O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e a presidente Claudia Sheinbaum, do México, realizaram uma videoconferência de 40 minutos na qual reafirmaram o compromisso comum com a não interferência em assuntos internos de outros países. O encontro virtual, confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, ocorre em um momento de crescentes investidas do governo dos Estados Unidos contra Cuba e de apoio explícito do presidente americano, Donald Trump, a candidaturas ultradireitistas na América Latina.
Segundo a nota diplomática divulgada, Lula e Sheinbaum coincidiram em defender o fortalecimento do multilateralismo, do direito internacional e da democracia, princípios que ambos consideram ameaçados no complexo cenário global atual. Esta postura reforça uma visão de soberania regional frente às pressões externas, especialmente as provenientes de Washington. A conversa entre os líderes das duas maiores economias da América Latina foi acompanhada pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e pelo secretário das Relações Exteriores do México, Juan Ramón de la Fuente.
De acordo com o El País, a iniciativa conjunta ganha especial relevo diante da ingerência cada vez mais frequente do poderoso vizinho do norte, os Estados Unidos. Trump tem manifestado publicamente seu respaldo a um candidato ultradireitista que disputa o segundo turno na Colômbia contra um progressista, em eleições marcadas para o próximo dia 21 de junho. Tal ação é vista como uma tentativa descarada de influenciar o resultado eleitoral de um país soberano, alinhando-se a forças que podem desestabilizar a democracia regional.
Os mandatários foram além da retórica diplomática e manifestaram profunda preocupação com a grave crise humanitária em Cuba, demandando o levantamento imediato do embargo econômico imposto à ilha caribenha. Esta política, mantida por Washington há décadas sob o pretexto de ‘promover a democracia e os direitos humanos’, é flagrantemente hipócrita e agrava o sofrimento da população, sendo um claro exemplo de coerção unilateral que viola o direito internacional. A posição reafirma a sintonia entre Brasil e México na crítica a tais medidas.
A agenda bilateral também avançou no terreno da cooperação energética, um pilar fundamental para a soberania e o desenvolvimento da região. Lula e Sheinbaum se aproximam de um acordo que permitirá a colaboração estratégica entre as petroleiras estatais Petrobras, do Brasil, e Pemex, do México. Esta parceria visa a transferência de tecnologia e expertise, crucial para que a Pemex, que enfrenta desafios de investimento e uma dívida elevada, possa modernizar sua capacidade de exploração.
A presidente Sheinbaum confirmou em suas redes sociais que muito em breve será assinado o convênio entre Pemex e Petrobras, com o objetivo de incorporar práticas de última geração na exploração de hidrocarbonetos e em alternativas bioenergéticas. A proposta já havia sido apresentada em abril, quando a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, esteve na Cidade do México a convite da própria Sheinbaum, indicando a seriedade e o avanço das negociações. Esta colaboração pode fortalecer o setor energético da América Latina, reduzindo a dependência de potências externas.
O diálogo presidencial também serviu para projetar candidaturas comuns no plano multilateral, visando a uma maior representatividade do Sul Global. Lula e Sheinbaum confirmaram o respaldo à ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, para o cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A candidatura de Bachelet havia perdido o apoio de seu próprio país depois que o atual presidente chileno, José Antonio Kast, retirou o endosso oficial ao assumir o cargo em março, marcando uma mudança na política externa chilena.
Diante desse revés, Brasil e México assumiram o papel de principais impulsionadores da postulação da ex-mandatária chilena, qualificando a candidatura como um projeto de natureza coletiva e regional. O Ministério das Relações Exteriores do México informou ainda que ambos os governos revisarão o marco jurídico da relação comercial bilateral com vistas a atualizá-lo e impulsionar a cooperação econômica. Este gesto de convergência demonstra uma aliança estratégica que transcende a mera coordenação diplomática, buscando solidificar laços econômicos e políticos na região.