O revés mais recente da política externa de Washington no Oriente Médio não é apenas um tropeço diplomático; é um sintoma claro do esgotamento do poderio militar americano no Sul Global. O presidente Donald Trump foi forçado a suspender abruptamente a operação “Projeto Liberdade” – uma tentativa de romper o bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz – apenas 36 horas após o seu início.
O motivo? A Arábia Saudita, historicamente vista como um Estado cliente e parceiro incondicional dos EUA, bloqueou o uso de suas bases militares, como a Base Aérea Prince Sultan, e proibiu o sobrevoo de aeronaves americanas em seu espaço aéreo para a operação. A atitude pegou Washington de surpresa e demonstrou uma ruptura profunda na confiança entre a monarquia saudita e o império ocidental.
Como apontou o analista geopolítico Arnaud Bertrand, “isso é gigantesco e confirma que a noção de que os sauditas estavam apoiando discretamente a guerra dos EUA contra o Irã era um mito completo”. Bertrand vai além ao questionar a lógica imperial: “Nunca fez sentido para começar: dadas as consequências devastadoras eminentemente previsíveis que a guerra teve na Arábia Saudita, por que diabos eles teriam concordado com isso? Isso também confirma que os sauditas — e, suspeito, muitos outros atores na região — não veem mais a presença militar dos EUA em seu solo como uma garantia de segurança, mas sim como um vetor de insegurança”.
O que assistimos é o resultado de uma estratégia brilhante do eixo de resistência. A instabilidade gerada não afastou os países vizinhos do Irã, mas sim os forçou a perceber que o verdadeiro perigo para sua estabilidade é a interferência belicista norte-americana. Nas palavras de Bertrand: “Muitas pessoas estavam se perguntando qual possível cálculo estratégico o Irã poderia ter ao ‘bombardear irracionalmente todos os seus vizinhos’, como muitos colocavam. Bem, o ponto central era precisamente para que esses vizinhos fizessem exatamente o que os sauditas acabaram de fazer. Q.E.D.”
Enquanto a diplomacia multipolar liderada pelo Sul Global ganha força – com o Paquistão atuando como mediador de um acordo de paz e o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, exigindo um cessar-fogo abrangente urgente –, o governo dos EUA continua preso à sua retórica de “bombardeá-los até o inferno” (como Trump declarou).
Essa mentalidade de supremacia militar já não encontra solo fértil no Novo Mundo. Outros aliados do Golfo, como o Catar e Omã, também expressaram desconforto, com Doha enfatizando a urgência de uma desescalada. A suspensão da operação revela uma América imperial isolada, incapaz de ditar os rumos de uma região que agora prioriza a própria sobrevivência e o pragmatismo geopolítico em vez de servir como bucha de canhão para as ambições de Washington.
A Arábia Saudita, ao puxar o freio de mão dos jatos americanos, manda um recado não apenas para a Casa Branca, mas para o mundo inteiro: o tempo das intervenções unilaterais sem consequências acabou. O Irã, através da paciência estratégica, venceu esta rodada, e o tabuleiro do Oriente Médio nunca mais será o mesmo.


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