O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou nesta terça-feira (21) que o governo Trump vai investigar se modelos chineses de inteligência artificial foram “destilados” a partir de modelos americanos — e ameaçou, mais uma vez, com a arma preferida de Washington: sanções.
“Se virmos, especialmente, que modelos estrangeiros estão roubando de nossas grandes empresas, temos a capacidade de sancioná-los por causa desse roubo”, declarou Bessent em entrevista à Fox Business. E acrescentou: “Estamos encontrando marcas d’água dos nossos grandes modelos de linguagem americanos em muitos modelos chineses, e isso é inaceitável. Vamos analisar isso nos próximos dias ou semanas.”
A declaração diz muito sobre o estado atual da política externa americana. Diante de qualquer desafio — comercial, tecnológico, geopolítico — a resposta de Washington é sempre a mesma: sancionar, tarifar, punir. Sanções primárias, sanções secundárias contra quem ousa comprar do país sancionado, sanções por motivos comerciais, políticos ou por motivo nenhum. Os Estados Unidos distribuíram tantas sanções pelo mundo que a ferramenta virou reflexo, um substituto da diplomacia e, sobretudo, da competição.
O gatilho da vez é o sucesso incontestável da China no campo da inteligência artificial. Modelos chineses de pesos abertos vêm ganhando terreno sobre as ofertas líderes de empresas americanas como OpenAI e Anthropic, o que acendeu o alarme entre executivos de tecnologia e autoridades em Washington. A startup chinesa Moonshot AI lançou neste mês o Kimi K3, modelo que supera os concorrentes americanos em vários benchmarks da indústria. Em vez de responder com mais inovação, a reação do governo americano é ameaçar com punição.
Por trás disso há uma visão de mundo que não esconde seu caráter imperial: a premissa de que somente os americanos são capazes de criar, e de que o êxito alheio só pode ser fruto de roubo. É a recusa em admitir que a China alcançou os Estados Unidos em praticamente todos os campos — e caminha para superá-los em pouco tempo, inclusive na inteligência artificial. A realidade, porém, está se impondo, gostem ou não em Washington.
A “destilação” citada por Bessent é um método de treinamento em que um modelo menor é construído usando as respostas de um modelo maior e mais capaz. A Anthropic enviou no mês passado uma carta ao Senado americano acusando a chinesa Alibaba de conduzir o que chamou de o maior “ataque de destilação” já registrado contra a empresa.
A ironia é que as próprias gigantes americanas de IA colecionam acusações de apropriação de conteúdo alheio. A Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão, em setembro, para encerrar uma ação coletiva movida por autores que a acusavam de baixar livros ilegalmente de bases piratas. O New York Times processou a OpenAI e a Microsoft em 2023 por uso de sua propriedade intelectual no treinamento de modelos. Ou seja: quando as empresas americanas raspam o conteúdo do mundo inteiro, é “inovação”; quando os chineses aprendem com os modelos americanos, é “roubo” passível de sanção.
Enquanto isso, EUA e China planejam realizar conversas sobre inteligência artificial em setembro, segundo reportagem da Reuters. Bessent representará os americanos nas discussões. Resta saber se Washington chegará à mesa para negociar — ou apenas com mais uma lista de sanções debaixo do braço.
Com informações da CNBC


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