Israel tem intensificado medidas que líderes palestinos, autoridades religiosas muçulmanas e cristãs e governos de diversos países denunciam como tentativa de alterar a identidade religiosa de Jerusalém e romper o status quo histórico que regula o acesso e os rituais nos locais sagrados.
Essas ações envolvem fechamentos frequentes, restrições ao culto, intervenções estatais e permissões para grupos judeus realizarem práticas em áreas tradicionalmente reservadas a muçulmanos, o que se entrelaça com disputas territoriais e identitárias mais amplas.
O complexo da Mesquita Al-Aqsa, conhecido também como Al-Haram al-Sharif, e a Igreja do Santo Sepulcro foram totalmente fechados em várias ocasiões, especialmente durante o Ramadã e as celebrações pascais, sob alegação de razões de segurança ligadas ao conflito em curso.
O cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, foi impedido de entrar na Igreja do Santo Sepulcro para a celebração do Domingo de Ramos — situação que, segundo relatos oficiais, não ocorria há séculos. Essas restrições atingiram fiéis comuns e líderes religiosos de forma simultânea.
Paralelamente, grupos judeus realizaram incursões no recinto administrado pela autoridade muçulmana Waqf, com relatos de orações, cantos e sacrifícios de animais — práticas vedadas pelos acordos vigentes.
Autoridades do Waqf acusam o governo israelense de bloquear o acesso de seus funcionários ao local e de impedir reparos rotineiros em portas, instalações sanitárias e outras estruturas essenciais à preservação do complexo.
O status quo remonta ao Império Otomano, foi reforçado no mandato britânico e incorporado em tratados como o de Paris de 1856 e o de Berlim de 1878, garantindo liberdade de culto, administração diferenciada e proteções específicas.
Desde 1967, Israel tem evitado reafirmar formalmente esse marco, priorizando o conceito de liberdade de acesso que, na prática, tem permitido alterações unilaterais no equilíbrio consolidado ao longo de séculos.
Governos da Turquia, do Egito, da Jordânia, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, da Indonésia e do Paquistão emitiram declarações conjuntas condenando as restrições como violações do direito internacional e do direito humanitário, exigindo reversão imediata das medidas que classificam como discriminatórias.
O Escritório Islâmico Waqf, representações cristãs locais e a administração da Igreja do Santo Sepulcro descreveram as proibições impostas a figuras religiosas durante cultos centrais como manifestamente desproporcionais.
Carta formal enviada pelo Estado da Palestina à ONU destaca a gravidade das ações e clama por intervenção que preserve os sítios sagrados e o cumprimento das obrigações internacionais.
As justificativas israelenses, ancoradas em estado de emergência e segurança, são amplamente contestadas por não explicarem a seletividade das restrições, que recaem sobre muçulmanos e cristãos enquanto facilitam atividades de grupos judeus em espaços sob gestão waqf.
Segundo extensa análise publicada pelo Countercurrents, o atual contexto de conflito vem sendo explorado para normalizar novas regras que impõem controle absoluto, limitam o papel institucional de cristãos e muçulmanos e configuram segregação religiosa de fato.
Analistas observam que a deterioração progressiva do status quo ameaça o pluralismo religioso na Cidade Velha de Jerusalém e afeta diretamente a memória histórica e a identidade coletiva palestina, para quem esses locais representam pilares fundamentais.
A situação gerou apelos por ação internacional mais robusta, incluindo resoluções da ONU, revisões de acordos de custódia e pressão diplomática para restaurar o equilíbrio histórico.
A preservação prática do status quo é considerada por muitos observadores o último instrumento jurídico capaz de impedir a supremacia unilateral sobre os espaços sagrados e de manter o caráter multi-religioso que define Jerusalém há séculos. O desfecho dessa disputa definirá não apenas regras de acesso físico, mas também qual versão da cidade será reconhecida pela comunidade internacional.
Com informações de aljazeera.com.
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