A poucos dias do prazo final para a decisão de Donald Trump sobre a aplicação de uma tarifa de 25% contra produtos brasileiros, o governo Lula (PT) apresentou aos Estados Unidos uma proposta concreta para tentar destravar a negociação: reduzir alíquotas de importação em setores dominados por empresas americanas — como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação — em troca de uma solução diplomática que evite a sobretaxa. É a aposta mais robusta do Planalto até aqui, batizada internamente de “mapa do caminho”.
O que está sobre a mesa
O pacote brasileiro foi desenhado para responder, ponto a ponto, aos seis eixos levantados pela investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação americana — o mesmo instrumento jurídico usado para justificar tarifas retaliatórias em disputas comerciais. As propostas cobrem comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. A ideia é oferecer compromissos concretos o suficiente para permitir aos dois governos avançar para um acordo antes de 15 de julho, quando vence o prazo para a decisão final de Trump.
Há, porém, uma linha que o governo brasileiro se recusa a cruzar: o Pix. O sistema de pagamentos instantâneos foi um dos alvos centrais da investigação americana, que o trata como concorrência desleal contra operadoras de cartão de crédito como Visa e Mastercard. O Planalto já sinalizou que não há espaço de negociação sobre o funcionamento da ferramenta — um ponto que, como se verá adiante, se tornou também o epicentro da crise política doméstica em torno do tema.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, deve ter uma nova rodada de conversas nos próximos dias com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer — o mesmo interlocutor que já vinha negociando diretamente com Brasília. A avaliação interna do governo, no entanto, é de cautela: mesmo com a proposta pronta, setores do Executivo trabalham com a hipótese de que Trump prefira não conceder a Lula uma vitória diplomática justamente num ano eleitoral brasileiro.
O outro lado da mesa: quando o “interlocutor” é também o problema
É aqui que a novela ganha um capítulo à parte — e talvez o mais revelador de todos. Enquanto a diplomacia oficial brasileira tenta fechar um acordo técnico, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, decidiu montar sua própria operação paralela em Washington. Na quinta-feira (2), Flávio protocolou junto ao USTR um documento de 86 páginas pedindo a suspensão imediata do tarifaço e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias — prazo que, não por acaso, empurraria a definição para depois das eleições presidenciais de outubro.
O conteúdo do documento é o que transforma o episódio em escândalo, mais do que em manobra diplomática comum. Segundo reportagens que tiveram acesso à íntegra do texto, Flávio se apresenta ao governo americano como “figura proeminente da oposição” brasileira e defende publicamente os interesses das operadoras de cartão de crédito Visa e Mastercard, propondo restrições à expansão do Pix — sistema que ele próprio credita, no documento, à gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, omitindo que o projeto foi concebido e desenvolvido pela equipe técnica do Banco Central antes mesmo de ser lançado, em novembro de 2020.
O senador foi além: anexou ao dossiê comercial um capítulo dedicado ao escândalo do Banco Master, classificando o caso perante autoridades americanas como a maior fraude bancária da história do país — expressão emprestada, ironicamente, do próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. No texto, Flávio cita nominalmente o ex-ministro Guido Mantega, o ex-presidente do STF Ricardo Lewandowski, o líder do governo no Senado Jaques Wagner e o próprio Lula, tentando construir, para um público estrangeiro, uma narrativa que associa o escândalo financeiro à cúpula do Judiciário e do governo federal brasileiros.
A confissão que virou munição para Lula
O ponto mais explosivo do documento, porém, é o argumento central usado por Flávio para justificar o pedido de adiamento: segundo ele, a manutenção das tarifas representaria uma “vitória política” para Lula, e por isso a decisão deveria ser empurrada para depois do pleito. Na prática, é uma admissão pública, feita a um governo estrangeiro, de que o próprio tarifaço — cuja escalada contou com participação ativa de aliados do senador em Washington, incluindo seu irmão Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo — está corroendo sua candidatura e ampliando sua rejeição entre o eleitorado do agronegócio e da indústria.
A reação de Lula veio rápido e dura. Em publicação nas redes sociais, o presidente classificou a postura da família Bolsonaro como submissão aos interesses americanos e chamou o pedido de adiamento de “atitude de traidores da Pátria”. Até aliados do próprio Flávio já reconhecem, em avaliações repassadas à imprensa, que a carta foi um “tiro no pé”: fala para o eleitorado já convertido ao bolsonarismo, mas arrisca afastar setores independentes — justamente o público que uma pré-candidatura presidencial precisa conquistar.
O cálculo eleitoral por trás de cada gesto
O episódio ilustra um padrão que vem se repetindo desde que o tarifaço entrou na pauta: cada lado tenta transformar a decisão americana em capital político para outubro. Auxiliares de Lula já trabalham com o cenário de que, caso as tarifas não sejam aplicadas, Flávio tentará capitalizar o resultado como fruto de sua interlocução pessoal com a Casa Branca — onde já se reuniu com Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Do outro lado, o Planalto aposta em associar o adversário a uma agenda de subserviência externa, num movimento que a colunista Eliane Cantanhêde resumiu como uma aposta do senador em que o critério não é se a medida é boa ou ruim para o Brasil, mas se é boa ou ruim para sua própria candidatura.
Resta saber qual dos dois roteiros vai prevalecer até 15 de julho — e se o “mapa do caminho” desenhado pela diplomacia brasileira será suficiente para evitar que a decisão final de Trump seja lida, em Brasília, como mais um capítulo da disputa presidencial que já começou, na prática, muito antes das urnas.