Por Rollo — especializado em desconfiar de histórias perfeitas demais, fotografias brancas demais e rebeldias que só enfrentam o sistema depois de confirmar o patrocínio.
Na semana em que se comemora o Dia Mundial do Rock, em 13 de julho, vale aumentar o volume não apenas das guitarras, mas também das perguntas que a nostalgia costuma abaixar.
Toda geração tem sua nostalgia. Tem gente que sente saudade da infância. Tem gente que sente saudade do Fusca. E tem quem trate o Rock Brasil dos anos 1980 como se tivesse sido a última manifestação cultural antes da Segunda Vinda de Keith Richards. Calmaê! Este artigo não é contra o BRock. Muito menos contra Titãs, Barão Vermelho, Blitz, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii ou Nenhum de Nós. O problema não é a música. É a fotografia! Porque existe uma pergunta que continua desafinando mais de quarenta anos depois: onde estavam os artistas negros do rock brasileiro?
O rock nasceu negro. No Brasil, passou por um curioso processo de “branqueamento editorial”. Sem Chuck Berry, Little Richard, Bo Diddley e Jimi Hendrix, simplesmente não existiria rock. Ponto. Não existiria riff, guitarra como protagonista, nem existiria solo. Muito menos existiria o sujeito pulando do amplificador achando que inventou a rebeldia. O rock nasce da cultura negra. Mas, curiosamente, quando ele vira produto milionário no Brasil dos anos 1980, parece entrar numa máquina de lavar identidades.
Sai praticamente branco. Branco tipo comercial de margarina de domingo na tevê. Ou reunião de condomínio na Barra discutindo a cor da fachada. A rebeldia tinha CEP. E o BRock surge no momento perfeito: fim da ditadura, explosão das rádios FM. Gravadoras procurando uma juventude urbana para vender discos, camisetas e um certo sentimento de contestação. Funcionou. Produziu discos excelentes, letras memoráveis, bandas fundamentais. Mas também produziu um retrato muito específico do Brasil. O Brasil das capas de LP parecia ter descoberto um fenômeno demográfico inédito: um país onde quase não existiam músicos negros tocando rock. Curioso: Porque bastava sair do estúdio e pegar um ônibus para descobrir que o Brasil continuava sendo o Brasil. E o truque não era musical. Era editorial. Se um músico branco misturava guitarra com reggae, soul ou blues, a crítica dizia: “Que moderno!”, “Que sofisticado!”, “Revolucionário!”. Se um músico negro fazia exatamente a mesma coisa, vinha outro carimbo. Soul. Black Music. MPB, Funk. Tudo menos rock. A guitarra era a mesma, o amplificador também. Até os acordes. Mudava apenas a melanina de quem segurava o instrumento.
Os negros estavam tocando. Só não estavam na capa
Muito antes da explosão do BRock, Tony Tornado já colocava plateias abaixo desde o fim dos anos 1960 e ao longo de toda a década de 1970, com uma presença de palco que faria muito vocalista de rock parecer poste de iluminação pública. Hyldon, desde meados dos anos 1970 e durante os anos 1980, fazia rock, soul e guitarras com elegância absurda. Sandra de Sá misturava rock, funk e soul quando boa parte do mercado ainda tentava descobrir como afinar um sintetizador. Em São Paulo, Itamar Assumpção reinventava tudo: o Rock, o Reggae, o Funk, a Poesia, a Performance. Mas, curiosamente, quase nunca aparecia na prateleira chamada “rock brasileiro”. Já Clemente Tadeu Nascimento, dos Inocentes, provava que, quanto mais underground era a cena, mais parecida ela ficava com o Brasil real. Quanto mais comercial… mais ela parecia assembleia de condomínio!
O documentário entrega mais do que pretendia
Existe uma cena maravilhosa no documentário de Tetê Mattos sobre a Fluminense FM, a lendária Maldita. Imagens de grandes eventos promovidos pela rádio. E o que aparece? Centenas, às vezes milhares de jovens negros, suburbanos, periféricos. Cantando, pulando, comprando ingresso, lotando ginásios, dando audiência, comprando discos. Sustentando financeiramente aquele mercado. É impossível não perceber (e quem viveu isso sabe). A plateia parecia Brasil. O palco parecia outra coisa.
A pergunta surge sozinha. Os pretos dos anos 1980 serviam apenas para comprar ingresso, levantar os braços na hora do refrão, dar audiência para as FMs e fazer figuração nas imagens dos shows? Porque, quando chegava a hora da capa da revista, da entrevista de domingo ou da lista dos “grandes nomes do rock nacional”, essa multidão parecia evaporar. Até quando apareciam… desapareciam.
Há um detalhe quase esquecido da história do BRock: a formação inicial da Legião Urbana contou com um músico negro: Renato Rocha, conhecido como Negrete, baixista talentoso que participou da consolidação da banda e de discos fundamentais. Agora faça um teste: pergunte a dez fãs de rock brasileiro quem foi Renato Rocha. Provavelmente muitos responderão com um sincero silêncio. E esse silêncio também faz parte da história. Outros falarão sobre a relação de Negrete com as drogas. Depois do sucesso, o artista foi do firmamento às profundezas: enfrentou dificuldades financeiras, passou anos longe dos holofotes e chegou a viver em situação de extrema vulnerabilidade, em situação de rua, dependência química, tudo retratado pela imprensa. Morreu em 2015, aos 53 anos, praticamente esquecido pelo grande público, na completa miséria.
Não, isso não prova que a banda era racista! Seria intelectualmente desonesto afirmar isso. Mas ajuda a revelar outro tipo de apagamento: o da memória. Porque, no Brasil, às vezes a exclusão não acontece só antes do sucesso. Ela continua depois dele. E o racismo nem sempre usa coturno, às vezes usa planilha. Às vezes atende por “perfil artístico”. Às vezes vem embalado como “estratégia comercial”.
Às vezes simplesmente decide quem vai tocar na rádio. Quem vai aparecer no Fantástico. Quem vai ganhar capa de revista. Quem vai entrar para os livros. E quem ficará restrito às notas de rodapé. O racismo estrutural raramente precisa levantar a voz.
Ele costuma apenas controlar o refletor.
O BRock foi racista?
Talvez essa seja a pergunta errada. A pergunta mais útil talvez seja outra: o mercado que construiu o BRock reproduziu um padrão de exclusão racial que já existia na sociedade brasileira? A resposta parece bem menos confortável. E bem mais próxima da realidade. O rock ensinou uma geração a questionar tudo, menos a si mesmo. E talvez tenha chegado a hora: não se trata de cancelar discos, nem de diminuir artistas extraordinários. Trata-se apenas de completar a fotografia. Afinal, um gênero musical criado por negros chegou ao Brasil, conquistou milhões de fãs negros, encheu ginásios de jovens negros, movimentou o dinheiro de consumidores negros… e, décadas depois, ainda consegue contar sua própria história como se os negros tivessem participado principalmente da plateia. Convenhamos. Para um movimento que dizia combater o sistema, reproduzir uma parte tão previsível dele foi um solo desafinado. E talvez o maior ato de rebeldia, quarenta anos depois, seja simplesmente ligar outra guitarra. Aquela que sempre esteve no palco. E que só esqueceram de apontar o canhão de luz para ela.
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi. E atualmente participa da produção do Espaço de Cinema Cavídeo em Vicente de Carvalho, Rio.


Padre Antônio Rocha
19/07/2026
A matéria toca um ponto fundamental: a perda das raízes. O rock brasileiro, assim como a própria sociedade, parece ter-se entregado a uma narrativa que apaga a memória de quem realmente construiu a cena. A mesma lógica que hoje tenta impor pautas sem lastro na tradição também atua na música. Pergunto: quantas das bandas atuais ainda se dão ao trabalho de reconhecer e homenagear os pioneiros que ousaram fazer som sem medo da censura moral da época? É mais um sintoma do secularismo que apaga o passado.
João Batista Alves
19/07/2026
O artigo toca numa ferida que a modernidade insiste em ignorar: o apagamento das raízes. O rock, que nasceu do encontro do gospel com o blues nas comunidades negras americanas, hoje é tratado como produto descartável, e o BRock repete esse erro ao celebrar o estilo sem honrar seus pioneiros. Não é só questão de nostalgia, mas de justiça com a história e com os valores que deram base a essa música – disciplina, talento e, muitas vezes, fé. Pergunto: quantos jovens que se dizem roqueiros hoje conhecem ao menos o nome de Little Richard ou Chuck Berry, ou só repetem o que a indústria empurra?
Adriano
19/07/2026
O tecladista do paralamas é negro também, mas nunca foi oficialmente da banda, pois quando se fala em Paralamas são apenas três. Mas ele tá lá, na “cozinha”, tocando os teclados desde a década de 80! Seu nome? João Fera!