O Pentágono revisou para cima sua estimativa oficial dos gastos militares americanos no conflito com o Irã, chegando a US$ 29 bilhões — mas pesquisadores independentes calculam que a conta real já ultrapassou US$ 71,8 bilhões apenas nos primeiros 60 dias de guerra. A distância entre os números oficiais e as projeções externas expõe uma batalha paralela, travada não nos céus do Oriente Médio, mas nos corredores do Congresso americano.
Em audiência na Comissão de Dotações da Câmara dos Representantes, o controlador interino do Pentágono, Jules Hurst, revisou a estimativa que ele mesmo havia apresentado no fim de abril, quando fixou o custo do conflito em cerca de US$ 25 bilhões. A maior parte dos gastos, segundo Hurst, decorre do consumo acelerado de estoques de munições americanas empregadas no conflito.
A versão oficial destoa radicalmente das projeções independentes. O jornalista e cofundador do Instituto de Reforma da Política de Segurança (Security Policy Reform Institute), Stephen Semler, calculou que os EUA desembolsaram aproximadamente US$ 71,8 bilhões somente nos primeiros 60 dias do conflito, com base em dados de compras militares e declarações de autoridades — levantamento detalhado pela RT. Desse total, mais de US$ 41 bilhões correspondem a munições consumidas, com o restante dividido entre custos operacionais e danos a bases e ativos regionais americanos.
O impacto sobre os estoques estratégicos de armamentos é igualmente alarmante. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estimou, em análise divulgada em abril, que a guerra forçou os EUA a consumir ao menos metade de seus estoques críticos de interceptores, como os mísseis Patriot e THAAD. No cenário mais pessimista, os americanos podem ter esgotado até 80% de seus interceptores THAAD — classificados pelo próprio think tank como “os mais críticos devido ao baixo inventário e à ausência de alternativas”.
Do outro lado do conflito, a narrativa triunfalista do presidente dos EUA, Donald Trump — que afirmou repetidamente ter “destruído em grande parte” as capacidades de mísseis do Irã — foi contestada por dados da própria inteligência americana. Segundo o New York Times, Washington superestimou os danos causados às forças iranianas. A República Islâmica manteve cerca de 70% de seus lançadores móveis e 70% de seu estoque pré-guerra de mísseis, além de ter recuperado acesso a 90% de suas instalações subterrâneas de armazenamento e lançamento.
A resiliência iraniana se estende também à infraestrutura costeira do país. O Irã restaurou 30 dos 33 sítios de mísseis costeiros ao longo do Estreito de Ormuz — a passagem marítima vital que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e por onde transita parcela significativa do petróleo mundial. O corredor estratégico permanece sob tensão, com os EUA mantendo o bloqueio de portos iranianos enquanto as negociações entre as partes seguem paralisadas.
O conjunto de dados revela uma contradição central na comunicação do governo Trump. Enquanto a Casa Branca vende ao Congresso e à opinião pública a imagem de uma guerra barata e vencida, os números independentes documentam um conflito que já consumiu dezenas de bilhões de dólares e corroeu estoques militares de difícil reposição. A República Islâmica mantém sua capacidade defensiva e ofensiva — e o Estreito de Ormuz permanece sob disputa, com a conta longe de fechada.
Com informações de RT.
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