Os ciclones tropicais, atualmente responsáveis por emissão de carbono oceânico, podem mudar seu comportamento e começar a absorver CO2 da atmosfera até meados da próxima década, de acordo com uma nova pesquisa de alcance global. O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, alerta que a aceleração do aquecimento global pode reverter o papel desses fenômenos extremos até por volta de 2035.
Para chegar a essas conclusões, uma equipe internacional utilizou observações de satélites e boias para construir um conjunto diário de fluxo de CO2 entre oceano e atmosfera. Isso permitiu isolar o efeito isolado dos ciclones e observar sua evolução ao longo de quase três décadas.
Os resultados mostram que, em média desde 1993, os ciclones tropicais foram responsáveis por entre 9% e 23% da liberação líquida de carbono nos principais oceanos. Essa contribuição, no entanto, diminuiu mais da metade nos anos 2010, sinalizando uma tendência consistente de declínio.
O mecanismo por trás desse freio está no gradiente vertical de temperatura do oceano. O aquecimento da superfície, mais rápido que o das camadas inferiores, intensifica as esteiras frias deixadas pelos furacões — rastros de água gelada que persistem por semanas e absorvem mais CO2 atmosférico.
Essas esteiras elevam o desequilíbrio químico na interface ar-mar, ampliando o papel do oceano como sumidouro de carbono. É justamente esse efeito que, segundo o estudo, vem reduzindo a contribuição dos ciclones para a emissão de CO2.
Zhanhong Ma, professor da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China e coautor do estudo, ressaltou que a escassez de medições durante e após a passagem de tempestades mantinha o papel dos ciclones no ciclo do carbono como uma incógnita. A nova base de dados supera essa limitação e revela uma tendência clara de redução da liberação de CO2.
Se as emissões humanas continuarem altas, a virada pode ocorrer por volta de 2035, quando os ciclones começariam a capturar mais carbono do que liberam. Essa absorção forçada, alertam os cientistas, agravaria a acidificação oceânica, reduzindo a disponibilidade de carbonato de cálcio para corais e moluscos e encolhendo habitats marinhos.
A boa notícia é que cortes imediatos nas emissões poderiam postergar essa reversão até a década de 2040. Nesse cenário, o fluxo de carbono relacionado a ciclones só retornaria aos níveis atuais no final deste século, ganhando tempo para adaptação dos ecossistemas.
O estudo, divulgado com destaque por Phys.org e liderado por instituições de ponta na China, Alemanha e Estados Unidos, reforça a urgência de ações globais coordenadas. A mensagem é clara: ignorar a ciência do clima pode transformar os próprios mecanismos naturais do planeta em novos vetores de destruição ambiental.
Leia mais sobre o assunto na phys.org.
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