Um relatório do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA) revela que a China desperdiçou grandes volumes de energia solar e eólica no primeiro trimestre de 2026. A gestão inflexível do sistema elétrico chinês, que prioriza o carvão como fonte estabilizadora, impediu a absorção plena das renováveis. O estudo foi divulgado pelo South China Morning Post.
A demanda por eletricidade cresceu no período, mas o país recorreu a combustíveis fósseis em vez de aproveitar a expansão das energias limpas. Segundo o CREA, essa estratégia deixou a China mais exposta à crise no Estreito de Ormuz, aumentando a necessidade de carvão e gás importados.
O Estreito de Ormuz, rota vital que liga o Golfo Pérsico ao mercado global, enfrenta instabilidade devido a tensões geopolíticas no Oriente Médio. Ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica do Irã agravaram a situação. O fechamento ou ameaça de bloqueio dessa passagem eleva os preços do petróleo e força Pequim a buscar segurança energética por meio de fontes domésticas, como o carvão.
O relatório destaca que o problema não está na falta de infraestrutura de transmissão, mas na operação inflexível das usinas a carvão e das redes elétricas. O carvão é tratado como fonte prioritária, o que impede o pleno aproveitamento da geração solar e eólica, resultando em cortes e desperdício.
Em declaração ao Carbon Brief, o CREA afirmou que, embora a crise em Ormuz tenha reforçado o foco chinês na segurança energética via eletrificação e energias limpas, o sistema elétrico não acompanhou essa necessidade. O resultado foi um retrocesso na descarbonização e maior dependência de combustíveis fósseis.
O cenário expõe uma contradição: ao priorizar o carvão para se proteger de choques externos, a China se torna mais vulnerável às crises do petróleo do que se acelerasse a transição para renováveis. A análise do CREA sugere que a rigidez regulatória atrasa uma expansão que poderia gerar eletricidade equivalente ao consumo da França.
A instabilidade no Oriente Médio, alimentada por décadas de intervencionismo ocidental, prejudica a segurança energética global e a luta contra as mudanças climáticas. Para os países do Sul Global, o episódio reforça a urgência de construir sistemas energéticos autônomos, como os projetos de interconexão elétrica entre os BRICS.
A China trabalha para ampliar sua capacidade renovável, mas enfrenta o desafio de reformar a gestão de suas redes para integrar de forma inteligente as fontes limpas. O sucesso dessa reforma será decisivo para que o país alcance suas metas climáticas sem se tornar refém de tensões no Golfo Pérsico.