Contrato de R$ 108 milhões da Dark Horse foi assinado por secretário indicado por Ciro Nogueira

REPRODUÇÃO

Contrato de R$ 108 milhões ligado a Dark Horse foi assinado por secretário indicado por Ciro Nogueira e amplia pressão sobre rede investigada

As investigações sobre o filme Dark Horse ganharam um novo componente político após a revelação de que o contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade ligada à produtora do longa sobre Jair Bolsonaro, foi assinado durante a gestão de um secretário indicado pelo grupo político de Ciro Nogueira.

Segundo informações publicadas pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, o acordo foi celebrado quando a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia era comandada por Bruno Lima, atualmente deputado federal pelo Podemos. Na época, ele integrava o PP e sua nomeação para a gestão do prefeito Ricardo Nunes teria sido resultado de uma articulação política envolvendo Ciro Nogueira para garantir apoio partidário à administração municipal.

A revelação ocorre apenas um dia após a Polícia Civil realizar uma operação que atingiu a própria secretaria, a residência de Karina Ferreira da Gama — responsável pelo Instituto Conhecer Brasil — e empresas associadas à estrutura empresarial ligada ao filme. Os investigadores apuram suspeitas de que recursos públicos destinados ao projeto de Wi-Fi gratuito da prefeitura possam ter sido desviados para outras finalidades, incluindo atividades relacionadas à produção de Dark Horse.

O contrato sob investigação previa a expansão de pontos de internet gratuita em regiões da capital paulista. O valor de R$ 108 milhões transformou o acordo em uma das maiores parcerias firmadas pela pasta naquele período. Agora, promotores e policiais buscam identificar se houve irregularidades na execução do projeto e no destino final dos recursos.

O caso ganhou dimensão nacional porque o Instituto Conhecer Brasil está diretamente ligado a Karina Ferreira da Gama, empresária que aparece no centro da estrutura responsável pela produção de Dark Horse. O filme já vinha enfrentando questionamentos após a divulgação de mensagens que apontam negociações entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro para obtenção de recursos destinados ao projeto.

Nos últimos meses, a rede de entidades associadas à produtora também passou a ser alvo de reportagens sobre recebimento de verbas públicas. Levantamento da Folha de S.Paulo mostrou que empresas e organizações ligadas ao mesmo grupo receberam ou foram indicadas para receber cerca de R$ 700 mil em emendas parlamentares estaduais entre 2023 e 2026, além de recursos federais destinados a projetos culturais e educacionais.

A nova informação aumenta a pressão sobre Ciro Nogueira, que já enfrenta investigações em outra frente relacionada ao escândalo do Banco Master. Nas últimas semanas, vieram à tona suspeitas envolvendo viagens internacionais, benefícios financeiros e relações com Daniel Vorcaro, ampliando o desgaste político do presidente nacional do PP.

Bruno Lima nega qualquer envolvimento irregular. Em declaração à Folha, o deputado afirmou que não conhece Karina Ferreira da Gama e declarou que os procedimentos relativos ao contrato foram conduzidos pelas áreas técnicas e jurídicas da secretaria. Segundo ele, a operação causou estranheza porque a pasta não teria qualquer relação com a produção do filme.

O parlamentar também afirmou que apoia a apuração dos fatos e disse confiar na neutralidade das investigações. Ainda assim, o episódio coloca sob escrutínio uma contratação milionária realizada durante sua gestão e em um contexto de forte articulação política entre a prefeitura paulistana e lideranças do PP.

O avanço das investigações marca uma nova etapa no caso Dark Horse. O que começou como uma controvérsia sobre o financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro passou a envolver contratos públicos, emendas parlamentares, pedidos de quebra de sigilo, operações policiais e suspeitas de desvio de recursos.

Até o momento, não há conclusão das autoridades sobre a existência de irregularidades, e todos os envolvidos negam participação em qualquer esquema ilícito. A investigação segue em andamento.

Mas a sucessão de revelações amplia uma pergunta que passou a dominar o caso: até que ponto a estrutura financeira construída em torno de Dark Horse se conectava a recursos públicos, articulações políticas e interesses que vão muito além da produção de um filme?

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