Lula lança plataforma Tela Brasil com 555 obras e critica enlatados estrangeiros

O governo federal lançou a plataforma de streaming Tela Brasil durante o evento Rio2C, em São Paulo, com o objetivo de ampliar o acesso a filmes nacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a ocasião para criticar o consumo passivo de produções estrangeiras e vincular o novo serviço à compreensão da identidade nacional.

O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos, afirmou Lula diante de uma plateia que reunia representantes de gigantes do entretenimento como Globo, Netflix, Disney e Warner Bros. O lançamento ocorre em um momento em que a produção cinematográfica brasileira, majoritariamente financiada com recursos públicos, enfrenta dificuldades para alcançar espectadores.

Segundo reportagem da Carta Capital, a plataforma estreou com 555 obras realizadas entre 1910 e 2025, incluindo 267 curtas, 139 longas-metragens, além de telefilmes e séries. Nos primeiros dias, os títulos mais acessados foram A Hora da Estrela (1985) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).

O investimento total foi de 10,1 milhões de reais, valor equivalente a dois longas-metragens modestos no Brasil. Desse montante, 3,8 milhões foram destinados a um edital de licenciamento, 570 mil reais à aquisição de 19 filmes que representaram o país no Oscar e 5,6 milhões ao desenvolvimento tecnológico.

A secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, destacou que a iniciativa atualiza programas anteriores como a Programadora Brasil e o Cine Mais Cultura, promovendo a democratização digital com conteúdo 100% brasileiro e gratuito. A curadoria dá ênfase a recortes de cinema negro, cinema indígena e produções dirigidas por mulheres.

Parte do acervo inicial veio de instituições vinculadas ao Ministério da Cultura, como a Cinemateca Brasileira e a Funarte, com acordos previstos para incorporar também o conteúdo da EBC e da TV Brasil. O acesso é feito por login no gov.br, e um aplicativo para celular deve ser lançado em 30 dias.

Daniel Queiroz, da distribuidora Embaúba, vê na plataforma uma chance de romper o nicho dos festivais e salas de cinema especializadas, levando o cinema autoral brasileiro a cidades do interior. O que veremos com o tempo é se os filmes mais relevantes que as pessoas querem ver estarão na plataforma.

O projeto, no entanto, esbarra na realidade do mercado audiovisual, onde a exclusividade é moeda valiosa e grandes sucessos como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto já estão licenciados por Globoplay e Netflix. A ausência de uma regulação específica para o streaming no país também projeta incertezas sobre a capacidade do poder público de manter um catálogo competitivo.

Dados da Agência Nacional do Cinema mostram que apenas 5,3% dos mais de 138 mil títulos disponíveis em 106 plataformas são obras brasileiras. A Netflix, por exemplo, tem apenas 2,8% de conteúdo nacional entre suas 7,8 mil obras.

O lançamento da Tela Brasil representa um passo concreto para escoar uma produção que frequentemente permanece invisível, ao mesmo tempo em que evidencia a urgência de políticas estruturais que garantam presença brasileira no ambiente digital. A plataforma já nasce como a maior oferta pública de filmes nacionais em streaming gratuito no país.

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