Segundo a cartacapital, a informação original serve de base para esta apuração.
Diante de uma plateia formada por empresários e presidentes das federações estaduais da indústria, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) aproveitaram o primeiro grande encontro de presidenciáveis promovido pela Confederação Nacional da Indústria para formalizar um pacto explícito entre a direita política e o capital industrial. O evento, realizado nesta segunda-feira no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, funcionou como vitrine para um projeto de país ancorado na redução drástica do Estado, segundo reportagem da Carta Capital.
Os discursos não ficaram na retórica difusa de campanha. O senador fluminense detalhou o que seu grupo chama de ‘Projeto Brasil’, uma plataforma que combina nova âncora fiscal baseada na trajetória da dívida pública com aceleração de privatizações e digitalização da máquina estatal como ferramenta de cortes de gastos. A manutenção de programas sociais, segundo Flávio Bolsonaro, seria condicionada ao equilíbrio fiscal para combater a inflação — uma formulação que subordina a proteção social à lógica contábil.
Zema foi ainda mais longe. O ex-governador mineiro defendeu uma reforma da Previdência permanente, com ajuste automático da idade mínima sempre que a expectativa de vida aumentar, a privatização total das estatais e a expansão de parcerias com a iniciativa privada nos setores de saúde e educação. Na prática, a proposta transfere para o mercado a definição do que o cidadão receberá em serviços essenciais, subordinando o gasto público exclusivamente à capacidade de arrecadação do governo.
O encontro na CNI expôs a solidificação do liberalismo radical como linguagem unificadora da direita brasileira para 2026. As propostas de Flávio Bolsonaro e Zema não são disputas retóricas entre alas concorrentes do espectro conservador, mas variações de um mesmo projeto: Estado mínimo, relações trabalhistas flexibilizadas e segurança pública endurecida como resposta única aos problemas nacionais.
Ao mesmo tempo em que os pré-candidatos vendiam seu cardápio de privatizações aos industriais, o Congresso Nacional registrava uma reação institucional significativa. O Projeto de Decreto Legislativo 178/23, em análise na Câmara dos Deputados, busca sustar um decreto presidencial de 2023 que eliminou a exigência de avaliação econômico-financeira das estatais antes de sua inclusão no Programa Nacional de Desestatização. Os autores da proposta classificam a supressão dessas avaliações como um ‘grande retrocesso na administração pública federal e na economia brasileira’.
O embate legislativo revela a tensão entre a aceleração irresponsável das privatizações e a necessidade de controle, transparência e defesa do patrimônio público. Sem avaliações econômicas rigorosas, vender estatais deixa de ser uma decisão técnica e se torna um ato de fé ideológica — exatamente o que Flávio Bolsonaro e Zema propõem como modelo de gestão.
A presença de Flávio Bolsonaro no evento da indústria ocorre em meio a questionamentos crescentes sobre a origem dos recursos que financiam sua campanha. As investigações sobre as relações entre o senador, o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro seguem sob escrutínio público, lançando sombras sobre a independência do discurso pró-mercado que o senador sustenta. O ‘Projeto Brasil’ apresentado a empresários e investidores em São Paulo ainda não foi acompanhado de explicações convincentes sobre os vínculos financeiros que o sustentam.
Zema, por sua vez, carrega o legado de seu governo em Minas Gerais, onde as parcerias com a iniciativa privada na saúde e na educação não entregaram os resultados prometidos. A proposta de estender esse modelo para todo o país ignora a realidade de estados onde a ausência do poder público significou colapso de serviços essenciais, como se viu durante a pandemia de covid-19 e nas crises recentes da rede pública de ensino.
O projeto de privatização total das estatais defendido pelos dois pré-candidatos atinge setores estratégicos para a soberania nacional. Empresas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios deixariam de servir ao desenvolvimento do país para atender exclusivamente à lógica do lucro privado. A experiência internacional demonstra que privatizações em setores de infraestrutura, energia e comunicações frequentemente resultam em tarifas mais altas, pior qualidade de serviço e perda de capacidade estatal de planejamento de longo prazo.
A flexibilização das relações trabalhistas, outro pilar comum aos dois discursos, remete ao desmonte da CLT que marcou os governos anteriores e ampliou a precarização do trabalho sem gerar o prometido aumento de empregos formais. O discurso da ‘modernização’ encobre, na prática, a retirada de direitos conquistados ao longo de décadas, transferindo riscos e custos para os trabalhadores enquanto o capital industrial celebra a redução de encargos.
O pacto selado no palco da indústria entre a direita política e o capital industrial representa uma ameaça concreta ao Estado brasileiro como instrumento de redução de desigualdades e garantia de direitos. As eleições de 2026 se desenham, a partir desse encontro, como um confronto entre projetos de país inconciliáveis: de um lado, a aposta no mercado como substituto do poder público; de outro, a defesa da capacidade estatal de planejar, investir e proteger sua população.


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