A engrenagem do esquema ‘Dark Horse’ acaba de revelar uma peça ainda mais central do que se imaginava. Não se trata apenas do senador Flávio Bolsonaro negociando milhões com um banqueiro investigado — o filho 03, Eduardo Bolsonaro, atuou diretamente como operador financeiro da operação nos Estados Unidos.
Mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil e repercutidas pela Folha de S.Paulo mostram o ex-deputado orientando um intermediário a ‘enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual’. A instrução não deixa margem para dúvida: Eduardo queria drenar o maior volume de dinheiro possível, o mais rápido possível, para o fundo que bancava o filme ‘Dark Horse’ — e, segundo a Polícia Federal, também bancava sua vida de luxo no Texas.
A mensagem foi encaminhada em março de 2025 por Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso preventivamente em Brasília sob suspeita de fraudes bilionárias. Vorcaro já havia transferido R$ 61 milhões para o fundo Havengate Development Fund LP, controlado pelo corretor Altieris Santana e pelo advogado Paulo Calixto — este último, responsável pelo processo imigratório do próprio Eduardo.
A orientação técnica de Eduardo revela conhecimento preciso da operação: ele alertou que o fracionamento de remessas ‘atrasaria a produção do filme em seis meses’. Não estamos falando de um apoiador distante ou de um filho que apenas dava sugestões — estamos diante de um operador que dominava os mecanismos financeiros e pressionava para maximizar os repasses.
O contrato assinado em janeiro de 2024 já oficializava essa posição: Eduardo era produtor-executivo do filme, cargo que lhe conferia controle sobre orçamento e gestão financeira. Ele admitiu a assinatura, mas alegou que ‘os planos mudaram depois’ — uma justificativa que soa como deboche diante da mensagem de março de 2025, quando ele segue orquestrando transferências.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, negociou diretamente com Vorcaro o repasse total de R$ 134 milhões para o ‘Dark Horse’. A investigação da Polícia Federal aponta uma engrenagem que conecta os dois irmãos: Flávio negociava no Brasil, Eduardo operava a ponte para drenar o dinheiro até o Texas, e o fundo Havengate recebia os recursos que podem ter custeado desde a produção do filme até o aluguel da mansão do filho 03.
O Intercept localizou a residência de Eduardo em Southlake, no Texas: uma mansão avaliada em cerca de R$ 6 milhões, com aluguel mensal de aproximadamente R$ 30 mil. Ao ser confrontado pelo repórter, Eduardo acionou a polícia local e tentou posar de vítima de invasão de privacidade — a velha tática bolsonarista de se vitimizar quando encurralado pelos fatos.
Em Washington, sua resposta ao escândalo foi a frase padrão: ‘não recebo dinheiro público’. A declaração é um desvio grosseiro: ninguém está acusando Eduardo de receber dinheiro público, mas sim de participar de um esquema de fraudes bilionárias que pode ter irrigado sua vida no exterior. A tentativa de embaralhar as cartas não cola mais.
O impacto político é imediato e devastador. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro já sangrava desde que os áudios com Vorcaro vieram à tona — e agora a revelação coloca o irmão no centro da engrenagem financeira. A imagem do clã Bolsonaro se desfaz em camadas de escândalo, dificultando qualquer estratégia de reposicionamento para 2026. O filho 03 não apenas sabia de tudo: ele movia as peças do tabuleiro financeiro.
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