Polícia chega à produtora de Dark Horse e crise do filme sobre Bolsonaro entra em nova fase

Lula Marques/Agência Brasil

A crise envolvendo Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, ultrapassou o escândalo financeiro com Daniel Vorcaro e agora chegou ao centro de uma investigação policial em São Paulo.

A Polícia Civil deflagrou uma operação para apurar suspeitas de fraude e desvio de recursos públicos em contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e uma ONG ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme.

O avanço da investigação é significativo porque a Go Up já vinha sendo citada em diferentes frentes do caso Dark Horse. Agora, pela primeira vez, uma operação policial atinge diretamente o entorno empresarial ligado à produção do longa-metragem.

Segundo informações divulgadas pelo Estado de S. Paulo e repercutidas pelo Brasil 247, a apuração busca esclarecer possíveis irregularidades em contratos e aditivos assinados entre a administração municipal e uma entidade ligada societariamente à produtora do filme. A suspeita é de que recursos públicos tenham sido desviados no âmbito desses acordos.

O caso gira em torno do Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina Ferreira da Gama. A entidade firmou um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação e manutenção de pontos de Wi-Fi em comunidades da capital paulista. A Polícia Civil investiga suspeitas de fraude, irregularidades na execução contratual e possível desvio de verbas públicas.

A situação já havia se agravado nos últimos dias.

Na semana passada, a Polícia Civil pediu à Justiça acesso a movimentações financeiras sigilosas de Karina Ferreira da Gama e do Instituto Conhecer Brasil. O delegado responsável também solicitou relatórios do Coaf para rastrear a movimentação de recursos ligados à entidade.

O avanço da investigação ocorre em paralelo à explosão do caso Vorcaro, que transformou Dark Horse em um dos maiores problemas políticos do bolsonarismo antes mesmo da campanha presidencial de 2026 começar.

O filme está no centro das revelações sobre negociações milionárias entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Reportagens publicadas nas últimas semanas apontaram que produtores do longa buscaram recursos junto ao banqueiro para financiar a obra.

A Reuters informou anteriormente que Flávio admitiu ter tratado do financiamento do projeto com Vorcaro, mas nega qualquer irregularidade ou contrapartida política. A produtora também afirma não ter recebido recursos do banqueiro. Mesmo assim, o caso passou a ser investigado por diferentes órgãos e provocou forte desgaste político.

Agora, a investigação paulista adiciona uma nova camada ao escândalo.

A Agência Pública revelou recentemente que a gestão Ricardo Nunes ampliou em R$ 49 milhões contratos da ONG ligada à produtora de Dark Horse, elevando o total para cerca de R$ 157 milhões. A reportagem apontou que o Ministério Público já analisava possíveis irregularidades envolvendo os acordos.

Outras reportagens também mostraram que a Prefeitura manteve pagamentos à entidade mesmo após registros de problemas operacionais e questionamentos sobre a execução do serviço contratado.

O caso se torna ainda mais sensível porque Karina Ferreira da Gama aparece como figura central em diferentes estruturas ligadas ao filme. Além de comandar a Go Up Entertainment, ela está associada às entidades que agora passaram a ser alvo das investigações financeiras.

É importante destacar que a operação não significa condenação. Karina Ferreira da Gama, a Go Up Entertainment, os responsáveis pela ONG e todos os demais citados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

Mas o impacto político já é evidente.

O projeto que nasceu para construir uma narrativa heroica sobre Jair Bolsonaro agora acumula investigações sobre financiamento, pedidos de quebra de sigilo, rastreamento de recursos, questionamentos sobre contratos públicos e operações policiais.

Nos últimos dias, o caso já havia avançado para fundos sediados no Texas, negociações com empresários, mensagens envolvendo Daniel Vorcaro e suspeitas sobre o fluxo internacional de recursos relacionados ao filme.

Agora, a chegada da Polícia Civil à estrutura empresarial ligada à produção amplia ainda mais a pressão.

O que antes parecia apenas uma cinebiografia virou uma crise política, financeira e policial que alcança empresários, políticos, contratos públicos e estruturas de financiamento ligadas ao entorno bolsonarista.

A pergunta que passa a dominar o caso é cada vez mais ampla: quanto mais os investigadores seguem o caminho do dinheiro, mais personagens surgem ao redor de Dark Horse.

E, neste momento, o filme que deveria fortalecer a imagem de Bolsonaro parece estar produzindo exatamente o efeito contrário.

Redação:
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