Uma equipe internacional de paleontólogos identificou marcas ósseas em crânios de espinossaurídeos que representam a primeira evidência de glândulas especializadas na eliminação de sal em dinossauros. A descoberta, liderada pela pesquisadora Andrea Cau, do OPHIS Museum of Palaeontology and Center of Herpetology, amplia a compreensão sobre a relação desses predadores pré-históricos com ecossistemas aquáticos e costeiros.
Os resultados do estudo foram publicados no periódico científico Historical Biology. A investigação concentrou-se em depressões e canais presentes nos fósseis, comparando-os com estruturas anatômicas de aves marinhas e iguanas-marinhas atuais que possuem sistemas de filtragem de sódio.
Segundo reportagem do Olhar Digital, os indícios mais significativos foram localizados acima da região ocular em espécies mais derivadas do grupo. Essa configuração sugere a presença de uma glândula conectada às narinas por um ducto excretor, padrão semelhante ao encontrado em aves adaptadas à vida marinha.
Andrea Cau destacou a relevância da descoberta para a paleontologia, campo no qual inferências fisiológicas são extraordinariamente raras. Nossa descoberta é uma oportunidade rara de conectar aspectos da fisiologia e da ecologia de um dinossauro extinto, afirmou a pesquisadora. Normalmente, os fósseis de dinossauros preservam apenas informações relacionadas à locomoção ou à dieta, deixando poucos vestígios de processos biológicos internos. As estruturas observadas agora oferecem uma janela inédita para compreender como esses animais lidavam com o desafio do excesso de sal na corrente sanguínea.
A equipe interpreta a característica como um possível caso de evolução convergente, fenômeno em que grupos sem parentesco próximo desenvolvem soluções biológicas semelhantes sob pressões ambientais equivalentes. Nos espinossaurídeos, essa adaptação teria sido crucial para viabilizar a captura de peixes e a permanência prolongada em áreas alagadas.
O estudo também lança luz sobre uma antiga questão da paleontologia: por que os dinossauros jamais dominaram os oceanos como fizeram outros vertebrados marinhos. Limitações anatômicas na eliminação de sal podem ter representado uma barreira evolutiva significativa para a ocupação plena de ambientes oceânicos pelo grupo.
Diferentemente do que ocorre nas iguanas-marinhas atuais, as supostas glândulas dos espinossaurídeos provavelmente não produziam alterações externas perceptíveis. Cau explicou que a configuração sugerida se aproxima mais do modelo das aves modernas, nas quais essas estruturas permanecem discretas sob os tecidos da cabeça. Os achados acrescentam um novo elemento ao debate científico sobre o grau de adaptação aquática dos espinossaurídeos, reforçando a hipótese de que esses dinossauros carnívoros mantinham uma associação ecológica muito mais estreita com a água do que se supunha anteriormente.