Conversas em Mascate reacendem aposta diplomática após meses de escalada militar
Abbas Araghchi saiu do palácio com o semblante sério, mas com uma frase que soou como alívio contido. O ministro das Relações Exteriores do Irã classificou as negociações indiretas com os Estados Unidos como “um ótimo começo”. Ele fez o comentário ao vivo, ainda em Muscat, para a televisão estatal. No entanto, Araghchi logo completou: os negociadores precisam voltar para casa e conversar com seus líderes antes de seguir adiante.
O diplomata de 63 anos contou que as rodadas foram várias. Ele disse que o foco ficou em montar uma estrutura para conversas futuras. Assim, Teerã mostra que quer dialogar, mas não abre mão de cautela.
Omã mais uma vez provou sua utilidade. O sultanato abriu as portas de um palácio discreto, perto do aeroporto de Mascate. Autoridades iranianas chegaram primeiro. Depois, quando saíram, entrou o comboio americano. Cada lado falou separadamente com Badr al-Busaidi, o chanceler omanita.
Jornalistas viram tudo de perto. Os veículos iranianos deixaram o local. Em seguida, um SUV com bandeira dos EUA entrou e ficou cerca de noventa minutos. Por fim, o palácio esvaziou. Ninguém confirmou se o dia terminou ali ou se haveria mais encontros.
Os dois países voltaram a Omã depois de meses de silêncio. Tudo parou após a guerra curta, mas brutal, de junho. Israel atacou o Irã. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares. Muitas centrífugas que enriqueciam urânio provavelmente foram destruídas. Israel ainda derrubou defesas aéreas e atingiu mísseis balísticos iranianos.
Dentro do país, protestos tomaram as ruas. O governo respondeu com mão pesada. Milhares morreram. Dezenas de milhares foram presos. Essa repressão deixou o regime de Ali Khamenei mais frágil do que em qualquer outro momento desde 1979.
O comunicado de Omã surpreendeu. Além de Araghchi e Steve Witkoff, o enviado americano, estavam lá Jared Kushner, genro de Donald Trump, e o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central dos EUA. Nunca um militar de tão alto posto havia participado dessas rodadas.
Omã afirmou que as consultas prepararam o terreno para retomar negociações diplomáticas e técnicas. O texto falou em “segurança e estabilidade sustentáveis”. Apesar disso, nem Washington nem Teerã soltaram detalhes próprios.
Araghchi escreveu no X logo depois: “o Irã entra na diplomacia de olhos abertos e com uma memória sólida do ano passado”. Ele seguiu: “Os compromissos precisam ser honrados. Igualdade de condições, respeito mútuo e interesse mútuo não são retórica — são imprescindíveis e os pilares de um acordo duradouro.”
Ali Shamkhani, assessor próximo de Khamenei, reforçou o apoio. Ele disse que Araghchi é “um negociador habilidoso, estratégico e confiável”. Além disso, garantiu que soldados e diplomatas protegerão os interesses nacionais sob ordens do líder supremo.
Marco Rubio deixou claro o que Washington quer. Ele afirmou que as conversas precisam tratar de vários temas. “Não tenho certeza se você conseguirá chegar a um acordo com esses caras, mas vamos tentar descobrir”, disse o secretário de Estado.
Propostas informais chegaram pelo Egito, Turquia e Catar. Elas sugeriam parar o enriquecimento por três anos, mandar urânio para fora e limitar mísseis. Teerã rejeitou na hora. Shamkhani avisou: encerrar o programa ou entregar material está fora de questão. Assim, o caminho continua estreito.
Países árabes do Golfo assistem tensos. Um novo ataque poderia incendiar toda a região. Já houve alertas: americanos derrubaram drone iraniano perto do USS Abraham Lincoln. O Irã tentou interceptar navio americano no Estreito de Ormuz. Portanto, o risco de guerra maior não desapareceu.
Os protestos do mês passado mostraram o quanto o povo iraniano está cansado. Cidadãos comuns saíram às ruas em várias cidades. Eles pediam mudanças. O governo respondeu com violência. Milhares perderam a vida. Famílias inteiras sofreram prisões. Essa dor interna não pode ser ignorada. Ela também dificulta o diálogo externo, porque o mundo vê como Teerã trata seus próprios cidadãos.
Depois de tanta destruição, o simples fato de sentarem à mesa já é um avanço. Omã criou espaço para conversa em vez de bombas. Assim, os dois lados escolheram palavras em vez de mísseis. Essa decisão beneficia não só Irã e Estados Unidos, mas toda uma região que deseja viver em paz.
Ainda não se sabe quando as conversas vão continuar. Araghchi precisa consultar Teerã. Witkoff e Kushner seguem viagem. Apesar disso, a reunião desta sexta-feira deixou uma fresta aberta. Agora cabe aos líderes, em Washington e em Teerã, decidir se vão atravessar essa porta com boa-fé. Somente assim um acordo pode nascer e trazer alívio para milhões que já sofreram demais.


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