Pesquisadores do Centro de Pesquisa de Primatas Wolfgang Köhler, sediado no Zoológico de Leipzig, na Alemanha, construíram o mais abrangente banco de dados já reunido sobre a cognição de grandes primatas, compilando 18 anos de experimentos com chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. O projeto, batizado de EVApeCognition, agrega 262 conjuntos de dados extraídos de 150 publicações científicas realizadas entre 2004 e 2021, envolvendo 81 animais que participaram de múltiplos estudos ao longo da vida.
O banco de dados permite aos cientistas cruzar informações que antes ficavam isoladas em estudos pontuais. Revela padrões de cooperação, generosidade e curiosidade social que dificilmente apareceriam em experimentos de curta duração. Se um bonobo demonstrou notável generosidade com um parceiro em 2008, por exemplo, agora é possível investigar se aquele comportamento estava ligado à sua personalidade estável, ao histórico da relação com o outro animal ou a fatores conjunturais do grupo.
Entre as descobertas mais marcantes está a constatação de que chimpanzés do zoológico utilizaram telas sensíveis ao toque para navegar por florestas virtuais e localizar recompensas de alimento, aplicando técnicas similares às que empregariam na natureza. Outro experimento, descrito em reportagem do phys.org, demonstrou que os chimpanzés buscam ativamente informações sobre as interações sociais de outros membros do grupo, mesmo quando isso significa abrir mão de recompensas alimentares imediatas.
A pesquisa mais recente, liderada por Kirsten Sutherland do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, rompeu com o formato tradicional de estudos em pares. Analisou quartetos de grandes primatas compartilhando uma fonte de iogurte. Os resultados mostraram que os quartetos mantiveram o acesso ao alimento por períodos significativamente mais longos do que as duplas. A cooperação mais duradoura ocorreu quando o indivíduo de hierarquia mais alta exercia moderação, evidenciando a importância de uma liderança tolerante.
O banco de dados também expôs um desequilíbrio que percorre a pesquisa com primatas em cativeiro. Os chimpanzés dominam amplamente os registros, enquanto bonobos, gorilas e orangotangos permanecem sub-representados. Os bonobos, que diferentemente dos chimpanzés cooperam na natureza para além dos limites territoriais do grupo, seriam candidatos especialmente interessantes para a transição rumo a estudos com grupos maiores e condições mais próximas do ambiente selvagem.
O projeto global ManyPrimates, estabelecido em 2017, produziu o panorama mais completo sobre a memória de curto prazo dos primatas. Demonstrou que a linhagem genética teve um papel mais relevante do que a ecologia ou a sociabilidade na evolução dessa capacidade. Em paralelo, um estudo de 2025 revelou que os chimpanzés atualizam suas crenças avaliando todas as fontes de informação disponíveis antes de fazer uma escolha. Mantêm-se fiéis a uma convicção inicial quando as evidências contrárias são frágeis, mas revisam-na quando as provas se fortalecem — um padrão que durante muito tempo se acreditou ser exclusivamente humano.
Pesquisas lideradas por Sofie Forss, da Universidade de Zurique, identificaram um efeito cativeiro sistemático. Apresentaram os mesmos estímulos novos a orangotangos selvagens e a indivíduos mantidos em zoológicos. Os animais selvagens responderam com muito mais cautela à novidade do que seus equivalentes em cativeiro, ajudando a preencher a lacuna entre os dois contextos de pesquisa. O esforço combinado dessas iniciativas aponta para uma compreensão da cognição dos grandes primatas que é simultaneamente mais ampla em escopo, mais rica em contexto e mais fiel à complexidade de suas vidas sociais.
Os pesquisadores enfatizam que o desempenho experimental não ocorre em um vácuo social. A disposição de um grande primata para cooperar em uma tarefa pode refletir não apenas sua inteligência, mas também se ele catou o parceiro naquela manhã ou se seu status dentro do grupo havia mudado. A tendência atual é mover os estudos para ambientes de grupo que apresentem problemas mais próximos dos desafios sociais enfrentados diariamente na natureza, oferecendo uma janela ecologicamente mais relevante para a cognição desses animais extraordinários.