Morre Taty Almeida, ícone das Madres de Plaza de Mayo e defensora incansável dos direitos humanos

Taty Almeida, fundadora de Madres de Plaza de Mayo, em evento público. (Foto: telesurtv.net)

Lidia Stella Mercedes Miy Uranga, mais conhecida como Taty Almeida, uma das figuras mais emblemáticas da luta por direitos humanos na Argentina e integrante fundamental das Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora, faleceu em Buenos Aires aos 95 anos. Sua vida foi dedicada à incansável busca por memória, verdade e justiça após o desaparecimento forçado de seu filho Alejandro durante a ditadura militar.

Nascida em 28 de junho de 1930, na cidade de Buenos Aires, Taty Almeida provinha de uma família com fortes laços militares, sendo seu pai um oficial de Cavalaria. Antes de sua imersão no ativismo, ela trabalhou como professora, vivendo uma vida que ela mesma descreveria como “dentro de uma bolha” de conformismo e conservadorismo.

O sequestro de seu filho Alejandro Martín Almeida, em 17 de junho de 1975, pela organização paramilitar de direita Aliança Anticomunista Argentina (Triple A), alterou radicalmente sua vida e a impulsionou para o ativismo pelos direitos humanos. Alejandro, então com 20 anos, era estudante de Medicina na Universidade de Buenos Aires, trabalhador na agência estatal de notícias Télam e no Instituto Geográfico Militar, além de militante ativo do Exército Revolucionário do Povo (ERP-22 de agosto).

Em 1979, quatro anos após a trágica perda, Taty Almeida se juntou às Madres de Plaza de Mayo, um movimento que havia surgido em abril de 1977 para denunciar publicamente os desaparecimentos forçados. As mães, identificadas por seus distintivos lenços brancos, desafiavam o regime militar realizando rondas semanais na Plaza de Mayo, um símbolo poderoso de resistência pacífica em meio à repressão.

Com a divisão do grupo em 1986, ela se tornou uma das fundadoras da Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora, continuando sua luta inabalável por mais de quatro décadas na defesa dos direitos humanos. Almeida sempre enfatizou que a luta por memória, verdade e justiça não pertence apenas a uma geração, mas deve ser continuada pelos jovens, com quem sempre manteve um diálogo aberto e empático.

Sua trajetória também se destacou pela evolução pessoal; Almeida, que inicialmente utilizou seus contatos militares na busca por Alejandro, percebeu que a verdade estava em outro lugar e que a luta deveria ser coletiva. Essa transformação a levou a se tornar uma ponte entre as gerações, defendendo que a memória dos 30 mil desaparecidos é um legado vivo que inspira a continuidade da luta por um futuro mais justo e igualitário.

Sua história e a de seu filho foram eternizadas em seu livro “Alejandro, por siempre… amor”, uma coletânea de memórias e 24 poemas escritos por Alejandro, encontrados após seu desaparecimento. Ao longo de sua vida, Taty Almeida recebeu diversos reconhecimentos, incluindo o título de Personalidade Destacada dos Direitos Humanos pela Legislatura da Cidade de Buenos Aires em 2011 e doutor honoris causa pela Universidade de Buenos Aires.

Até seus últimos dias, Taty Almeida expressou o profundo desejo de encontrar os restos mortais de Alejandro, um anseio que, lamentavelmente, não se concretizou. Sua morte gerou uma onda de comoção e homenagens em toda a Argentina, com líderes políticos de diversas correntes e organizações de direitos humanos destacando seu legado eterno de amor e resistência. A partida de Almeida representa uma perda significativa para o movimento de direitos humanos na Argentina, mas sua vida e obra continuam a inspirar aqueles que lutam contra o esquecimento e pela justiça.

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