Existe uma ironia histórica extraordinária no destino da Europa. O continente que durante séculos representou o centro do imperialismo mundial talvez precise agora abraçar o anti-imperialismo para voltar a se desenvolver e recuperar sua liberdade.
Foi na Europa que o colonialismo se consolidou como sistema econômico, político e cultural. De suas capitais partiram os impérios que dividiram o planeta, saquearam continentes inteiros e transformaram a dominação de outros povos em fundamento da própria prosperidade.
Hoje, porém, a Europa ocupa uma posição cada vez mais subordinada. Em vez de conduzir uma política externa baseada em seus interesses, aceita as prioridades estratégicas de Washington e se comporta como protetorado dos Estados Unidos.
A emancipação econômica e política europeia passa, paradoxalmente, pela ruptura com essa lógica imperial. Para ser soberana, a Europa terá de se aproximar justamente das nações e regiões que durante séculos foram vítimas de seu colonialismo.
A Europa precisa se juntar ao Sul Global. É uma conclusão irônica, mas também uma consequência concreta da nova distribuição do poder econômico mundial.
Essa aproximação não significaria subordinação à China, à Rússia ou a qualquer outro país. Significaria participar da construção de uma ordem multipolar, na qual relações econômicas, tecnologia e comércio não sejam instrumentos exclusivos da hegemonia norte-americana.
A Europa também precisa reconhecer sua própria geografia. O continente europeu não é uma extensão natural do Atlântico Norte, mas a extremidade ocidental da grande massa continental eurasiática.
A Eurásia reúne recursos, tecnologia, capacidade produtiva, ciência, capital e alguns dos maiores mercados consumidores do planeta. A integração desse espaço poderia abrir uma nova etapa de desenvolvimento para todos os seus participantes.
A Rússia possui enormes reservas de gás, petróleo, fertilizantes, alimentos e minérios. A China reúne tecnologia, infraestrutura e a maior capacidade manufatureira da história.
A Europa, por sua vez, dispõe de capital acumulado, engenharia, universidades, centros de pesquisa, tradição industrial e um grande mercado consumidor. Essas economias não são naturalmente rivais, mas profundamente complementares.
Já existem ligações físicas capazes de sustentar essa integração. Hoje é possível transportar mercadorias por ferrovia entre os centros industriais chineses e as principais cidades e portos europeus.
As rotas construídas nas últimas décadas materializam uma realidade que a propaganda geopolítica não consegue eliminar. Europa e China pertencem ao mesmo continente e possuem interesses econômicos que podem convergir.
Um grande espaço econômico conectando Europa, Rússia, China e o restante da Ásia teria capacidade de reduzir a dependência do dólar, ampliar o comércio regional e acelerar investimentos em energia, transporte e tecnologia.
Seria também a única configuração internacional com força suficiente para limitar de maneira efetiva o poder dos Estados Unidos. Por isso, impedir a integração eurasiática constitui um objetivo permanente da política externa norte-americana.
Washington trabalha há décadas para manter a Europa afastada de Moscou e de Pequim. Guerras, sanções, bloqueios comerciais e campanhas diplomáticas servem para interromper qualquer aproximação capaz de ameaçar a hegemonia americana.
A guerra na Ucrânia aprofundou essa separação. A Europa perdeu acesso a energia russa barata, aumentou seus gastos militares e ampliou a compra de armamentos e combustíveis norte-americanos.
Os custos foram socializados entre trabalhadores, consumidores e empresas europeias. Os benefícios ficaram concentrados na indústria bélica, nas companhias de energia e no sistema financeiro dos Estados Unidos.
Mesmo diante das ameaças e dos atropelos de Donald Trump ao direito internacional, os governos europeus mantêm uma atitude de silêncio e submissão. Aceitam aumentar despesas militares e reorganizar suas economias para atender às prioridades estratégicas da Casa Branca.
A escolha apresentada como defesa do Ocidente é, na prática, uma renúncia à soberania europeia. A Europa sacrifica sua competitividade para financiar uma nova Guerra Fria formulada em Washington.
É nesse contexto que deve ser compreendido o estudo da consultoria EY-Parthenon, divulgado pelo Financial Times. O levantamento calcula quanto custaria aos países ocidentais se desacoplar da China em setores estratégicos como manufatura, tecnologia e infraestrutura.
Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido precisariam investir US$ 23,6 trilhões adicionais até 2050. O valor inclui a reconstrução de fábricas, centros de pesquisa, sistemas de software, infraestrutura e cadeias de fornecimento atualmente vinculadas à economia chinesa.
A maior parcela caberia aos Estados Unidos, com US$ 13,7 trilhões. A zona do euro teria de desembolsar US$ 9,1 trilhões, enquanto o Reino Unido precisaria investir outros US$ 800 bilhões.
O esforço coletivo seria próximo de US$ 1 trilhão por ano durante um quarto de século. Esse dinheiro teria de ser somado aos investimentos já necessários em energia, defesa, digitalização, infraestrutura e transição climática.
Para a União Europeia, o esforço equivaleria a quase duplicar seu orçamento anual. Trabalhadores e consumidores pagariam a conta por meio de impostos, cortes de gastos públicos e aumento dos preços.
Mats Persson, ex-assessor do governo britânico e atualmente sócio da EY-Parthenon, reconhece a dimensão do problema. Reconstruir cadeias de fornecimento sem impor custos proibitivos aos contribuintes e consumidores será um dos maiores desafios das próximas décadas.
Traduzindo do economês, o desacoplamento é uma fantasia ideológica que a realidade material não autoriza. A economia mundial não pode ser desmontada e reconstruída por decreto sem provocar inflação, escassez e perda de produtividade.
A China ocupa posições centrais em cadeias que vão dos minerais estratégicos aos medicamentos. A Agência Internacional de Energia projeta que o país continuará dominando o refino de lítio, cobalto, grafite para baterias e terras raras.
Pequim também controla etapas fundamentais da fabricação de componentes eletrônicos, máquinas industriais e princípios ativos farmacêuticos. Essa posição concede à China capacidade de reagir às tentativas de bloqueio econômico.
Os próprios Estados Unidos já experimentaram esse limite. Quando Washington elevou as ameaças tarifárias, Pequim respondeu com controles sobre a exportação de terras raras.
A reação chinesa ameaçou paralisar linhas de montagem automotivas na Europa e nos Estados Unidos. Washington foi obrigado a negociar uma trégua antes que a falta de componentes provocasse uma crise industrial mais profunda.
Há ainda o impacto direto sobre a inflação. Em diversos setores estratégicos, os produtos chineses chegam ao mercado com preços muito inferiores aos dos concorrentes ocidentais.
Romper com essa produção elevaria custos industriais e preços ao consumidor. Os bancos centrais europeus seriam obrigados a conviver com pressões inflacionárias provocadas por uma decisão essencialmente geopolítica.
Mesmo os defensores da estratégia já admitem que o resultado possível seria apenas um desacoplamento parcial, seletivo e extremamente caro. O Ocidente continuaria dependendo da China, mas com custos maiores e menor competitividade.
O estudo da EY-Parthenon não revela apenas o preço de uma política econômica. Ele coloca um valor sobre a submissão estratégica da Europa aos Estados Unidos.
A escolha europeia não é entre Washington e Pequim. É entre permanecer subordinada a um império em declínio ou participar soberanamente da construção de um mundo multipolar.
Para recuperar sua independência, a Europa terá de se reconciliar com a Eurásia e se aproximar do Sul Global. O velho centro do imperialismo talvez descubra que seu futuro depende, finalmente, do anti-imperialismo.


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