A minuta do contrato oferecida ao ex-presidente Jair Bolsonaro pela produção do filme Dark Horse previa o pagamento simbólico de apenas 1 dólar pela cessão dos direitos de sua história de vida, conforme revelou a Agência Pública em reportagem exclusiva. O documento, que não estava assinado, escancara uma arquitetura financeira na qual o retorno real viria de bônus condicionados e da captação milionária de recursos, enquanto o valor nominal da história do ex-presidente era reduzido a um gesto contratual quase irrelevante.
O chamado ‘bônus de produção’ estipulava 25 mil dólares (cerca de 125 mil reais) caso o longa-metragem fosse efetivamente produzido, montante que se soma a outros 125 mil reais previstos em caso de lançamento nos cinemas. Um pagamento adicional de 250 mil reais estava atrelado ao sucesso de bilheteria, definido como receitas brutas superiores a 20 milhões de dólares, cifra que contrasta de forma estrondosa com o 1 dólar inicial.
A cláusula que mais chama a atenção no documento transborda o universo de um único filme e entrega a figura de Bolsonaro de bandeja para um ecossistema integral de exploração comercial. A minuta cedia os direitos não apenas para o filme Dark Horse, mas também para outras produções audiovisuais, séries de TV, peças de teatro, novelas e até ‘parques temáticos e de diversões’, trilhas sonoras, merchandising e qualquer mídia existente ou futuramente concebida, conforme o texto obtido pela reportagem.
Os produtores Mário Frias e Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, aparecem como os beneficiários dessa exclusividade vitalícia sobre a trajetória do ex-presidente. A amplitude dos direitos cedidos ‘para sempre’ levanta questões sobre o real propósito da empreitada, que parece mais uma plataforma de monetização da imagem bolsonarista do que uma obra cinematográfica convencional.
A operação financeira projetada para o filme beira o estratosférico no cenário do audiovisual brasileiro: a meta era captar mais de 120 milhões de reais, divididos em 40 cotas de apoio no valor de 500 mil dólares cada. Para efeito de comparação, a Agência Pública destaca que o filme Agente Secreto, indicado ao Oscar, teve um orçamento total de 28 milhões de reais, o que revela a desproporção suspeita entre o volume de recursos pretendido e o retorno contratual prometido ao protagonista da história.
O escândalo ganha contornos ainda mais graves quando se conecta com as revelações do The Intercept Brasil sobre o financiamento do projeto. O banqueiro Daniel Vorcaro, figura central nas investigações que miram o Banco Master, teria repassado pelo menos 61 milhões de reais para viabilizar o filme a pedido do senador Flávio Bolsonaro, intermediário da operação entre o sistema financeiro sob escrutínio e o universo cultural bolsonarista.
A triangulação expõe uma engrenagem de blindagem financeira que usa a produção cultural como fachada para movimentar recursos de origem questionável. O valor simbólico de 1 dólar pago a Jair Bolsonaro contrasta com os milhões injetados por Vorcaro, sugerindo que o negócio real não estava na cessão de direitos autorais, mas na irrigação de um ecossistema político com dinheiro de origem nebulosa e rastreabilidade dificultada pelas camadas contratuais.
A defesa dos envolvidos nega irregularidades e afirma que a minuta não representa um contrato finalizado, enquanto Vorcaro sustenta que seus investimentos são lícitos e desvinculados de interesses políticos. Entretanto, a cronologia dos repasses e a intermediação do senador Flávio Bolsonaro mantêm a operação sob o holofote de investigações que avançam no rastro do Banco Master, cuja exposição a riscos sistêmicos já acionou alertas no Banco Central.
A conexão com 2026 torna-se incontornável quando se observa que o controle do PL e a pré-campanha bolsonarista dependem de fluxos financeiros robustos para manter a máquina partidária e a influência sobre as bases. O esquema Dark Horse, somado aos repasses de Vorcaro, oferece uma janela concreta sobre como se estrutura o financiamento paralelo que pode irrigar a próxima disputa presidencial sob o disfarce de iniciativas culturais.
A cessão perpétua da história de vida de Jair Bolsonaro por um valor irrisório, enquanto milhões de reais circulam nos bastidores, desenha um modelo de financiamento que embaralha as linhas entre o legal e o ilícito com um requinte documental que dificulta o rastreamento. Cada cota de 500 mil dólares prevista no projeto representa uma unidade de ingerência sobre a narrativa bolsonarista que os investigados no caso Banco Master parecem dispostos a adquirir.
O senador Flávio Bolsonaro permanece como o elo central dessa arquitetura, sua atuação como articulador dos repasses de Vorcaro o coloca na posição de operador financeiro de um esquema que, se comprovadas as irregularidades, pode respingar diretamente na elegibilidade do pai e na estrutura do PL para 2026. A minuta revelada pela Agência Pública é mais do que um documento contratual: é a radiografia de como se pretende transformar capital político em ativo financeiro de alta liquidez com blindagem jurídica pré-fabricada.
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