Cientistas descobrem que medo de cobras é transmitido de mães para filhotes em espécie ameaçada

Rato de espécie ameaçada caminha sobre areia com sementes. (Foto: phys.org)

Cientistas da San Diego Zoo Wildlife Alliance, na Califórnia, fizeram uma descoberta notável: o medo de predadores pode ser passado de mães para suas filhas, algo nunca documentado em um mamífero ameaçado de extinção. A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Ecology and Evolution, pode revolucionar os programas de reprodução em cativeiro e a reintrodução de espécies em seus habitats naturais.

O estudo, liderado pela Dra. Debra Shier, diretora associada de ecologia de recuperação da aliança, focou no camundongo-de-bolso-do-Pacífico (Perognathus longimembris pacificus), classificado como criticamente ameaçado na Lista Vermelha da IUCN. Vinte e duas fêmeas grávidas participaram de um experimento controlado no qual metade foi exposta a uma cobra-rei viva — predadora natural da espécie — enquanto a outra metade encarou apenas uma corda inofensiva, conforme reportagem do portal Phys.org.

O treinamento foi simples, mas eficaz: sempre que um camundongo se aproximava da cobra (protegida por uma tela de arame), os pesquisadores borrifavam água sobre ele, criando uma associação negativa imediata. Os 87 filhotes nascidos dessas fêmeas foram então testados aos 30 dias de idade, seguindo exatamente o mesmo protocolo, e os resultados surpreenderam até mesmo os biólogos experientes.

As filhas de mães que passaram pelo treinamento antipredador exibiram um nível muito maior de vigilância quando confrontadas com a serpente: elas escaneavam o ambiente, congelavam e se erguiam sobre as patas traseiras com frequência significativamente maior para monitorar a ameaça. Os filhos machos, no entanto, não apresentaram nenhuma diferença comportamental quando comparados aos filhotes do grupo de controle — um intrigante efeito sexo-específico que ainda precisa ser totalmente compreendido.

Aqui mostramos, pela primeira vez em um mamífero ameaçado, que o treinamento antipredador de mães grávidas pode influenciar como seus descendentes respondem a predadores mais tarde na vida, afirmou a Dra. Shier. Para os conservacionistas, o achado resolve um dilema antigo: animais criados em cativeiro, protegidos de qualquer perigo, tornam-se adultos ingênuos que não reconhecem predadores quando finalmente libertados na natureza.

O método tradicional de treinamento antipredador com os próprios filhotes é trabalhoso, caro e depende de janelas sensíveis de aprendizado que nem sempre coincidem com a logística dos centros de reprodução. Treinar as mães durante a gestação, em contraste, é muito mais eficiente — e a transmissão de conhecimento parece ocorrer de forma biológica, antes mesmo dos filhotes abrirem os olhos.

Os pesquisadores propõem três hipóteses para explicar o fenômeno, e nenhuma delas é trivial: a primeira é a programação pré-natal, em que hormônios do estresse associados ao treinamento durante a gestação influenciam o desenvolvimento fetal. A segunda sugere que as mães, após passarem pela experiência, passam a se comportar de forma diferente com os filhotes após o nascimento, moldando sutilmente sua conduta.

A terceira hipótese aponta para pistas olfativas persistentes: os odores ou feromônios ligados ao treinamento antipredador poderiam permanecer no ninho ou no pelo da mãe, sendo detectados pelos filhotes e provocando alterações comportamentais duradouras. Ainda não sabemos por que as filhas reagiram de forma diferente dos filhos, mas respostas sexo-específicas ao estresse e a pistas de predadores já foram observadas em outras espécies, explicou Shier.

O estudo não encontrou uma melhora mensurável na sobrevivência pós-soltura dos filhotes treinados indiretamente — 44 dos 87 camundongos foram liberados em habitats na costa do sul da Califórnia e monitorados por meio de captura viva até o final do verão. No entanto, os autores alertam que o tamanho reduzido da amostra e o fato de todos os animais terem sido expostos à cobra antes da libertação podem ter mascarado efeitos benéficos reais que só apareceriam em larga escala.

A pesquisa foi conduzida em estrita conformidade com as leis federais e da Califórnia, com aprovação do Comitê Institucional de Cuidado e Uso Animal da San Diego Zoo Wildlife Alliance, e nenhum animal sofreu danos durante os experimentos. Os resultados estão publicados integralmente na Frontiers in Ecology and Evolution (DOI: 10.3389/fcosc.2026.1783876), assinados pela Dra. Shier e pela coautora Dra. Catherine T.Y. Nguyen.

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