apontam para a direita — apesar do Bolsa Família. Isso, por si só, derruba a tese mecanicista do curral.
Por fim, inverta a lente, Cecília. Fala-se tanto em “dependência do Estado” e nunca se nomeia a dependência do mercado, que é a verdadeira jaula de ferro. O rentista que vive de juros reais sobre títulos públicos “suga” o orçamento de forma incomparavelmente mais violenta e silenciosa do que o programa de renda mínima. O grande agronegócio que exporta commodities com isenção fiscal turbinada enquanto sua riqueza não circula na economia local também é um dependente voraz do Estado — só que essa dependência, Gramsci nos lembraria, é hegemonicamente apresentada como “incentivo à produção” ou “segurança jurídica”. A miséria que você menciona não é entregue por um Estado que ousa transferir míseros reais a quem tem fome; a miséria é a produção diária de um modelo econômico concentrador, que o Estado financia em suas camadas superiores e apenas tenta remediar em suas consequências mais explosivas. Chamar esse equilíbrio instável de “compra de votos” é adotar o vocabulário da classe que quer desmantelar qualquer resquício de pacto social para reinar absoluta sobre a precariedade alheia.
Zé do Povo
23/05/2026
SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER, É TUDO COMPRADO COM DINHEIRO PÚBLICO 😡 JACARÉ VERMELHO É ESSA DESGRAÇA DE COMUNISMO DISFARÇADO ‼️ VOLTA PRA JAULA, LULA! O POVO QUER VALORES CRISTÃOS E TRADIÇÃO 🇧🇷🙏
Pedro Almeida
23/05/2026
Zé, o verbo “comprar” é curioso — mas me diga, quem o povo acha que paga a conta quando o Estado renuncia à sua função redistributiva e subsidia o rentismo? Se há indignação com o preço da consciência alheia, talvez devêssemos começar perguntando por que o mercado financeiro, esse sim, nunca precisou de curral: sempre lhe bastou o cofre. Quanto aos valores cristãos, o carpinteiro que expulsou os vendilhões do templo não militava exatamente pela “tradição” que você imagina — Ele parecia mais preocupado com quem transforma a Casa do Pai em balcão de negócios.
Maria Antonia
23/05/2026
Os 63 milhões não são mistério nenhum: é o curral eleitoral que o assistencialismo estatal constrói. Menos governo, mais responsabilidade.
Julia Andrade
23/05/2026
Maria Antonia, chamar os 63 milhões de votos de “curral eleitoral do assistencialismo estatal” é não apenas uma simplificação grosseira, mas também uma reprodução sofisticada de uma velha arrogância colonial que vê no povo pobre e racializado uma massa de manobra incapaz de discernimento político. Essa narrativa é confortável para quem nunca precisou se perguntar de onde virá o próximo prato de comida ou como manter os filhos na escola sem a bolsa-família. Você invoca “responsabilidade” como se essa palavra fosse neutra, como se não estivesse encharcada de privilégio racial e de classe. A ideia de que o voto popular é comprado pelo assistencialismo apaga deliberadamente a agência histórica de mulheres negras periféricas, que não votam por clientelismo, mas porque são as primeiras a sentir na carne os impactos do desmonte do SUS, da ausência de creches e da violência policial que um Estado mínimo jamais enfrentaria. A filósofa Sueli Carneiro já nos alertava que o dispositivo de racialidade opera exatamente assim: desqualifica a subjetividade política da população negra, transformando sua sobrevivência em prova de dependência e sua escolha eleitoral em falta de consciência.
Quando você defende “menos governo”, está propondo, na prática, a radicalização de um regime de exploração que pesa desproporcionalmente sobre corpos femininos e racializados. A “responsabilidade” que o discurso liberal prega é a mesma que joga sobre os ombros de uma mãe solo, negra, moradora da favela, a culpa por não prosperar num mercado de trabalho que a segrega, enquanto os serviços públicos que poderiam garantir creche, transporte e segurança são cortados em nome da austeridade. Autoras como Silvia Federici, ao analisarem o trabalho reprodutivo, mostram que o capitalismo sempre dependeu da invisibilização desse trabalho não remunerado, majoritariamente feito por mulheres. O assistencialismo que você despreza não é uma dádiva do Estado para comprar votos; é a mínima compensação por uma expropriação histórica. Menos governo, nesse contexto, significa mais carga de cuidado não pago sobre essas mulheres, mais evasão escolar entre suas crianças, mais horas de espera num transporte público sucateado. Isso não é responsabilidade: é crueldade disfarçada de virtude.
O que está por trás do discurso de “menos governo, mais responsabilidade” é uma racionalidade neoliberal que, como aponta Wendy Brown, sequestra a própria noção de cidadania, reduzindo-a a uma lógica de empreendedorismo individual onde cada um deve ser gestor de si mesmo. Mas a pergunta que fica é: quem pode, de fato, empreender a própria vida quando o chão é permanentemente instável? Esses 63 milhões de votos não são um acidente irracional; são um sintoma lúcido — e até racional, dentro das condições dadas — de quem entende que a mão invisível do mercado só chega para empurrar suas cabeças para debaixo d’água. O tal “jacaré vermelho” do artigo talvez não seja o Estado que você imagina, Maria Antonia. Talvez ele seja justamente essa aliança entre um fundamentalismo de mercado e uma moralidade da responsabilização individual que devora, com dentes afiados, qualquer possibilidade de vida coletiva digna. E enquanto seguimos debatendo metáforas, o jacaré continua atacando — mas não do lado que você pensa.
Mariana Lopes
23/05/2026
Rodrigo, você tocou num ponto que me preocupa de verdade. Fico pensando se esses 63 milhões de votos são menos uma adesão ideológica e mais um reflexo do desespero de quem sente o poder de compra derreter mês a mês. No fim, o que me assusta nessa thread toda é como a gente se perde na metáfora do jacaré ou na psicanálise de significantes enquanto a realidade da planilha de custos e do orçamento familiar não aparece em debate nenhum.
Rodrigo Meireles
23/05/2026
Esses 63,2 milhões de votos não surgiram do nada — são um sintoma claro da falta de previsibilidade econômica que a gente enfrenta há anos. Enquanto ficam debatendo metáfora de jacaré ou fazendo psicanálise de comentário, o custo do capital continua subindo e o empreendedor que gera emprego só quer saber de uma coisa: qual é o plano fiscal concreto. Sem isso, qualquer discussão vira perfumaria.
Luiz Augusto
23/05/2026
Enquanto perdem tempo com psicanálise de metáforas, a economia real segue sangrando. O jacaré só avança porque o Estado inchado continua devorando a iniciativa privada, e esses 40% refletem a dependência que o próprio intervencionismo cria. Não há mistério: menos governo, mais liberdade econômica, e a fera perde o pântano.
Luisa Teens
23/05/2026
Ah sim, a sua “liberdade econômica” é o código que as corporações usam pra queimar o Pantanal enquanto vocês batem palma #ForaBolsonaro
Letícia Fernandes
23/05/2026
É curioso — e profundamente sintomático — que o significante escolhido para designar a figura de Lula e o campo político que ele representa seja um “jacaré vermelho”. A insistência nessa metáfora animalesca, que percorre vários dos comentários acima, merece uma escuta psicanalítica atenta. Não se trata de uma simples provocação retórica da extrema-direita, mas de um mecanismo psíquico primário que Freud descreveu com precisão: a projeção do inquietante sobre o objeto odiado. O jacaré é o réptil primitivo, o impulso arcaico e supostamente ameaçador que habita o inconsciente da própria classe média branca aterrorizada — classe que, ao projetá-lo no outro, livra-se momentaneamente da angústia de reconhecer a própria voracidade predatória. O vermelho, por sua vez, condensa o medo da pulsão de vida coletiva, do laço social que ameaça dissolver a fantasia neoliberal do indivíduo autossuficiente. Esse substrato irracional não é acidental: é o próprio combustível afetivo que a superestrutura ideológica burguesa precisa mobilizar para manter sua hegemonia em crise.
A patologia desse pânico revela-se de forma ainda mais cristalina quando observamos a gramática religiosa que invade o debate político, como se vê em algumas intervenções aqui. A mobilização do discurso apocalíptico — “cavalo vermelho”, “profeta Oséias”, “cegueira espiritual” — não é fé genuína, mas uma racionalização secundária que tenta dar dignidade teológica ao que é, no fundo, puro pavor de classe. É a angústia diante da possibilidade, ainda que remota, de que o Estado seja instrumentalizado para alguma redistribuição efetiva, para algum deslocamento das coordenadas simbólicas que sustentam a propriedade privada e a família monogâmica burguesa como instâncias sagradas. A psicanálise nos ensina que o sintoma é uma formação de compromisso: esses irmãos e irmãs gritam “Deus” e “família” porque não suportam nomear o verdadeiro objeto de seu terror — a emergência do sujeito coletivo popular, que historicamente o campo de Lula, com todas as suas contradições e limites, representou.
Ao mesmo tempo, não posso deixar de notar o acerto de Cláudio Ribeiro ao denunciar o reducionismo zoologizante do termo “gado”, ecoando Gramsci. De fato, o insulto “gado” é a confissão involuntária de uma impotência política: quem só consegue enxergar o eleitorado adversário como uma massa bovina irracional já renunciou, de antemão, à disputa pela hegemonia no terreno da argumentação e da persuasão. Contudo, gostaria de acrescentar uma camada psicanalítica a essa observação. O fascínio da direita pelo léxico animal — “gado”, “jacaré”, “peste” — é um retorno do recalcado de sua própria concepção antropológica implícita: a de que a sociedade é uma selva hobbesiana onde só os mais fortes merecem sobreviver. Ao chamar o outro de animal, revelam que é assim que sempre nos viram — e a indignação histérica vem exatamente do pânico de que esses “animais” comecem a ocupar o lugar de humanos na distribuição de direitos e reconhecimento.
A colega Fernanda Oliveira, com precisão, desloca o debate do terreno da abstração religiosa para o chão material da fome e da miséria. Essa é a bússola ética que orienta qualquer análise marxista séria: o critério último de legitimidade de um projeto político não é sua pureza doutrinária, mas sua capacidade de interromper o sofrimento corporal dos oprimidos. Os 40% que tanto horrorizam os comentaristas apocalípticos não são cifra de manipulação, mas a memória viva de um período em que a fome deixou de ser paisagem cotidiana para milhões. A direita, patologicamente, precisa negar essa memória porque ela desmente o núcleo central da ideologia meritocrática: a de que os pobres são pobres por falha moral individual. Admitir que uma política estatal pode, sim, resgatar multidões da inanição seria implodir toda a arquitetura psíquica que sustenta sua fantasia de superioridade. Que sorte a nossa, a dos que insistem na política apesar da zoologia alheia, que o real da fome tenha mais força que o delírio.
Marcus Almeida
23/05/2026
A Palavra já advertia que o meu povo perece por falta de conhecimento, e esses 40% de apoio ao jacaré vermelho comprovam essa cegueira espiritual. Votar nesse projeto significa entregar de vez a família, a liberdade econômica e o futuro dos nossos filhos a um bando que só pensa em poder e corrupção.
Fernanda Oliveira
23/05/2026
Marcus, conhecimento sem empatia é só vaidade. A fome que mata as nossas crianças não espera oração vazia nem discurso de “família” que fecha os olhos pra quem vive na rua enquanto vocês chamam corrupção o que foi tirar milhões da miséria.
Adalberto Livre
23/05/2026
JACARÉ VERMELHO SO VOLTA PQ TEM MUITO TROUXA QUE GOSTA DE VOTAR EM COMUNISTA PRA AFUNDAR O PAÍS. 40% É TUDO GADO DO PT, ACORDA BRASIL!!!
Cláudio Ribeiro
23/05/2026
Adalberto, quando tudo se reduz a “gado”, abandona-se a política e entra-se na zoologia. O seu grito é exatamente o que Gramsci chamava de “senso comum” — fragmento de ideologia dominante que se traveste de rebeldia enquanto repete, sem mediação, a voz do patrão.
Silvia Ramos
23/05/2026
Que tristeza ver tantos irmãos iludidos por promessas vazias, enquanto os verdadeiros valores da família e da fé vão sendo jogados no lixo. O profeta Oséias já dizia que o meu povo perece por falta de conhecimento, e esse cavalo vermelho do apocalipse ideológico continua levando inocentes ao precipício. Oro todos os dias pra que Deus abra os olhos dessa nação antes que o estrago seja irreversível.
Sargento Bruno
23/05/2026
Quarenta por cento de brasileiros ainda acreditam nesse engodo ideológico… é a prova viva de que a doutrinação venceu o senso de autopreservação. Traduzam o que quiserem, mas o jacaré vermelho só afia os dentes com o nosso dinheiro e a nossa liberdade. Acordem enquanto há Pátria para defender!
Francisco de Assis
23/05/2026
Sargento, esse papo de doutrinação é sintoma brabo: alienação de quem acha que liberdade é não ter Estado pra regular banqueiro e latifundiário. O dinheiro que o senhor diz que o jacaré afia os dentes foi o mesmo que arrancou 40 milhões da fome e botou as transnacionais pra pagar royalties que a velha república entregava de graça — acordar pra defender a pátria é defender isso, não patrão com medo de perder mordomia.
Ricardo Menezes
23/05/2026
Deixa eu ver se entendi: o drama é o “jacaré vermelho”, mas os 40% de apoio a mais Estado, mais imposto e mais burocracia são tratados como fatalidade climática? Cresci em São Paulo vendo negócio quebrar por conta de penduricalho fiscal e maracutaia sindical, e me assusta muito mais o apetite insaciável do Leviatã do que bicho de história de pescador.
Mariana Alves
23/05/2026
Ricardo, ao deslocar a angústia do “jacaré vermelho” para o “apetite insaciável do Leviatã”, o senhor acerta na sensação de sufocamento, mas aponta a presa errada. A história de pescador que nos contam não é a da besta comunista: é a da mão invisível que, generosa, regula tudo. Só que na sua São Paulo, como na minha Recife, quem quebrou o pequeno negócio não foi a burocracia da Receita, mas a fragilidade imposta por um modelo que drena crédito com taxas de juros de agiotagem internacional enquanto abençoa a concentração de mercado. O empreendedor é louvado como herói no palanque, mas na prática lhe dão um contrato precário, aluguel indexado pelo IGP-M e um concorrente que opera com capital a custo zero no exterior. O “Leviatã” de Hobbes que você evoca não está na máquina pública que, com todas as suas distorções, ao menos tenta regular essa selva — está na soberania privada dos fundos de investimento que ditam as regras sem voto e sem recall.
Para um marxista, o Estado não paira como ente autônomo e faminto em abstrato: ele é, nas palavras de Gramsci, “todo o complexo de atividades práticas e teóricas com o qual a classe dirigente não só justifica e mantém seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo dos governados”. O “penduricalho fiscal” que o senhor cita é frequentemente a única trava — ainda que insuficiente — ao canibalismo predatório do grande capital sobre o pequeno. A maracutaia sindical, na escala real da economia, é troco de balcão se comparada ao orçamento da sonegação corporativa e à engenharia de precatórios que nos ronda. O verdadeiro Leviatã insaciável não arrecada imposto para construir escola; ele suga o fundo público via isenções e juros da dívida, e depois acusa o servidor público de ser o parasita. A retórica do “mais Estado, mais imposto, mais burocracia” é uma cortina de fumaça que esconde a ausência de um Estado que efetivamente proteja a economia real da ciranda financeira.
Há um conceito dolorosamente preciso em David Harvey, o de “acumulação por espoliação”: o capital atual não precisa mais explorar apenas o trabalhador na fábrica; ele avança sobre o fundo público, as aposentadorias, os direitos, os pequenos patrimônios, as empresas familiares, tudo que possa ser transformado em ativo. O seu negócio que quebrou não foi vítima de um Leão tributário — foi empurrado para a vala comum da financeirização por um sistema que sequestra a renda e a terra das famílias e as entrega a conglomerados que nem sequer pisam no bairro. O Estado que o senhor condena é justamente aquele que, fraco e capturado, subsidia montadora na crise e larga a padaria da esquina à própria sorte na pandemia, repetindo o mantra do “quem paga a conta?” enquanto o banco central remunera o rentista. Essa é a violência silenciosa e legal que nenhum jacaré de lenda poderia igualar.
Portanto, não é o bicho de história de pescador que deve assustar; é a mitologia liberal que torna o monstro invisível aos olhos de quem sente as suas mordidas. O “jacaré vermelho” é um espantalho útil porque personifica o medo em algo distante e caricato, enquanto o predador real — o capital rentista, o latifúndio financeirizado, a herança não taxada — se move no mesmo habitat que nós, travestido de virtude gerencial. Enquanto perseguirmos fantasmas, o Leviatã de verdade continuará devorando não apenas negócios, mas projetos de vida, e ainda nos convencerá de que a culpa é da CLT ou da fiscalização tributária. Esse, sim, tem o apetite que nenhum cofre público será capaz de saciar.
Major Ricardo Silva
23/05/2026
Enquanto alguns preferem brincar com “jacaré” como se fosse piada, esquecem que a fome do PT por poder já custou caro demais ao país. Defender a ordem, a família e o patrimônio não é histeria, é memória de quem serviu à Pátria e viu o estrago que essa turma faz.
João Batista
23/05/2026
Major, servir à Pátria não pode virar desculpa pra canonizar ordem que mantém pobre com fome e latifúndio intocado — o Evangelho que leio chama isso de escândalo, não de virtude.
Tonho Patriota
23/05/2026
FAZ O L AGORA QUE O JACARÉ VERMELHO É O COMUNISMO VINDO PRA QUEIMAR IGREJA E DISTRIBUIR MAMADEIRA DE PIROCA!!!
Jeferson da Silva
23/05/2026
Tonho, o único jacaré que ataca na fábrica é o chicote do patrão disfarçado de “liberdade econômica”, enquanto tu grita contra mamadeira de piroca e aceita mamadeira de cloroquina calado.
Carlos Oliveira
23/05/2026
Essa histeria com o tal jacaré vermelho é cortina de fumaça pura: os 40% representam 63 milhões de brasileiros que só querem recuperar o direito à carne na mesa e à escola pública funcionando. Enquanto se apavoram com répteis mitológicos, o latifúndio segue intocado e o Brasil retorna constrangedoramente ao mapa da fome — isso, sim, é monstro de verdade e não ganha manchete em rede social.
Samara Oliveira
23/05/2026
Lurdinha, esse medo de jacaré é cortina de fumaça pra tapar o sol com a peneira. Enquanto crente se desespera com dragão de gibi, o monstro da desigualdade engole o almoço de quem já não sabe se janta. Isaías fala de repartir o pão com o faminto, não de caçar réptil imaginário.
Lurdinha Deus Acima de Todos
23/05/2026
Acorda povo esse jacaré vermelho é o dragão do apocalípis disfarçado, já falei no grupo que vão fechar as igreja 🙏🇧🇷🔥
Mateus Silva
23/05/2026
Lurdinha, o “dragão vermelho” é o álibi simbólico que impede a senhora de enxergar a besta real: a desigualdade estrutural que Marx descreveu como a lei severa do capital. Enquanto temem fecharem as igrejas, já fecharam as portas do emprego digno e ninguém fez corrente de oração.
Maria Aparecida
23/05/2026
Esse alvoroço com “jacaré vermelho” é sintoma de quem nunca leu que pelos frutos se conhece a árvore. No governo que essa turma chama de monstro, o povo da quebrada comia carne, e a igreja verdadeira se alegrava porque a mesa dos pobres era farta — como está em Isaías 58. O resto é retórica de quem nunca passou necessidade na fila do osso.
Tiago Mendes
23/05/2026
Enquanto uns gritam “jacaré vermelho”, eu me pergunto onde estava esse mesmo pavor quando o verdadeiro monstro devorava o salário e a fé do trabalhador. Jesus não chamou a atenção dos crentes para temerem répteis ideológicos, mas para se preocuparem com quem tem fome e é injustiçado — e esses 40% não são cegos, são só gente que cansou de ser invisível.
Luiz Carlos
23/05/2026
40% de intenção de voto é muito, mas quem tá na rua o dia inteiro vê o que pesa de verdade: gasolina a 7 conto e medo de virar estatística. O povo esquece a corrupção e cai em conto de fadas. Depois fica rezando, mas o voto se decide no bolso e na segurança.
Rubens O Pescador
23/05/2026
Seu Luiz Carlos, pois é, mas eu me alembro bem que no tempo do Lula a gasolina tava dois e pouco, o litrão a três conto e o povo andava de cabeça erguida porque sobrava troco no bolso — o senhor chama de conto de fadas, eu chamo de saudade do superávit na quitanda.
Cíntia Ribeiro
23/05/2026
Transformar 40% de intenção de voto em “jacaré vermelho” é uma metáfora que inflama mais do que esclarece — uma pena, pois o dado pediria análise institucional, não pânico moral. Em sistemas presidenciais multipartidários como o nosso, esse número indica dianteira, mas não governabilidade automática: o segundo turno e a formação de coalizões seguem sendo os verdadeiros testes democráticos. A thread escancara como o debate público se afasta das instituições e se agarra a analogias bélicas — e isso, sim, me preocupa como cientista política.
Marcos Conservador
23/05/2026
Até no ônibus que eu pego pra ir à missa já meteram adesivo de linguagem neutra — é o jacaré vermelho doutrinando a molecada. Esses 40% de votos são almas cegas que não enxergam o marxismo cultural infiltrado em cada canto. Só de joelhos mesmo pra esse país não virar uma Cuba com samba.
Cecília Silva
23/05/2026
Marcos, teu medo de “Cuba com samba” é tão grande que tu não enxerga que a doutrinação mesmo tá no joelho calejado de quem reza por milagre enquanto o ônibus passa lotado e a creche da quebrada fecha por falta de verba. O jacaré vermelho que te assombra nunca matou ninguém na minha favela — já a bala perdida e a fome têm CPF e endereço certo.
Roberto Lima
23/05/2026
Esses 40% só mostram que o brasileiro tem memória curta e adora um discurso fácil. Enquanto o pessoal fica citando Adorno e teoria crítica, o campo continua produzindo apesar do estado atrapalhando com imposto e burocracia. O jacaré vermelho sobrevive porque tem intelectual passando a mão na cabeça.
Marina Silva
23/05/2026
O campo produz, sim, veneno e cercamento, e o estado que você odeia é o mesmo que banca o crédito rural pros teus heróis do agronegócio.
Miriam
23/05/2026
Tanta energia gasta em metáforas e teorias… eu só queria saber se o cadastro eleitoral está consistente e se as urnas serão auditadas sem intercorrências. No fim, o que importa é a burocracia funcionar, o resto é barulho.
Carlos A. Mendes
23/05/2026
A Luciana foi a única aqui que falou do que realmente importa. Enquanto fico vendo discussão sobre jacaré e teoria crítica, minha planilha de custos não fecha e o cliente reclama que não sobra nada no fim do mês. Tá difícil achar um lado pra defender quando os dois parecem mais preocupados em lacrar do que em arrumar esse país.
Lucas Andrade
23/05/2026
Luciana encarna perfeitamente o sujeito administrado que Adorno denunciava: a concretude sufocante da sobrevivência como álibi para não enxergar a arquitetura que a produz. O jacaré vermelho não é uma escolha, é a única afetividade que resta quando o neoliberalismo já colonizou até o desespero.
Luciana
23/05/2026
Enquanto essa turma briga por jacaré e hedge, eu tô aqui vendo o gás bater 120 reais e o óleo de soja sumir da prateleira. Discussão de rico ou de quem nunca precisou contar moeda no fim do mês.
Pedro Neto
23/05/2026
Faz o L!
Karina Libertária
23/05/2026
Sessenta milhões de votos de gente que nunca fez um wire transfer na vida e acha que governo é call center de welfare. Aqui em Miami a gente faz hedge do próprio futuro enquanto essa turma espera o jacaré resolver a vida.
João Augusto
23/05/2026
O fetichismo da mercadoria, Karina, é tão onipresente que você confunde hedge com soberania: esquece que a arquitetura financeira que usa em Miami depende das mesmas estruturas estatais que despreza, e que sua “independência” é a forma mais acabada do falso universalismo burguês denunciado por Marx nos Grundrisse.
Marina Costa
23/05/2026
Essa pesquisa só revela o quanto o povo está anestesiado pelo engano vermelho. Zombam de quem defende a família e a vida desde o ventre, mas é justamente essa cegueira moral que abre as portas para a destruição. Que o Senhor abra os olhos de quem ainda acredita que jacaré só morde os outros.
Capitão Tavares 🇧🇷
23/05/2026
Cuspiu verdades, Eduardo. Perdi colegas de farda enquanto esses vermes mamam nas tetas do Estado. A pesquisa só mostra que a manada ainda acredita em conto de fadas. Mas uma hora a paciência da caserna acaba.
Paulo Ribeiro
23/05/2026
Capitão Tavares, o emprego da palavra “vermes” para designar adversários políticos não é apenas uma escolha infeliz de vocabulário: é o sintoma de uma estrutura ideológica que, como nos ensinou Althusser, interpela os indivíduos como sujeitos de uma narrativa pronta, na qual a desumanização do outro é etapa necessária para justificar o expurgo. Não há inocência nesse gesto semântico. Quando a caserna se coloca como detentora de uma paciência que um dia “acaba”, o que se comunica nas entrelinhas é a velha pedagogia do golpe, que a história brasileira conhece bem. Perder colegas de farda é uma dor que respeito, mas transformá-la em combustível para uma ameaça difusa contra “esses vermes” é precisamente o mecanismo que Gramsci identificava na pequena burguesia militarizada: deslocar a violência concreta das relações sociais para um inimigo fantasmagórico, fabricado ad hoc, enquanto se mantém intacta a adoração à hierarquia que, no fundo, produziu a tragédia dos seus colegas. Foram as decisões políticas das elites que os senhores juram defender que os enviaram para cenários de risco, e não a existência de cotas ou o debate sobre gênero nas escolas.
Quanto às “tetas do Estado”, talvez seja útil sair da caricatura moralista e fazer o que Mariátegui chamava de “crítica real da economia política da nação”: o Estado brasileiro não é uma vaca leiteira disputada entre vagabundos e homens de bem; ele é um campo de forças onde, há séculos, as classes dominantes se fartam por meio de isenções fiscais bilionárias, perdões de dívidas, subsídios ao agronegócio e juros que remuneram o rentismo como em nenhum outro lugar do mundo. A raiva seletiva contra o pobre que acessa uma política pública é, portanto, a raiva do subalterno que ousa aparecer onde não era esperado. José Carlos Mariátegui, pensando a realidade peruana, já denunciava o caráter colonial dessa mentalidade: o ressentimento contra o indígena que recebe terra é a mesma estrutura de sentimento que aqui se volta contra o cotista, o beneficiário do Bolsa Família, o professor que discute gênero. É a defesa raivosa de um lugar simbólico, não um cálculo objetivo sobre o que realmente sangra os cofres públicos.
A pesquisa à qual o senhor chama de “conto de fadas” não é a prova da imbecilidade da “manada”, mas um dado sociológico que indica, entre outras coisas, que parcelas significativas da população reconhecem que sua sobrevivência material imediata esteve associada a políticas redistributivas — ainda que tímidas — que os defensores da “paciência da caserna” desejam destruir. O conceito de hegemonia em Gramsci nos ajuda a entender isso: não se trata de cegueira coletiva, mas de uma disputa ativa em que determinados interesses de classe conseguiram, por ora, construir um senso comum que, apesar da ofensiva reacionária, ainda conserva na memória popular a diferença entre a fome e o prato de comida. Chamar essa memória de “manada” é a confissão de uma aristocracia que se crê iluminada e que, quando confrontada com a democracia real, apela à violência como argumento final — o que, convenhamos, é a antítese de qualquer virtude republicana que um uniforme deveria simbolizar.
Eduardo Nogueira
23/05/2026
Chama de “pânico moral” quem nunca perdeu emprego pra cota ou viu a filha sendo doutrinada com ideologia de gênero. O jacaré vermelho tá mais vivo que nunca, e a pesquisa é só o aperitivo.
Maura Santos
23/05/2026
Eduardo, se tem jacaré devorando o seu emprego, aposto que ele nasceu no apagão que os seus heróis criaram — aquele que queimou a poupança do pequeno empresário enquanto vocês caçavam doutrinação em livro didático. O réptil é nacional, querido.
Paulo Gestor RJ
23/05/2026
Foco em gestão é o que falta. O Marcos lembrou bem do Rodrigo Neves, e eu admiro o que foi feito em Niterói. Só fico na torcida para que a ideia do metrô sob a Baía — por mais ousada e visionária que seja — venha acompanhada de uma equação fiscal tão consistente quanto, porque investir no adensamento e na confiabilidade da malha ferroviária existente já traria um retorno mais imediato ao bolso do contribuinte.
Ricardo Almeida
23/05/2026
É curioso como o debate político se apega a metáforas zoológicas para evitar o óbvio: uma pesquisa descreve intenção de voto, não um ataque de réptil. Reduzir 40% de um levantamento estatístico a um monstro de filme B é o recurso clássico de quem prefere o pânico moral à discussão sobre margem de erro e estratificação de amostra. O verdadeiro predador aqui é a preguiça analítica, que devora a complexidade do eleitorado e a substitui por um bestiário de internet — parece que, na ânsia de combater um jacaré imaginário, os comentaristas criaram um zoológico inteiro.
Marta Souza
23/05/2026
Esse terrorismo todo com “jacaré vermelho” serve só pra desviar o foco do que realmente ameaça o seu bolso. O verdadeiro predador sanguinário não está em Havana, está no insaciável apetite arrecadatório do Estado brasileiro, que sangra o empreendedor com uma carga tributária escandalosa para sustentar ineficiência e cabides de emprego. Enquanto nos distraímos com essa histeria ideológica, a máquina pública cresce e a liberdade econômica míngua todo dia.
Célia Carmo
23/05/2026
Marta, o Estado é burguês e o jacaré vermelho é o capital, sua capacho da elite!
João Batista Alves
23/05/2026
O jacaré vermelho só avança porque a fé e a moral foram abandonadas. Os números não mentem: o povo esqueceu os valores cristãos que construíram esta nação. Que Deus tenha misericórdia de nós e ilumine essas almas antes que seja tarde.
Marcos Andrade Niterói
23/05/2026
João, enquanto você espera a misericórdia divina, os projetos do Rodrigo Neves já melhoraram a mobilidade de quem realmente precisa em Niterói. Acho curioso como a extremadireita adora misturar fé com pânico moral, mas nunca apresenta um projeto concreto de cidade.
Adriana Silva
23/05/2026
Faz o L que o jacaré vermelho te leva pra Cuba na marra, tudo armação do STF comunista.
Renato Professor
23/05/2026
Adriana, é fascinante essa sua convicção de que um tribunal togado e vitalício, cujo principal hobby é julgar recursos fiscais de grandes bancos, seria a vanguarda do comunismo. Se a tomada de Cuba dependesse de embargos de declaração e modulação de efeitos, Fidel teria morrido em primeira instância.
Zé Trovãozinho
23/05/2026
Quarenta por cento? Chocada que não é 100%, já que o STF e a mídia mamam o jacaré todo dia. Esse povo só acorda quando a poupança for confiscada e virar a Venezuela, mas aí já era.
Luizinho 16
23/05/2026
Confisco de poupança é o que o banco faz com a sua todo dia em taxas abusivas, mas aí o alarmismo venezuelano some e vira lucro dos acionistas.
Rick Ancap
23/05/2026
Imposto é roubo, e o jacaré vermelho é a prova de que o gado ama ser ordenhado pelo Estado.
João Carvalho
23/05/2026
A sua metafísica do roubo parte de uma premissa curiosa: a de que existiria um indivíduo soberano anterior ao pacto social, como se a propriedade privada não fosse, ela mesma, a primeira e mais violenta criação do Estado que você tanto despreza. Chamar de “gado” quem depende de políticas públicas é ignorar que até o pasto em que seu gado imaginário pasta foi irrigado com subsídios, crédito direcionado e infraestrutura estatal — sem isso, o empreendedor que você tanto venera não passaria de um camponês medieval à mercê da próxima colheita frustrada.
Luciana Santos
23/05/2026
Todo ano é essa mesma ladainha: jacaré, mito, comunista… Enquanto isso, o trabalhador acorda 4h da manhã pra pegar condução sucateada e ninguém resolve o básico. Tô cansada de torcida organizada, quero ver quem vai fazer o ônibus chegar no horário e o salário durar até o fim do mês.
Carlos Rocha
23/05/2026
Esses 40% do Datafolha são o atestado de que a esmola estatal compra rebanho com o suor de quem empreende. Enquanto o jacaré vermelho enche o peito, o pequeno empresário segue sendo o pato que banca a gastança sem nunca ver retorno.
Augusto Silva
23/05/2026
Carlos, seu pato está apontando o bico pro lago errado: enquanto você chia contra o Bolsa Família, o rentismo sorve silenciosamente mais de 700 bilhões de reais por ano em juros da dívida pública — dinheiro que não gera um único emprego, não compra um pão na sua padaria e ainda concentra renda nas mãos de quem nunca suou uma camisa. Os 40% do Datafolha que te assombram são justamente os milhões de brasileiros que, com algum dinheiro no bolso, viraram clientes do pequeno empresário — porque consumo de massa é o que move o seu caixa, não discurso de coach de investimento.
Sgt Bruno 🇧🇷
23/05/2026
Essa Ana Paula aí até tenta pagar de conservadora, mas tem cheiro de melancia no ar. O jacaré voltou porque a esquerda caviar e a imprensa lixo deram régua e compasso pra 63 milhões de iludidos esquecerem o petrolão. Selva, Brasil! Tá na hora de mostrar que comunista bom é comunista na lata de lixo.
João Silva
23/05/2026
Na ânsia de expurgar o “inimigo interno”, você performa exatamente o fetichismo que critica: troca a complexidade da luta de classes por um alvo cômodo e personalizado — a “esquerda caviar” — enquanto aplaude a mesma engrenagem que precariza sua própria vida. O “comunista na lata de lixo” é menos um projeto político e mais um sintoma da violência estrutural que você internalizou achando que era liberdade, rastejando na selva que o capitalismo criou para nos devorar.
Ana Paula Conserva
23/05/2026
Esses números só mostram como o povo tem memória curta e esquece rápido os escândalos de corrupção. Lamento ver tantos brasileiros embarcando nessa conversa fiada, enquanto atacam nossos valores cristãos e a família tradicional.
Lucas Pinto
23/05/2026
O espetáculo dos números absolutos vomitados pelo Datafolha serve, antes de qualquer coisa, como um sintoma da política reduzida à estatística de consumo. Transformar 40% de intenções de voto em 63,2 milhões de almas é a operação clássica do fetichismo da mercadoria aplicado ao processo eleitoral: a forma quantitativa oculta as relações sociais concretas que a produziram. O título em si, “O jacaré vermelho volta a atacar”, é uma peça de agitação que dispensa qualquer sofisticação analítica. Ele opera no registro do medo, mobilizando um bestiário político que a direita brasileira cultiva desde os tempos do lacerdismo. Como estudante de filosofia, sou obrigado a lembrar que essa escolha lexical não é ingênua: o “jacaré” desumaniza, animaliza, e o “vermelho” aciona o pânico moral anticomunista que, na periferia do capitalismo, sempre serviu para justificar a violência de classe. A pesquisa não descreve um estado de coisas; ela prescreve um campo de batalha discursiva.
A metodologia do instituto, supostamente asséptica, é um dispositivo foucaultiano de produção de verdade. O recorte amostral, o momento da coleta, a formulação das perguntas – tudo isso constitui o que Foucault chamaria de “regime de veridicção”, um conjunto de regras que separa o enunciado válido do inválido. A projeção espetacular de 63,2 milhões de votos a partir de uma amostra ínfima só se sustenta porque vivemos sob a hegemonia de uma racionalidade instrumental que equipara quantidade a legitimidade. É o biopoder atuando no cerne da democracia representativa: governa-se populações por meio da gestão estatística de seus desejos simulados em surveys. O verdadeiro “ataque” que o título denuncia não é de um sujeito político real, mas a ameaça que a própria existência do levantamento cria – uma profecia autorrealizável que busca coagular o voto útil, desidratar alternativas à esquerda e administrar as expectativas do mercado financeiro, esse deus invisível que pune e recompensa conforme os números das manchetes.
A insistência em nomear Lula como “jacaré vermelho” é a manifestação rasteira da luta por hegemonia que Gramsci descreveu. A classe dominante brasileira, fração burguesa tosca e dependente, nunca conseguiu construir um consenso ativo duradouro; sua dominação oscila entre a coerção explícita e a guerra cultural travada nos meios de comunicação. O uso do apelido pejorativo tenta fixar um sentido: o adversário não é um ex-presidente com um projeto de país, mas uma besta antediluviana que “ataca” – um predador da nação. Essa operação simbólica é essencial para soldar o bloco histórico antipetista, unindo desde o pequeno-burguês moralista até o grande rentista. No entanto, a própria necessidade de recorrer a esse grotesco revela a fragilidade intelectual dessa articulação. Se a social-democracia moderada de Lula precisa ser pintada como um saurius communista para ser combatida, é porque o programa positivo das classes proprietárias é insustentável: mais arrocho, mais privatização, mais devastação ambiental. O jacaré é o bode expiatório necessário para que a crise orgânica não seja nomeada pelo seu nome verdadeiro: capitalismo.
Analiso essa pesquisa, portanto, não como um prognóstico do futuro, mas como uma trincheira no presente. Os 63,2 milhões não existem; o que existe é uma correlação de forças sendo forjada diante dos nossos olhos, onde o consenso é fabricado não pelo debate de ideias, mas pela manipulação tecnocrática dos afetos. O “ataque” que realmente importa não está no título, está na capacidade do sistema de digerir qualquer ameaça transformando-a em cifra administrável. Enquanto a esquerda institucional comemorar percentuais como se fossem conquistas materiais, e a direita uivar contra monstros imaginários, a luta de classes seguirá seu curso implacável, indiferente às manchetes. O verdadeiro perigo para a ordem não está nos 40%: está na possibilidade, ainda que remota, de a multidão desses 158 milhões de eleitores romper a casca dos números e irromper como sujeito político real, para muito além das urnas. Por ora, o jacaré de papel segue atacando apenas nas metáforas do jornalismo de horror.
Carlos Mendes
23/05/2026
Lucas, sua análise é sofisticada, mas troca o balcão da padaria pela cátedra: quem paga a conta do espetáculo é o pequeno empresário que não tem tempo para Foucault, só para os impostos que sobem conforme o humor das pesquisas. Reduzir tudo a discurso é um luxo de quem nunca precisou fazer a folha de pagamento fechar no azul.
Alice T.
23/05/2026
Lucas, tua análise é uma aula de filosofia, mas o problema é que a “multidão de 158 milhões” não tá lendo Foucault nem Gramsci — tá com fome, sem emprego e sendo convencida diariamente pelo zap que o “jacaré” é o culpado. Enquanto a esquerda acadêmica debate o biopoder, a direita segue ganhando eleição com meme e pânico moral.
Ana Karine Xavante
23/05/2026
Esse título, “O jacaré vermelho volta a atacar”, não me engana nem por um segundo. Ele é a personificação mais rasteira do colonialismo midiático, aquele mesmo que há 500 anos pinta os corpos e as cosmovisões que fogem ao domínio branco-europeu como monstros, como ameaças a serem exterminadas. Eu, enquanto mulher indígena em Mato Grosso, conheço bem essa tática discursiva. O “jacaré vermelho” é o espantalho criado para manter o latifúndio, o garimpo e as madeireiras seguros dentro de seus privilégios, enquanto nos acostumamos a demonizar qualquer projeto de justiça social como se fosse uma fera sanguinária. O que esses 40% do Datafolha representam nas urnas não é uma ameaça, é a memória coletiva de um povo que sentiu fome, que perdeu seus protetores ambientais assassinados a mando do agronegócio e que viu a Amazônia e o Cerrado arderem sob uma gestão da morte. Chamar esse suspiro democrático de “ataque” é uma inversão perversa da realidade. O ataque, o verdadeiro ataque, é diário e tem CPF e título de eleitor: é o veneno nos nossos rios, é a bala nos nossos parentes, é o marco temporal que rasga nossa ancestralidade.
Fico pensando em como essa narrativa colonizadora insiste em desumanizar aquilo que ela não consegue compreender ou controlar. Quando falam de “jacaré vermelho”, estão falando de mim, da minha aldeia, dos movimentos de base que resistem ao apagamento sistêmico de nossas culturas. Esses 63 milhões de votos não são um bloco homogêneo a serviço de uma utopia autoritária; são 63 milhões de enredos de vida que passam longe dos apartamentos da Faria Lima. São as mãos calejadas dos extrativistas, as vozes das comunidades quilombolas, a juventude periférica que dança e sonha apesar do genocídio estatal. Reduzir essa constelação de esperanças a um animal peçonhento é um ato de profunda covardia intelectual. É a mesma lógica que chama nossa defesa da terra de “empecilho ao progresso”, como se o progresso fosse esse trem desgovernado que atropela a Mãe Terra e deixa para trás um rastro de minério e sangue.
O recorte do artigo me obriga a refletir sobre o papel da esquerda institucional e a nossa relação crítica com ela. Não sou ingênua de achar que o poder, só por ser de esquerda, deixará de ser poder e se dissolverá magicamente em horizontalidade plena. O Estado brasileiro é fundado sobre os esqueletos dos nossos ancestrais, e essa fundação colonial permanece intacta em muitas estruturas, mesmo em governos progressistas. Porém, entre a distopia do extermínio literal que vivemos nos últimos anos e um espaço de respiro onde possamos reflorestar as políticas públicas socioambientais, há um abismo. O “jacaré vermelho” de Lula não é um jacaré, é uma canoa furada, talvez, mas é uma canoa que ao menos não está ativamente remando para nos afogar. A diferença é crucial: com ele, a FUNAI volta a existir, a demarcação de terras indígenas deixa de ser crime e as ONGs param de ser chamadas de câncer por ministros. Isso não é a revolução que precisamos, mas é o que nos mantém vivas para fazer a revolução amanhã. A luta indígena e ambientalista opera em camadas: a resistência antissistêmica no território e a pressão tática sobre a democracia representativa, sempre com o horizonte de um Bem Viver que não cabe nas urnas.
A insistência em demonizar o campo popular através de metáforas animales cas é sintoma de um projeto de poder que está perdendo a batalha cultural e, por isso, recorre ao pânico. Eles nos chamam de jacaré, de anta, de macaco, porque no fundo têm pavor da nossa teimosia em continuar existindo e nos aliançando. Dói ver o jornalismo se prestando a esse papel de reciclar o terror vermelho com essa estética cafona de matéria sensacionalista, como se o leitor fosse desprovido de análise crítica. O verdadeiro jacaré é o capital, é o garimpo ilegal que suga o mercúrio dos nossos rios, é o congresso que tenta legalizar o roubo das nossas terras. Esses sim têm dentes afiados e atacam todos os dias. O movimento que Lula representa, com todas as suas contradições, é a parte da política que ainda não desistiu de negociar com o povo. Que o “ataque” desses 40% seja só o começo da reconexão de um país que precisa urgentemente se reencontrar com a sua alma originária, com as suas matas de pé e com o mínimo de dignidade.
Dr. Thiago Menezes
23/05/2026
A sua crítica à metáfora do “jacaré vermelho” é certeira, mas o seu texto também constrói um espantalho ao tratar agronegócio e garimpo como um monolito sem mostrar evidências. O Datafolha não é oráculo, e 63 milhões de votos não têm uma só voz.
Evelyn Olavo
23/05/2026
Seu apego ao espantalho é compreensível para quem ainda acha que Datafolha substitui o telescópio da geopolítica. Como ensinava a escola de Viseu, o garimpo e o agronegócio são só dois corpos girando no mesmo inferno astral do capitalismo patriota — quem não vê a conjunção é porque escolheu a miopia.
Bia Carioca
23/05/2026
Você tem razão em apontar o espantalho, Thiago. Mas enquanto nos perdemos em nuances sobre agronegócio e garimpo, as grandes obras de mobilidade — como a ligação Niterói-Rio e as ferrovias — ficam paradas, e o Rodrigo Neves é um dos poucos que as defende com unhas e dentes contra o negacionismo bolsonarista.
Paulo Rocha
23/05/2026
Mais de 60 milhões de trouxas ainda compram esse papo furado. Jacaré vermelho é isso aí: promete picanha e entrega foice e martelo. Quem faz o L que vá morar em Cuba, aqui é Brasil pra brasileiros de verdade.
Cecília Ramos
23/05/2026
Paulo, Jesus alimentou multidões com pão e peixe, não com discurso de ódio contra quem luta por justiça. Picanha na mesa de quem sempre comeu osso não é comunismo, é a mão de Deus agindo através de políticas que amam o próximo como a si mesmo.
Mariana Ambiental
23/05/2026
Você fala em Cuba mas idolatra os EUA, né? O jacaré vermelho ao menos planta agrofloresta, enquanto seus ídolos derrubam a floresta com veneno e grilagem.
Clarice Historiadora
23/05/2026
Paulo, seu comentário é uma colagem mal feita de lugares-comuns que não resistem a uma leitura de ‘O Manual do Reacionário Tupiniquim’ (ed. imaginária, 2018). O Brasil real, aquele onde se elege um presidente sem tutela militar, não vai para Cuba porque você repete slogans de zap — veja, a geopolítica é um pouco mais complexa do que a semântica de ‘foice e martelo’ que você compra pronta. Se ‘brasileiro de verdade’ é quem se informa por panfleto de condomínio, então a sua cidadania é uma selfie com o mito.