O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tem sido a voz mais incisiva dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a imposição de um período de transição longo para a redução da jornada de trabalho prevista na PEC 6×1. Boulos argumenta que o verdadeiro risco não está na adaptação das empresas, mas na janela política que se abriria até a implementação definitiva das novas regras.
Boulos teme que, com um prazo de dois ou três anos de carência, o novo Congresso que emergir das eleições gerais de outubro de 2026 e tomará posse em fevereiro de 2027 tenha tempo e margem para desfigurar completamente a proposta original. O cenário traçado pelo ministro projeta um Parlamento com perfil mais conservador, capaz de reverter os avanços trabalhistas antes mesmo que eles entrem em vigor.
A proposta defendida pelo ministro é clara e ambiciosa: reduzir a jornada semanal das atuais 44 horas para 40 horas já em 2026, concedendo às empresas apenas um curto período de adaptação. Essa posição encontra resistência na Câmara dos Deputados, onde um grupo de parlamentares articula um texto alternativo que prevê o início imediato da escala 5×2, mas com diminuição gradual da carga horária.
Pelo desenho discutido entre os deputados, apenas uma hora seria cortada no próximo ano, deixando as outras três para serem eliminadas de forma escalonada até 2029. O argumento dos parlamentares é que a transição suave protegeria os pequenos empregadores, mas Boulos enxerga nessa proposta um cavalo de Troia contra os direitos dos trabalhadores.
O incômodo com a postura do ministro já transbordou publicamente. Parlamentares que integram a comissão especial da PEC 6×1 classificam a atuação de Boulos como ‘bélica’ e ‘acima do tom’, especialmente quando o tema é o período de transição e a possibilidade de sabotagem legislativa no futuro próximo.
Aliados do ministro rebatem as críticas sustentando que sua insistência extrapola o cálculo eleitoral imediato e mira o legado de longo prazo da reforma trabalhista. A pressão para que a redução da jornada valha ainda em 2026 daria ao governo Lula uma conquista simbólica expressiva, mas também amarraria institucionalmente qualquer tentativa futura de revogação.
O núcleo do temor de Boulos reside na memória recente de reformas que foram aprovadas com cláusulas de transição e depois sofreram mutilações. A avaliação dentro da Secretaria-Geral é que o Congresso opera com uma lógica de ‘aprovar agora, desmontar depois’, e a blindagem mais eficiente contra esse movimento é a vigência imediata e irreversível da nova legislação.
A disputa nos bastidores deve se intensificar nas próximas semanas, à medida que o relator da comissão especial consolida as emendas ao texto. O embate entre a ala governista que quer celeridade e os deputados que pedem gradualismo tende a ser o ponto de maior atrito na tramitação da PEC 6×1.
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