Arqueólogos que escavavam o Mosteiro Real de Santa Maria de Pedralbes, em Barcelona, identificaram os restos mortais da rainha Elisenda de Montcada, figura central do Reino de Aragão no século XIV. A descoberta, que incluiu a abertura de outros sete túmulos, trouxe à tona uma série de revelações surpreendentes sobre práticas funerárias medievais.
A rainha, que fundou o mosteiro em 1327 e ali viveu como viúva devota até sua morte em 1364, foi encontrada sepultada em uma caixa de madeira com vestes austeras, típicas de uma freira. Fragmentos de seda com fios de ouro também foram recuperados, sugerindo seu elevado status.
O túmulo de Elisenda sempre intrigou especialistas por ter duas faces distintas: uma voltada para a igreja, mostrando-a como soberana, e outra para o claustro, como penitente humilde. Agora, a arqueologia desmentiu a antiga teoria de que o sarcófago atravessava a parede; trata-se, na verdade, de duas peças separadas por uma pequena mureta.
Em um ensaio de 2012, a historiadora da arte Eileen McKiernan González argumentou que Elisenda posicionou deliberadamente os dois lados do túmulo para atingir públicos distintos. A efígie pública da rainha contrastava com a escultura da viúva penitente, visível apenas para as freiras, criando assim uma persona régia e outra privada para suas irmãs espirituais.
A diretora do mosteiro, Anna Castellano-Tresserra, destacou que, apesar de não ter filhos, a rainha manteve influência política e religiosa após a viuvez, editando ordenanças para a comunidade das Clarissas. Sua vontade de ser lembrada duplamente — como rainha poderosa e como irmã espiritual — foi arquitetada com precisão.
A análise osteológica revelou que Elisenda media cerca de 1,60 metro, altura considerável para sua época, e sofria de múltiplas doenças ósseas que provavelmente lhe causavam dores constantes. Amostras de DNA foram extraídas de seus restos, e os pesquisadores esperam obter mais informações sobre sua linhagem e condições de vida.
As escavações, lideradas pelo diretor do projeto Josep Maria Vila, incluíram ainda a abertura de sete outros sepulcros. Dentro deles, foram identificados ao todo 24 indivíduos, uma mistura de freiras clarissas e nobres catalãs.
O que mais surpreendeu a equipe foi a troca de corpos em vários túmulos. O sarcófago atribuído ao cavaleiro Artau de Foces, por exemplo, continha os esqueletos de três bebês e duas mulheres jovens, e não os restos do nobre.
No túmulo da abadessa Francesca Saportella, sobrinha da rainha, os arqueólogos encontraram nove conjuntos de ossos depositados em diferentes épocas. Quatro eram de homens com ferimentos de arma branca no crânio, compatíveis com os conflitos da Guerra Peninsular do início do século XIX; havia também uma mulher que morreu por volta da metade da gestação.
Já na sepultura da primeira abadessa, Sobirana d’Olzet, a ossada era compatível com o que se conhece de sua vida, mas apresentava uma lesão traumática no rosto ocorrida próximo ou no momento da morte. Os estudiosos agora analisam os restos para determinar a natureza exata da agressão.
Segundo reportagem da revista Smithsonian Magazine, o projeto representa uma oportunidade inédita para estudar as características físicas dessas pessoas e os gestos funerários em comunidades monásticas. O relatório completo das análises genéticas e das causas de morte deve ser divulgado apenas em 2027.
O Instituto de Cultura de Barcelona ressaltou que o desafio agora é transformar essas descobertas em uma interpretação histórica abrangente. Compreender quem foram esses indivíduos, como viveram e como foram lembrados permitirá lançar nova luz sobre a sociedade medieval catalã.
Com informações de https://www.nature.com/.