Governo iraniano classificou os ataques americanos como violação do cessar-fogo e prometeu retaliar novas ações militares.
O Irã elevou o tom nesta terça-feira e advertiu que “não deixará nenhum ato de hostilidade sem resposta” após os Estados Unidos lançarem ataques militares contra alvos no sul do país. A ofensiva americana ocorreu na noite desta segunda-feira (25) e pegou de surpresa os diplomatas que trabalham para encerrar um conflito já em seu terceiro mês.
O porta-voz militar americano, capitão Tim Hawkins, descreveu as ações como medidas de “autodefesa” para proteger tropas dos EUA diante de ameaças iranianas. Segundo o comunicado divulgado pelo Exército, os alvos incluíam posições de lançamento de mísseis e embarcações que tentavam instalar minas na região. O Comando Central dos EUA afirmou que busca “manter a moderação durante o cessar-fogo em curso”, mas o ataque contradiz justamente esse discurso.
A guerra entre Estados Unidos e Irã teve início em 28 de fevereiro, quando Washington e Israel lançaram ataques coordenados contra território iraniano. A pressão para que o Irã abandonasse seu programa nuclear vinha se acumulando há meses sob o governo Trump. Um cessar-fogo frágil entrou em vigor em 8 de abril, mas trocas de tiros esporádicas nunca chegaram a cessar completamente.
A nova ofensiva americana levanta questões sérias sobre a real disposição dos EUA em negociar. Afinal, atacar o território de um país com quem se negocia envia um sinal dúbio — e Teerã não deixou isso passar em branco.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã reagiu com dureza. Em nota divulgada nesta terça-feira, o governo iraniano classificou os ataques como uma “violação flagrante” do cessar-fogo vigente. A resposta foi direta: o Irã não pretende tolerar agressões sem retaliação.
Petróleo sobe e mercados reagem
Os mercados sentiram o impacto imediatamente. Na manhã de terça-feira, o preço do petróleo bruto Brent — a referência global — saltou cerca de 3%, chegando a aproximadamente 99 dólares por barril. A alta reflete a preocupação dos investidores com a estabilidade do Estreito de Ormuz, passagem vital pelo qual escoa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo.
O estreito permanece como o principal ponto de discórdia nas negociações. O secretário de Estado Marco Rubio foi categórico ao falar com jornalistas na cidade de Jaipur, na Índia: “O estreito precisa estar aberto. Vai estar aberto de um jeito ou de outro.” A frase soa mais como ultimato do que como convite ao diálogo.
Rubio admitiu que as negociações avançam lentamente, mas garantiu que os EUA continuam comprometidos com uma solução diplomática. Segundo ele, conversas no Catar discutem a estrutura original para o encerramento do conflito. “Há muita conversa de um lado para o outro sobre a linguagem específica do documento inicial, então levará alguns dias”, disse ele antes de embarcar para Nova Delhi.
Enquanto diplomatas tentam costurar um acordo, o presidente Donald Trump seguiu em frente com sua agenda própria. Na segunda-feira, ele afirmou nas redes sociais que o urânio enriquecido do Irã “será imediatamente entregue aos Estados Unidos para ser repatriado e destruído”. O Irã, até o momento, não aceitou esse pré-requisito.
Trump também aproveitou para pressionar aliados regionais. Ele pediu que Arábia Saudita e Catar assinem os chamados Acordos de Abraão — tratados que visam normalizar relações com Israel — como condição para o avanço das negociações com Teerã. Turquia, Paquistão, Egito e Jordânia também aparecem na lista do presidente.
A estratégia de Trump mistura pressão militar, exigências econômicas e reconfiguração geopolítica num único pacote. Para analistas, isso complica ainda mais qualquer saída negociada — já que Teerã dificilmente aceitará condições que beneficiem diretamente Israel enquanto bombas ainda caem em seu território.
Nem dentro do Partido Republicano há consenso sobre o rumo das negociações. Senadores da linha-dura do partido, como Lindsey Graham (Carolina do Sul) e Ted Cruz (Texas), expressaram ceticismo aberto. Graham alertou que um acordo com o Irã neste momento poderia tornar o país “mais poderoso com o tempo” — uma crítica velada à disposição de Trump em negociar.
A tensão interna no campo conservador revela a dimensão do dilema que Washington enfrenta: seguir em frente com um acordo que muitos republicanos consideram prematuro, ou arriscar um novo ciclo de escalada militar com consequências imprevisíveis para toda a região.
Por ora, a guerra continua. Os ataques americanos na noite de segunda-feira mostram que o cessar-fogo é menos uma pausa real do que uma ficção diplomática — conveniente para as mesas de negociação, mas cada vez mais distante do que acontece no chão.