Fórum de São Petersburgo atrai delegação oficial dos EUA e líderes do Sul Global

O presidente russo Vladimir Putin durante evento no St Petersburg International Economic Forum. (Foto: aljazeera.com)

Horas antes da abertura do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF), drones ucranianos atingiram instalações energéticas nos arredores da cidade, em uma tentativa de perturbar um dos principais eventos da agenda diplomática russa. O ataque, ocorrido a aproximadamente 16 quilômetros do local da conferência, interrompeu temporariamente as operações do aeroporto, mas o fórum prosseguiu conforme o planejado, reunindo cerca de 20 mil participantes de mais de 130 países.

Conhecido como o Davos russo, o SPIEF chega à sua 29ª edição consolidado como uma vitrine da estratégia do Kremlin de redirecionar laços econômicos e políticos para o Sul Global. Enquanto governos ocidentais e multinacionais se afastaram da Rússia desde 2022, o fórum expõe o fracasso da tentativa de isolamento: delegações da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina mantêm presença expressiva, e este ano o evento conta até mesmo com uma delegação oficial dos Estados Unidos, a primeira desde o início da guerra na Ucrânia.

O presidente dos EUA, Joe Biden, designou Rodney Mims Cook Jr., presidente da Comissão de Belas Artes americana, como seu representante no evento, conforme apurou o portal Al Jazeera. Cook deve participar de um painel intitulado Rússia-EUA: Um Diálogo Cultural, enquanto a Câmara Americana de Comércio na Rússia e a Fundação Roscongress organizam um fórum empresarial paralelo focado em possíveis cooperações entre empresas dos dois países — sinal de que, apesar das tensões, os interesses econômicos seguem pressionando pontes.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tradicionalmente profere o discurso de abertura do SPIEF e utiliza a tribuna para delinear prioridades econômicas e enviar recados geopolíticos. Em 2022, meses após o início da operação militar na Ucrânia, Putin usou o fórum para denunciar as sanções ocidentais e argumentar que a tentativa de isolar Moscou havia fracassado — tese que a composição atual do evento parece corroborar com números e perfis de alto escalão.

Entre os confirmados deste ano estão o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, a presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, e o vice-presidente da China, Han Zheng, que deve se reunir separadamente com Putin, segundo o assessor de política externa do Kremlin, Yury Ushakov. A Arábia Saudita é o país convidado de honra e envia seu ministro de Energia, príncipe Abdulaziz bin Salman Al Saud, reforçando o peso da presença do Oriente Médio no fórum.

O SPIEF também atrai figuras controversas e personalidades midiáticas ligadas à direita ocidental. O ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, o ator Steven Seagal, a comentarista conservadora americana Candace Owens e os irmãos Andrew e Tristan Tate — estes últimos alvo de acusações de tráfico humano e crime organizado na Romênia e no Reino Unido — estão entre os participantes, o que evidencia a amplitude ideológica do evento e sua capacidade de reunir vozes dissonantes em relação ao consenso atlantista.

A programação do fórum vai muito além da economia tradicional. Os painéis cobrem desde mercados de energia e inteligência artificial até guerra informacional e influência midiática, com destaque para uma sessão conduzida pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, intitulada Suas Palavras São Como Balas: Como a Informação se Transformou na Arma Mais Poderosa da Era Moderna — um tema que reflete a centralidade da batalha narrativa no conflito atual.

Criado em 1997, no período em que a Rússia pós-soviética buscava investimento estrangeiro e integração global, o SPIEF transformou-se ao longo de quase três décadas em uma plataforma de projeção da visão russa sobre a ordem internacional. As sanções ocidentais e a perda de mercados europeus forçaram Moscou a redirecionar comércio e investimentos para Ásia, África e América do Sul, e o fórum funciona como termômetro anual desse realinhamento. Cerca de 1.800 empresas alemãs continuam operando na Rússia, apesar da deterioração das relações bilaterais, e o bilionário alemão Thomas Bruch, dono da Hyperglobus, participa de debates sobre investimentos germânicos no país.

A resiliência do SPIEF desmente a narrativa de isolamento propagada por potências ocidentais. Ao atrair líderes do Sul Global, delegações empresariais de países sancionadores e até representantes oficiais de Washington, o fórum expõe os limites da estratégia de contenção e sinaliza que a reorganização das cadeias globais de poder e comércio segue em ritmo acelerado, com ou sem o aval das capitais atlânticas.

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