Fundos do Master perderam até 90% e expõem risco ao dinheiro dos aposentados do Rio

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Os investimentos do Rioprevidência em fundos ligados ao Banco Master registraram perdas de até 90% e entraram no centro de uma investigação que já mira a gestão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro.

A informação aprofunda o escândalo porque mostra que o problema não ficou restrito à compra de papéis de um banco em crise. Documentos da Polícia Federal e relatórios do Tribunal de Contas do Estado do Rio apontam que aplicações feitas com recursos previdenciários tiveram desempenho inferior ao da poupança e prejuízos expressivos em fundos administrados ou vinculados ao conglomerado Master.

O dado mais grave é social, não apenas financeiro. O Rioprevidência é a autarquia responsável por gerir a previdência dos servidores públicos do Rio de Janeiro, centralizando contribuições e pagamentos de aposentados e pensionistas. Em outras palavras, os recursos investigados estão ligados ao sistema que sustenta a renda de quem trabalhou para o Estado.

A Polícia Federal apura aportes bilionários feitos pelo fundo fluminense em instrumentos e fundos relacionados ao Banco Master. A Agência Brasil informou que a oitava fase da Operação Compliance Zero mira aplicações irregulares de R$ 3,6 bilhões da previdência dos servidores do Rio em Letras de Crédito e fundos do Master.

A CNN Brasil registrou que Cláudio Castro foi alvo da PF em operação sobre cerca de R$ 3 bilhões aplicados pelo Rioprevidência no banco de Daniel Vorcaro. Ao todo, foram cumpridos 10 mandados nessa fase, em desdobramento da Operação Barco de Papel.

O caso começou a ganhar corpo com aportes de aproximadamente R$ 970 milhões em Letras Financeiras emitidas por banco privado ligado ao Master entre outubro de 2023 e julho de 2024. Depois, segundo as investigações, a exposição cresceu com novas aplicações em fundos de investimento associados ao mesmo grupo.

A gravidade está na combinação entre volume, risco e finalidade do dinheiro. Fundos previdenciários não existem para apostas agressivas. Existem para garantir equilíbrio de longo prazo, proteger pagamentos futuros e preservar o patrimônio de servidores, aposentados e pensionistas.

Segundo a Folha de S.Paulo, novos aportes do Rioprevidência em 2025 ampliaram o prejuízo inicial de R$ 970 milhões para cerca de R$ 3 bilhões. A reportagem também aponta que o rombo em fundos de pensão expostos ao Master chega a R$ 4,5 bilhões.

Esse número coloca o caso em outro patamar. Não se trata de um erro pequeno de gestão financeira. Trata-se de uma exposição bilionária de dinheiro previdenciário a uma instituição que depois seria liquidada pelo Banco Central em meio a uma crise de liquidez e violações regulatórias.

A Reuters informou que a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, provocou o maior pagamento já realizado pelo Fundo Garantidor de Créditos. Mas os títulos adquiridos pelo Rioprevidência não estavam cobertos por essa garantia, o que aumentou a pressão sobre o fundo e sobre o governo estadual.

O Rioprevidência afirma que suas aplicações obedeceram à legislação e às regras de fiscalização. Também sustenta que parte dos valores está sendo recuperada por meio da retenção de receitas de empréstimos consignados que seriam repassadas ao Master, com previsão de quitação em cerca de dois anos.

Mesmo assim, a investigação avançou. A PF apura crimes contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta, desvio de recursos, fraude à fiscalização ou ao investidor, indução de erro a repartição pública, associação criminosa e corrupção passiva, segundo informações divulgadas sobre a operação.

O Tribunal de Contas do Estado do Rio já havia apontado alertas sobre o risco das operações. Segundo a Folha, em outubro de 2025, o TCE-RJ afirmou que o Rioprevidência ignorou alerta e continuou fazendo aportes ligados ao Master. O tribunal chegou a determinar que o fundo não realizasse novos investimentos em instrumentos emitidos, administrados ou geridos pelo conglomerado.

Esse ponto é central para a responsabilidade política. Se havia alerta técnico e, mesmo assim, a exposição aumentou, a pergunta inevitável é quem autorizou, quem recomendou e quem se beneficiou da manutenção dessas aplicações.

A operação também atingiu Cláudio Castro. Segundo a Folha, o STF apontou que um vínculo próximo entre Castro e Daniel Vorcaro teria viabilizado aportes do fundo no Master. O ex-governador foi alvo de busca e apreensão, mas não há condenação, e todos os citados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

O problema político, porém, já está instalado. Quando uma investigação sobre banco liquidado alcança dinheiro de aposentados, gestores públicos, alertas ignorados e perdas de até 90%, o caso deixa de ser apenas uma disputa financeira. Vira crise de Estado.

O Rio de Janeiro conhece bem esse tipo de enredo: fundos públicos, grupos econômicos, decisões opacas e prejuízos que acabam recaindo sobre a população. O caso Master repete essa lógica em escala bilionária.

Para os servidores, o ponto mais sensível é a confiança. Mesmo que o Rioprevidência afirme que os pagamentos estão preservados, a exposição de recursos previdenciários a ativos de alto risco gera insegurança e exige resposta pública transparente.

A pergunta que precisa ser respondida é simples: por que dinheiro destinado a aposentadorias e pensões foi colocado em fundos que chegaram a perder até 90%?

A resposta dependerá da investigação da PF, dos documentos apreendidos, dos relatórios do TCE-RJ e da eventual responsabilização de gestores e agentes políticos. Mas o dano institucional já é evidente.

O caso Master mostra como decisões financeiras tomadas longe do olhar público podem ameaçar recursos fundamentais. Não é apenas o dinheiro de uma aplicação que está em jogo. É a credibilidade de um sistema previdenciário inteiro.

Se a investigação confirmar gestão fraudulenta, desvio ou influência política nos aportes, o escândalo poderá se tornar uma das maiores demonstrações recentes de captura de recursos públicos por interesses privados.

No fim, a perda de até 90% nos fundos ligados ao Master resume o tamanho do desastre. O dinheiro que deveria proteger aposentados foi exposto a uma engrenagem financeira sob suspeita. E agora cabe à Polícia Federal, ao STF, ao TCE e à sociedade descobrir quem abriu essa porta.

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