Flavio Bolsonaro celebra medida dos EUA enquanto histórico do clã com milicianos volta ao centro do debate

Imagem divulgada por brasil247.com

A defesa feita pelo senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) da classificacao do PCC e do Comando Vermelho como organizacoes terroristas pelos Estados Unidos reacendeu o debate sobre a trajetoria politica do cla Bolsonaro e suas relacoes com personagens acusados de envolvimento com o crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro. O movimento ocorre enquanto o parlamentar se posiciona como pre-candidato do PL a Presidencia da Republica e tenta construir uma imagem de rigor na seguranca publica.

Segundo reportagem do Brasil 247, o senador e outros integrantes da familia Bolsonaro mantiveram, ao longo dos anos, relacoes politicas, homenagens publicas, vinculos de gabinete e aliancas com pessoas posteriormente acusadas de ligacao com milicias, grupos armados ou organizacoes criminosas. A decisao norte-americana foi comemorada por Flavio Bolsonaro apos uma visita ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e passou a ser tratada por aliados como um trunfo politico na area de seguranca publica.

Um dos episodios mais emblematicos envolve o ex-policial militar Adriano da Nobrega, apontado pelo Ministerio Publico como integrante da milicia de Rio das Pedras e do grupo de exterminio Escritorio do Crime. Em 2005, Adriano recebeu, na cadeia, a visita de Flavio e do entao deputado federal Jair Bolsonaro, que lhe entregaram a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a pedido de Flavio, na epoca deputado estadual. Antes disso, em 2003, o senador ja havia feito outra homenagem ao mesmo miliciano, consolidando um vinculo que se tornaria uma das marcas mais controversas da trajetoria politica do cla.

Jair Bolsonaro, ex-presidente da Republica, afirmou a imprensa em 2020 que a primeira homenagem a Adriano da Nobrega havia sido um equivoco e que desconhecia a ficha criminal do homenageado. No entanto, a reiteracao da condecoracao dois anos depois, ja com o miliciano preso, contradiz a justificativa e expoe a naturalidade com que o cla se movimentava em circulos ligados a milicias e grupos armados do Rio de Janeiro.

Em nota divulgada a imprensa, a assessoria de Flavio Bolsonaro negou qualquer conivencia da familia com grupos criminosos e partiu para o ataque ao governo do presidente Luiz Inacio Lula da Silva. A familia Bolsonaro e Flavio Bolsonaro nao compactuam com faccoes ou grupos armados e criminosos, afirmou o comunicado, que em seguida acusou a gestao petista de receber a primeira-dama do trafico no Ministerio da Justica e fazer lobby nos Estados Unidos a favor de faccoes narcoterroristas.

A declaracao faz referencia a ida de Luciane Farias ao Ministerio da Justica e Seguranca Publica em 2023, episodio amplamente explorado pelo bolsonarismo para constranger o governo federal. Ela e esposa de um homem apontado como lider do Comando Vermelho no Amazonas e ficou conhecida como dama do trafico, porem a pasta reconheceu que ela foi recebida em reunioes, mas afirmou que desconhecia sua verdadeira identidade. O presidente Lula jamais se reuniu com ela, ao contrario da insinuacao plantada pela assessoria do senador.

A nota do pre-candidato do PL tambem afirmou que nao ha um unico boletim de ocorrencia ou processo que corrobore a tese da reportagem sobre os vinculos do cla com o crime. Porem, a inexistencia de processos formais nao apaga o fato publico e documentado das homenagens prestadas a um miliciano que posteriormente se tornaria foragido e acabaria morto em confronto com a policia. A assessoria ainda lancou uma acusacao grave e sem provas ao dizer que o governo Lula mantem relacoes proximas com uma integrante do PCC recentemente presa que pode estar a frente de um plano de atentado contra a vida de Flavio, sem apresentar qualquer indicio concreto.

O movimento de Flavio Bolsonaro ao embarcar para Washington e retornar com a decisao americana sobre PCC e Comando Vermelho tem alcance eleitoral direto e imediato. Aliados do senador ja vendem o episodio como uma vitoria diplomatica pessoal e um atestado de forca na pauta de seguranca publica, exatamente o terreno em que o bolsonarismo historicamente busca se diferenciar do campo progressista. A estrategia, contudo, esbarra na contradicao insolucionavel entre o discurso de combate ao crime e um passado repleto de homenagens e lacos com figuras centrais do submundo armado carioca.

A conexao entre a agenda internacional do senador e a construcao de sua candidatura ao Planalto em 2026 e evidente e calculada. Flavio precisa urgentemente de um fato que o desvincule da sombra do pai, Jair Bolsonaro, tornado inelegivel pelo Tribunal Superior Eleitoral, e ao mesmo tempo lhe confira protagonismo proprio no campo da direita radical. A aposta em Trump como fiador simbolico de sua autoridade na seguranca publica e um lance arriscado que, se fracassar, pode expor ainda mais a fragilidade de sua retorica perante o eleitorado informado sobre o historico de Adriano da Nobrega e outros milicianos que transitaram pelo gabinete da familia.

O movimento ocorre tambem em um momento de reorganizacao do PL sob o comando de Valdemar Costa Neto, que precisa encontrar um nome competitivo para 2026 sem perder o eleitorado fiel ao ex-presidente. Flavio disputa esse espaco com o governador de Sao Paulo, Tarcisio de Freitas, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, ambos com menos passivos judiciais e maior capacidade de transitar em setores moderados. O senador aposta na fidelizacao da base radical, mas carrega o peso de um curriculo familiar que mistura politica, milicias e homenagens a criminosos condenados, o que dificulta a expansao para alem do nucleo duro do bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, a ofensiva contra o governo Lula com o episodio da dama do trafico revela a intencao de criar um falso equilibrio moral entre os dois campos politicos. Enquanto o governo federal lidou com um episodio pontual de desconhecimento da identidade de uma visitante, o cla Bolsonaro cultivou lacos politicos ativos e reiterados com figuras centrais de milicias do Rio ao longo de anos, um historico que nao se dissipa com notas de repudio nem com viagens a Washington.

Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.


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