Uma equipe internacional de arqueólogos e cineastas descobriu seis naufrágios históricos no porto de Nassau, nas Bahamas, um dos mais notórios refúgios da pirataria durante os séculos 17 e 18. As embarcações, encontradas em uma zona restrita do porto, incluem três navios com fortes indícios de ligação ao chamado Século de Ouro da Pirataria.
A descoberta foi revelada ao público por meio de um documentário da Wreckwatch TV e uma reportagem especial da revista Wreckwatch. Entre os destroços, um navio chama atenção especial: os pesquisadores acreditam que pode se tratar do Fancy, a fragata de 46 canhões capturada e comandada pelo lendário pirata Henry Avery nos anos 1690. Avery tornou-se famoso após saquear mais de 600 mil libras em metais preciosos e joias de embarcações do Império Mogol em 1695, valor equivalente a cerca de 150 milhões de dólares atuais.
Após o saque, tanto Avery quanto o Fancy desapareceram sem deixar vestígios, alimentando lendas sobre tesouros perdidos. A embarcação descoberta agora apresenta marcas de queimaduras no casco, uma prática comum entre piratas para eliminar evidências incriminadoras depois de saquear e abandonar os navios. O arqueólogo marinho Sean Kingsley, co-diretor da expedição e correspondente de história da revista Smithsonian Magazine, descreveu o momento como único na vida. Ele relatou ao jornal The Guardian que tocar o casco carbonizado foi uma experiência emocionante e reveladora.
A embarcação suspeita de ser o Fancy está unida por cavilhas de madeira, técnica de fixação típica da construção naval do século 18. Além disso, sua idade, tamanho e estilo coincidem com os registros históricos da fragata pirata. A equipe também localizou outros vestígios valiosos em diferentes pontos da região. A aproximadamente 30 quilômetros a leste de Nassau, outro naufrágio de madeira guardava canhões de ferro, uma pedra de amolar para afiar espadas e balas de mosquete de chumbo.
Sob a antiga ponte de Nassau, os arqueólogos encontraram tábuas do casco, cordames, garrafas de vinho de vidro, caixotes de transporte e tijolos da cozinha de um navio. Próximo dali, foram recolhidos 143 cachimbos de barro decorados com um unicórnio, um cavalo, uma coroa e o brasão real da Inglaterra com a inscrição Deus e meu direito, em francês. Os especialistas suspeitam que esta última embarcação era um navio mercante inglês que transportava carga de Londres por volta da década de 1740.
O conjunto de descobertas lança luz sobre o cotidiano do porto de Nassau, que entre as décadas de 1650 e 1730 abrigou mais de mil piratas. Segundo Kingsley, o objetivo do projeto é reconstruir a verdadeira face da Piratetown de Nassau, em contraste com as caricaturas difundidas pela cultura pop. A equipe também criou um modelo digital em 3D que recria a aparência do assentamento por volta de 1715, quando a ilha fervilhava com a presença de fora-da-lei.
A economia da pirataria floresceu em paralelo ao tráfico transatlântico de escravos, que movimentava riquezas imensas e tornava os navios mercantes alvos tentadores. Muitos marinheiros forçados a servir na Marinha Real britânica viam na pirataria uma fuga de chicotadas, má alimentação e condições degradantes. Os pesquisadores pretendem retornar ao porto de Nassau com drones subaquáticos para procurar dezenas de outros naufrágios que ainda podem estar ocultos sob as águas azul-turquesa.
Até o momento, não há evidências de que algum desses navios ainda contenha tesouros. Kingsley afirmou que essas descobertas são apenas a ponta do iceberg e que o trabalho está apenas começando. A investigação promete reescrever capítulos importantes da história marítima e desafiar os estereótipos hollywoodianos sobre os piratas do Caribe.