Após mais de duas décadas de investigação, astrônomos identificaram a origem de misteriosos sinais de rádio vindos do espaço. A descoberta, liderada pelo estudante de pós-graduação Kovi Rose, da Universidade de Sydney, foi publicada em 1º de junho na revista Nature Astronomy.
O sistema binário, catalogado como ASKAP J1745-5051, é composto por uma anã branca e uma anã vermelha com massa equivalente a um décimo da massa solar. O fenômeno intrigava a comunidade científica desde 2005, quando os chamados transientes de rádio de longo período foram detectados pela primeira vez. Diferentemente dos pulsos de rádio comuns, que duram segundos ou menos, esses transientes emitem rajadas que podem se estender por vários minutos ou até mais de uma hora.
Conforme reportagem do portal Olhar Digital, a anã branca, núcleo remanescente de uma estrela semelhante ao Sol, retira continuamente matéria da anã vermelha companheira, comportamento típico de sistemas binários simbióticos. Esse acúmulo de material pode, eventualmente, provocar explosões de nova na superfície da anã branca.
Para decifrar o mistério, os pesquisadores utilizaram o radiotelescópio Australian SKA Pathfinder (ASKAP). O equipamento permitiu analisar as emissões em rádio e raios X. Rose destacou que os sinais de rádio e de raios X não atingem o pico ao mesmo tempo, indicando que são produzidos em regiões distintas do sistema. A órbita das duas estrelas é extremamente rápida, completando uma volta em apenas 1,4 hora, e possui formato bastante elíptico.
Nesse ambiente, os campos magnéticos das estrelas entram em choque, arrancando partículas carregadas das superfícies estelares e gerando ondas de rádio por radiação síncrotron. O sistema ASKAP J1745-5051 também se destaca por produzir rajadas de raios X, característica rara entre os transientes conhecidos. Apenas outro objeto similar foi identificado com essa mesma emissão, o que torna a descoberta ainda mais relevante para a astrofísica.
Embora a explicação seja satisfatória para este sistema específico, os cientistas alertam que ela não se aplica necessariamente a todos os transientes de rádio de longo período. Rose acredita que o estudo pode servir como uma espécie de ‘Pedra de Roseta estelar’ para distinguir entre diferentes tipos de emissores. A pesquisa representa um avanço significativo na compreensão desses fenômenos cósmicos, que permaneceram sem explicação por duas décadas.
Os resultados abrem caminho para que futuras observações possam classificar outros transientes de forma mais precisa. O catálogo de transientes de rádio de longo período ainda é pequeno, com cerca de uma dúzia de objetos conhecidos. A identificação de uma anã branca como fonte emissora pode indicar que muitos desses sistemas passaram despercebidos em levantamentos anteriores.
A pesquisa foi conduzida com o apoio do radiotelescópio ASKAP, localizado no Observatório de Radioastronomia de Murchison, no oeste da Austrália. O instrumento é um dos precursores do futuro Square Kilometre Array (SKA), que promete revolucionar a radioastronomia na próxima década.