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Crosta viva de 4.300 organismos por palmo reescreve a biologia das fossas abissais

0 Comentários🗣️🔥 Por décadas, os cientistas vasculharam o lodo das fossas oceânicas em busca de vida. A rocha nua das paredes verticais era tratada como uma zona morta e estéril. Essa suposição desmoronou quando as câmeras do submersível tripulado chinês, o Fendouzhe, começaram a mirar diretamente a pedra. O que emergiu não foi um vazio […]

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Ilustração editorial sobre Crosta viva de 4.300 organismos por palmo reescreve a biologia das fossas abissais. (Ilustração: C
Ilustração editorial sobre Crosta viva de 4.300 organismos por palmo reescreve a biologia das fossas abissais. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

Por décadas, os cientistas vasculharam o lodo das fossas oceânicas em busca de vida. A rocha nua das paredes verticais era tratada como uma zona morta e estéril.

Essa suposição desmoronou quando as câmeras do submersível tripulado chinês, o Fendouzhe, começaram a mirar diretamente a pedra. O que emergiu não foi um vazio mineral, mas uma crosta viva tão densa que um único fragmento do tamanho de uma palma abrigava milhares de criaturas.

Entre 2020 e 2024, a embarcação realizou 98 incursões nas fossas mais profundas do planeta, revelando um universo biológico até então ignorado. A investigação foi liderada pelo pesquisador Xikun Song, do Instituto de Ciência e Engenharia do Mar Profundo (IDSSE) da China, conforme detalhou o Earth.com sobre o estudo publicado na revista Science.

As imagens mostraram superfícies rochosas recobertas por filamentos e estruturas tubulares. Em uma área minúscula de apenas dez centímetros, os pesquisadores contaram até 4.300 organismos.

Ao todo, a equipe catalogou 32 espécies distribuídas por seis ramos distintos da vida. Algumas eram unicelulares, outras animais diminutos, e a maioria jamais havia sido descrita pela ciência.

Os organismos mais abundantes eram foraminíferos, seres unicelulares que constroem suas próprias conchas e se fixam à rocha com delicados filamentos. Os cientistas os apelidaram de ‘penas de rocha’, e quatro dessas espécies novas representavam a maior parte do que foi observado.

A questão central atormentava os pesquisadores: o que nutre essa vida em escuridão perpétua, sem plantas e sem luz solar? A resposta, por muito tempo, apontava para um mecanismo semelhante ao das fontes hidrotermais, onde bactérias convertem substâncias químicas em alimento.

Porém, a análise genética derrubou essa hipótese. Nenhum dos micro-organismos que se alimentam de químicos apareceu nas amostras, e os foraminíferos não possuíam a maquinaria genética necessária para essa estratégia.

O enigma se desfez com uma constatação singela: essas criaturas são necrófagas. Elas sobrevivem da chuva lenta de plâncton morto e restos orgânicos que afundam da superfície iluminada, a quilômetros de distância.

Ainda que cada organismo meça meros milímetros, o conjunto espalhado fossa após fossa acumula um papel colossal no ciclo do carbono. Os cálculos indicam que essas comunidades detêm entre dois e onze por cento de todo o carbono vivo das fossas mais profundas do mundo.

Isso transforma as paredes rochosas em uma parada movimentada e inesperada na rota do carbono oceânico. Os foraminíferos se alimentam do material que desce, interceptando o fluxo que carrega carbono da superfície para o abismo.

Os modelos climáticos e biogeoquímicos do oceano profundo simplesmente ignoravam essas comunidades, porque ninguém sabia que elas existiam em tal quantidade. Agora, incorporá-las pode alterar as estimativas sobre o quanto de carbono as fossas abissais processam e armazenam.

As concentrações mais ricas foram achadas na Fossa de Kermadec, próxima à Nova Zelândia, e na Fossa das Marianas, no Pacífico ocidental. As comunidades mais densas situavam-se entre 8,8 e 11 quilômetros de profundidade.

Expedições posteriores confirmaram a presença das mesmas formações rochosas vivas em outras cinco fossas espalhadas pelo Pacífico e além. A repetição do fenômeno sugere que não se trata de uma excentricidade local, mas de uma característica padrão dos lugares mais profundos da Terra.

A visão de que as fossas abissais eram pouco mais que rocha estéril e lama fina ruiu. Os cientistas agora enxergam um ecossistema denso, em grande parte desconhecido, que se alimenta do que cai do alto e guarda uma fração significativa do carbono das profundezas.

As próximas expedições vasculharão outras fossas em busca dessas mesmas crostas apinhadas de vida, pesando com precisão o carbono que elas movem. O fundo do oceano, tratado por tanto tempo como pensamento tardio, revela-se fervilhante de existência.

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