Google pede autorização para liberar 64 milhões de mosquitos com bactéria nos EUA

Mosquito infectado com Wolbachia em close-up, ilustrando projeto de controle da população de insetos. (Foto: livescience.com)

A gigante tecnológica Google apresentou pedido à Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos para liberar até 64 milhões de mosquitos infectados com a bactéria natural Wolbachia pipientis em regiões da Califórnia e Flórida. O objetivo é reduzir populações do mosquito Culex quinquefasciatus, espécie invasora capaz de transmitir doenças como o vírus do Nilo Ocidental e a encefalite de St. Louis.

Segundo reportagem do portal Live Science, a iniciativa faz parte do projeto Debug, desenvolvido pelo Google. A estratégia utiliza mosquitos machos não picadores portadores da bactéria Wolbachia, que provoca um fenômeno chamado incompatibilidade citoplasmática. Quando esses machos acasalam com fêmeas não infectadas, os embriões resultantes não são viáveis. Já as fêmeas que carregam a mesma bactéria geram descendentes que também herdam a Wolbachia, reduzindo gradualmente a população de mosquitos transmissores de doenças.

Cientistas destacaram o potencial da abordagem. Karthikeyan Chandrasegaran, professor da Universidade da Califórnia em Riverside, afirmou que as estratégias com Wolbachia são espécie-específicas e não introduzem novas toxinas no ambiente. Ele ressaltou que a bactéria é um simbionte natural presente em muitas espécies de insetos, tornando-a uma ferramenta de controle mais conservadora em comparação com inseticidas de largo espectro.

Eric Caragata, professor da Universidade da Flórida, explicou que a técnica já é utilizada desde 2011 para controlar mosquitos. O foco do Google é combater o Culex quinquefasciatus, espécie que se tornou um problema de saúde pública nos EUA. A EPA classificou o pedido como de relevância regional e nacional e abriu um período de comentários públicos, que se encerra em breve.

Após essa etapa, a agência poderá autorizar a liberação de até 32 milhões de mosquitos na Califórnia e outros 32 milhões na Flórida ao longo de dois anos. O Google utiliza máquinas automatizadas e inteligência artificial para produzir milhões de mosquitos e separar os machos das fêmeas, garantindo que apenas insetos não picadores sejam liberados. Experiências anteriores com mosquitos Aedes aegypti, vetores da dengue e zika, já demonstraram resultados expressivos. Em Singapura, onde o Google também atua, a liberação de machos portadores de Wolbachia reduziu em até 90% a população de mosquitos transmissores e diminuiu em 70% o risco de contrair dengue.

Os pesquisadores não preveem impactos ecológicos significativos. Chandrasegaran apontou que a maioria dos predadores de mosquitos é generalista e se alimenta de uma ampla variedade de insetos, de modo que a supressão local do Culex quinquefasciatus não deve provocar desequilíbrios na cadeia alimentar. O vírus do Nilo Ocidental é a principal causa de doença transmitida por mosquitos nos Estados Unidos, com cerca de 2.000 casos diagnosticados anualmente. Na Califórnia, desde 2003, já foram registrados mais de 8.000 casos humanos e mais de 400 mortes.

Especialistas avaliam que os benefícios à saúde pública superam eventuais riscos ecológicos, especialmente diante da resistência crescente dos mosquitos aos inseticidas tradicionais. O projeto Debug representa uma aposta em soluções naturais e de precisão para um problema que, segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC), causa entre 500 mil e mais de um milhão de mortes por ano no mundo.

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