A recente aprovação de resoluções de poderes de guerra pelo Congresso dos Estados Unidos, com amplo apoio democrata, não passa de um gesto performático e sem qualquer poder real para conter o presidente, afirmou o analista político Matthew Hoh, ex-fuzileiro naval e crítico da política externa americana. Em entrevista ao canal Dialogue Works, Hoh explicou que a chamada War Powers Resolution, criada em 1973, jamais foi usada com sucesso para barrar uma ação militar e que o atual movimento legislativo é apenas uma tentativa de “cobrir as costas” dos parlamentares enquanto a guerra já terminou.
Segundo Hoh, a resolução pode seguir dois caminhos: um conjunto, que exigiria uma maioria à prova de veto presidencial — impossível de alcançar — ou um concorrente, que não tem força de lei sobre o Executivo. “Não há histórico jurídico que diga que o presidente precisa obedecer a uma resolução concorrente”, disse. “É uma farsa. O Congresso nunca usou seu verdadeiro poder, o poder da bolsa, para frear guerras.” Ele lembrou que a mesma ferramenta foi vetada por Donald Trump em 2019, no caso do Iêmen, e que, na prática, os parlamentares acabarão votando a favor do financiamento do conflito, apesar da retórica.
Para o entrevistado, a situação no Líbano será a prova de fogo do acordo entre Washington e Teerã. Hoh acredita que Israel será forçado a retirar suas tropas do sul libanês, mas manterá uma “ocupação por fogo”, com drones e vigilância aérea, transformando a região em uma zona de tiro livre. Em troca, os israelenses teriam carta branca para continuar a anexação da Cisjordânia e a operação em Gaza. Apesar de considerar o cenário “feio e catastrófico” para a população local, ele vê nesse arranjo a única forma de evitar o colapso do cessar-fogo.
Hoh destacou que as novas capacidades de defesa aérea do Hezbollah podem complicar esse esquema, com o grupo utilizando drones anti-drones. “Os israelenses não terão a mesma liberdade de ação de antes”, explicou. “Qualquer ataque israelense ao norte do sul do Líbano poderia justificar uma resposta iraniana mais dura, como o fechamento do Estreito de Ormuz.” Ele também apontou a pressão política sobre Benjamin Netanyahu, cujas pesquisas de opinião despencaram, e a possibilidade de que o primeiro-ministro seja forçado a aceitar termos que são “um anátema pessoal e político para ele”.
Na análise geopolítica mais ampla, o entrevistado vê o surgimento de uma nova arquitetura de segurança na Ásia Ocidental, com eixos como Arábia Saudita-Paquistão-Turquia e Emirados-Índia, além do reposicionamento do Irã como potência mundial. “Os iranianos demonstraram que são uma potência global e agora precisam atuar como tal, projetando influência além de suas fronteiras”, disse Hoh, acrescentando que o papel dos Estados Unidos na região tende a diminuir, exceto em Israel e na Jordânia.
Quanto ao Memorando de Entendimento entre EUA e Irã, Hoh foi cético sobre a remoção permanente das sanções, que depende do Congresso e enfrenta forte oposição de neoconservadores e do Partido Democrata. O presidente pode emitir isenções temporárias, mas um acordo final provavelmente permanecerá como um modus vivendi informal. “Pode ser o melhor que conseguiremos pelos próximos dois anos e meio”, avaliou.
Internamente, Hoh observou uma transformação na opinião pública americana: 60% têm visão negativa de Israel, e as vitórias de candidatos pró-Palestina nas primárias de Nova York sinalizam que a base democrata já não tolera o alinhamento com o lobby israelense. “O establishment do partido ainda resiste, mas a direção é clara”, afirmou. Ele também mencionou a rejeição crescente entre republicanos, como o caso de Tucker Carlson, que anunciou não votar mais no partido, mostrando que as fissuras no consenso pró-Israel estão se alastrando nos dois lados do espectro político.