Mamadou Aliou, de 38 anos, trabalha no setor de saúde e segurança ambiental de uma mineradora de bauxita no noroeste da Guiné, mas também é um ativista que denuncia os impactos da mineração em sua aldeia, Bembou Silaty. Conforme revelou uma reportagem da Al Jazeera, a Guiné multiplicou por dez sua produção de bauxita nas últimas três décadas, mas os moradores das áreas de extração estão pior do que antes.
“Antes da chegada das empresas, a terra nos sustentava; agora, quando o terreno é registrado para mineração, não sobra nada”, resumiu Aliou. A fome global por bauxita, minério essencial para a produção de alumínio usado em carros, aviões, turbinas eólicas e painéis solares, tornou a Guiné um território estratégico, mas a riqueza não chega às comunidades.
A aldeia de Bembou Silaty, na prefeitura de Telimele, não tem eletricidade e a agricultura é feita sem qualquer mecanização. A menos de dois quilômetros, entretanto, o cenário verdejante dá lugar à zona barulhenta da mineradora indiana, onde escavadeiras e caminhões carregados de bauxita transitam dia e noite.
Cada hectare reivindicado pela mineração é um hectare perdido para a lavoura, em um país que gastou mais de US$ 500 milhões importando arroz em 2024. As indenizações, que podem chegar a 100 milhões de francos guineenses (cerca de US$ 11,4 mil), são pagas de uma só vez e costumam ser mal administradas, esgotando-se em poucos meses.
“Sem terra e sem dinheiro, as famílias precisam recomeçar do zero”, lamentou Aliou. Fatoumata Binta Bah, uma vizinha de 20 anos, cuja família cultivava caju, recebeu menos de 50 milhões de francos guineenses, mas o dinheiro acabou e a nova casa de cimento ficou inacabada.
O problema mais grave, porém, é a água. Na aldeia vizinha de Koussadji Dow, os moradores dependem da água do rio, que se tornou barrenta e contaminada desde o início das operações de mineração.
“As crianças adoecem, e os pais também”, afirmou a agricultora Mariama Kindi Diallo. “Não há estradas, não há escola, não há sinal de telefone; estamos pedindo ajuda para ter uma vida digna”, desabafou.
Aproximadamente 75% da bauxita exportada pela Guiné na última década foi para a China, que produz 60% do alumínio mundial. Empresas da Rússia, dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes Unidos também se instalaram no país para garantir o minério.
O governo do presidente Mamady Doumbouya, que assumiu o poder após um golpe em 2021 e venceu as eleições de dezembro de 2025 com 87% dos votos, tenta reorganizar o setor mineral. A principal exigência é que as empresas processem a bauxita dentro do país, o que multiplicaria o valor do minério em até 37 vezes.
Para isso, no entanto, seria necessário um enorme aumento na geração de energia elétrica, recurso inexistente em aldeias como Bembou Silaty e instável até na capital, Conacri. A Guiné trabalha com o Senegal em um plano de usar gás senegalês para gerar eletricidade suficiente para processar a bauxita em solo africano, mas o projeto ainda está no papel.
Do outro lado da cadeia, a cidade espanhola de Parets del Vallès, perto de Barcelona, representa o destino final da bauxita guineense: mais de 90% das importações espanholas do minério vêm da Guiné. Ali, a indústria do alumínio abastece a construção civil e o setor automotivo, com toda a infraestrutura de água quente, luz e estradas pavimentadas que falta no ponto de origem.
A população guineense na Espanha quadruplicou desde 2000, e cada vez mais barcos partem diretamente da Guiné para as Ilhas Canárias. Alpha, um condutor de trens que trabalha para uma empresa apoiada pelos Estados Unidos, revelou a escala da exportação: “operamos seis trens de 150 vagões por dia, com meta de 17,5 milhões de toneladas em 2025”.
Enquanto isso, em Bembou Silaty, a eletricidade continua sendo um sonho distante e a água limpa, um luxo. “Se você comparar a bauxita que exportamos com o que recebemos em troca, a diferença é enorme”, lamentou Aliou. “Ganhamos quase nada, só o suficiente para sobreviver.”
Com informações de Al Jazeera.
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