Extrair DNA de conchas com até 1.500 anos de idade permitiu a cientistas vislumbrar uma chance real de salvação para o abalone-negro, um molusco criticamente ameaçado que já cobriu as rochas da costa da Califórnia aos milhões. O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, sequenciou genomas completos de 59 conchas de Haliotis cracherodii, incluindo um exemplar oriundo de um antigo sítio indígena de descarte de conchas.
Liderada por Brock Wooldridge, ex-bolsista de pós-doutorado no Instituto de Genômica da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, a pesquisa adaptou técnicas originalmente desenvolvidas para extrair DNA de ossos fósseis. Segundo reportagem do portal phys.org, os pesquisadores não detectaram os sinais clássicos de erosão genética que se esperava encontrar.
A diversidade genética, os níveis de endogamia e a estrutura populacional mostraram-se praticamente idênticos entre as amostras anteriores e posteriores à epidemia que, a partir de 1985, eliminou cerca de 99% dos indivíduos. Simulações de computador confirmaram essa estabilidade genética no curto período desde o colapso — apenas dez gerações dos moluscos.
No entanto, os modelos também alertaram: se os pequenos grupos remanescentes não se recuperarem de forma sustentada, o desgaste genômico poderá surgir nas próximas gerações. Os dados revelaram ainda um achado encorajador nos genes ligados à defesa imunológica, que exibem marcas de seleção natural recente. Isso sugere que os abalones sobreviventes já estão, gradualmente, desenvolvendo resistência à própria bactéria que quase os extinguiu.
Isso é extremamente encorajador para a conservação dessa espécie. Saber que a erosão genômica não é uma conclusão inevitável muda a conversa, afirmou Wooldridge. O pesquisador acrescentou que, se manejada corretamente, a espécie tem uma chance significativa de evitar os problemas genéticos que afligem outros animais ameaçados.
A descoberta chega em um momento-chave: agências estaduais e federais dos EUA já começam a translocar abalones-negros entre diferentes pontos da costa para tentar reconstruir as populações. Como os indivíduos atuais carregam praticamente toda a variação genética dos seus ancestrais, os gestores podem movê-los com confiança, sem risco de diluir adaptações locais importantes.
A única exceção apontada pelo estudo está no entorno de Point Conception, um promontório perto de Santa Bárbara que funciona como uma fronteira biogeográfica marinha. Ali, duas inversões cromossômicas tornaram-se mais comuns após o gargalo populacional e diferem de cada lado do cabo, indicando que essas variantes podem estar ajudando os abalones a lidar com condições locais específicas — e por isso os cientistas recomendam não transportar animais através dessa barreira.
A equipe trabalhou em um laboratório limpo dedicado, moendo pequenos fragmentos de concha até um pó fino e usando protocolos especializados para recuperar o DNA danificado e fragmentado preso no carbonato de cálcio. As conchas vieram de coleções de museus, sítios arqueológicos e doações da Banda Tribal Amah Mutsun, cujos ancestrais colheram abalone por gerações.
Wooldridge destacou que coleções de museus pelo mundo estão repletas de conchas, e a maioria dos sítios arqueológicos costeiros é rica nesse material. Este é um recurso seriamente subutilizado que pode abrir uma janela para o passado, disse ele, sinalizando que a técnica pode ser aplicada a outras espécies de moluscos ameaçadas.
A janela de oportunidade, porém, não ficará aberta para sempre. Sem um manejo ativo que promova a recuperação das populações, o relógio genético pode começar a correr contra o abalone-negro — mas, pela primeira vez desde o colapso, os cientistas têm um mapa claro de como evitar esse desfecho.