O governo brasileiro descarta, por ora, qualquer medida retaliatória contra os Estados Unidos e mantém a aposta no diálogo diplomático para reverter a proposta de tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras. A posição foi reiterada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em conversa com jornalistas em Paris, onde participa da Reunião do Conselho Ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Vieira revelou ter mantido uma conversa informal com o representante para o Comércio Exterior norte-americano, Jamieson Greer, nos corredores do evento. O contato, segundo o chanceler, foi iniciado pelo próprio representante dos EUA, que afirmou estar tendo ótimas conversas com o Brasil e se declarou pronto para continuar as negociações.
Ele se aproximou de mim e conversamos. Eu respondi que é do nosso interesse manter o diálogo, sobretudo após o anúncio dos relatórios finais das duas investigações sobre a Seção 301, detalhou Vieira. O prazo para a eventual aplicação das tarifas pelo Escritório de Comércio dos EUA se estende até 15 de julho de 2026, o que mantém a janela diplomática aberta.
O chanceler lembrou que, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington no início de maio, havia sido fixado um prazo de 30 dias para o início das negociações formais. Greer, no entanto, antecipou-se e sinalizou disposição para conversar antes mesmo do vencimento desse período, gesto que o Itamaraty interpretou como positivo.
No centro da controvérsia está o argumento norte-americano de que o Brasil manteria um superávit comercial com os EUA, justificativa usada por Washington para embasar a sobretaxa. Vieira contestou frontalmente essa leitura: Não temos superávit com os Estados Unidos. Ao contrário: nos últimos 15 anos, incluindo o déficit do ano passado, acumulamos cerca de US$ 450 bilhões.
O chanceler foi além e ironizou a lógica protecionista americana. Nós é que temos um grande déficit. Em tese, seríamos nós a considerar medidas de proteção nesse aspecto, mas seguimos dialogando, afirmou, reforçando que o Brasil não considera, neste momento, qualquer retaliação comercial contra Washington.
A postura brasileira de manter o canal diplomático aberto contrasta com a escalada tarifária promovida pela administração anterior, que também incluiu as facções criminosas PCC e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas dos EUA. Vieira garantiu que o governo respondeu com uma equipe muito robusta durante o período de consultas da Seção 301, fornecendo todas as informações solicitadas ao longo da investigação.
Segundo reportagem do Opera Mundi, o presidente Lula confirmou presença na cúpula do G7, que ocorrerá na França entre 15 e 17 de junho. Até o momento, porém, não há encontro bilateral confirmado entre os dois líderes, embora Vieira tenha sinalizado otimismo: Eles estarão todos presentes e haverá oportunidade de conversar.
A viagem marca a décima vez que o presidente brasileiro é convidado a participar da reunião das sete maiores economias do mundo, um reconhecimento do peso diplomático do país. Paralelamente, o chanceler destacou a importância estratégica do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, já plenamente firmado após longa negociação, e revelou contatos exploratórios com Reino Unido e Japão para ampliar a rede de parcerias comerciais brasileiras.
Vieira também mencionou sua recente passagem pela China, onde participou de uma reunião do diálogo estratégico global que incluiu temas comerciais na pauta. O ministro classificou como muito produtivos os dois dias de trabalho na OCDE, mas admitiu que ainda não há previsão para resolver a questão tarifária com os EUA: Vamos continuar conversando. Não há prazo definido para essas negociações.