O diretor de teatro Jorge Farjalla, responsável por produções como ‘Ópera do Malandro’ e ‘Clara Nunes – A Tal Guerreira’, está desenvolvendo uma nova montagem da peça ‘Valsa nº 6’, de Nelson Rodrigues. A produção será um monólogo estrelado pela atriz Carol Costa e abordará discussões sobre abuso e violência contra mulheres e crianças.
Os ensaios da peça tiveram início em maio, mês que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado no dia 18. Farjalla decidiu explorar essa temática após se aprofundar em estudos sobre violência durante o desenvolvimento de seus trabalhos anteriores, conforme informou a coluna de Monica Bergamo na Folha de S.Paulo.
O texto original de Nelson Rodrigues acompanha a história de Sônia, uma adolescente de 15 anos que foi assassinada. A trama se desenrola enquanto a personagem tenta reconstruir as memórias fragmentadas de sua vida e de sua morte, buscando entender a tragédia que a vitimou.
A escolha de Carol Costa para o papel principal promete trazer uma interpretação intensa à montagem. Farjalla, ao revisitar a obra de Rodrigues, direciona o olhar do espectador para questões que permanecem urgentes na sociedade brasileira.
A peça se insere em um contexto de crescente debate sobre violência de gênero e proteção à infância no país. O teatro, nesse sentido, funciona como espaço de confronto com realidades que frequentemente permanecem silenciadas no cotidiano.
A data de estreia ainda não foi divulgada pela produção. Farjalla acumula décadas de experiência nos palcos brasileiros e é reconhecido por trabalhos que dialogam com a dramaturgia nacional e temas sociais.
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Marta Souza
18/05/2026
Célio, sua reação raivosa a uma peça sobre violência doméstica é sintomática de quem acha que o problema não existe porque nunca sentiu na pele. Mas olha, se o teatro privado está montando essa peça, é porque tem PÚBLICO pagando para ver. Mercado é isso: oferta e demanda. Se você não gosta, não compre ingressos. Simples. Ninguém precisa de censor estatal pra decidir o que é arte válida — o consumidor resolve sozinho.
Marta
18/05/2026
Marta, minha querida, você levantou um ponto interessante sobre oferta e demanda, mas me permita discordar com carinho desse raciocínio tão liberalzinho. O mercado não é esse ente mágico que resolve tudo, não. Se fosse assim, ainda estaríamos comprando escravos em mercado público porque havia demanda. O fato de existir público pagante para uma peça sobre violência doméstica não a torna automaticamente “válida” ou “boa” — ela já É válida por escancarar uma chaga social que o Brasil insiste em varrer pra debaixo do tapete. A demanda existe porque MILHÕES de mulheres brasileiras reconhecem naquela história a própria vida, e não porque o “mercado” decidiu que é lucrativo. A diferença entre um produto qualquer e uma obra de arte é justamente essa: a arte não existe só pra entreter, existe pra cutucar ferida, pra formar consciência, pra incomodar.
O Célio ali em cima não está “exercendo o direito de não gostar”, está exercendo o direito de desqualificar o sofrimento alheio chamando de frescura uma epidemia que a OMS classifica como global. Isso não é gosto, é negacionismo. E o pior: é o mesmo negacionismo que faz com que uma em cada quatro mulheres brasileiras sofra violência doméstica segundo o Datafolha, e que três mulheres sejam assassinadas por dia no Brasil conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Você acha mesmo que o “consumidor resolve sozinho” quando o problema é estrutural? O consumidor resolve o preço do ingresso, mas não resolve a cultura do machismo que normaliza o abuso. O teatro do Farjalla está fazendo o papel que a escola pública sempre fez: educar. E educação incomoda mesmo, especialmente quem acha que tudo se resume a mercado.
Olha, eu dei aula durante quarenta anos na rede estadual de Minas, e vi menino que entrava na sala achando que bater em mulher era “normal” e saía no fim do ano com outro olhar. Não foi o mercado que mudou a cabeça daquele garoto, foi o conhecimento. Foi a arte. Foi a história mal contada que a gente resolveu contar direito. Essa peça do Nelson Rodrigues, que o Célio chama de “lacração”, é um clássico da dramaturgia brasileira e sempre tratou das sombras da alma humana. Se hoje ela ganha uma montagem com foco no abuso, é porque o Brasil finalmente está amadurecendo pra encarar o que sempre esteve ali, escondido atrás de portas fechadas. Negar isso não é “opinião divergente”, é cumplicidade com a violência. E eu, como professora aposentada que dediquei a vida a formar cidadãos, não posso ficar calada enquanto tratam uma questão de vida ou morte como se fosse disputa de torcida organizada.
Julia Andrade
18/05/2026
Marta, seu comentário levanta um ponto que merece ser desdobrado com mais cuidado, porque ele toca numa armadilha teórica que o liberalismo clássico insiste em disfarçar: a ideia de que o mercado é um mecanismo neutro de validação cultural. Você diz que, se o teatro privado monta a peça, é porque há público pagando, e que isso encerra a discussão. Mas o mercado não é um plebiscito espontâneo; ele é um campo de forças onde nem todos os consumidores partem do mesmo lugar. Uma mulher que viveu abuso pode pagar para ver a peça? Sim. Mas o silêncio de quem não paga também é registrado como “falta de demanda”? A lógica de oferta e demanda não capta a violência simbólica que faz com que certas vozes sequer cheguem à condição de consumidoras. O que o mercado registra é o desejo de quem tem capital cultural e econômico para entrar na sala de teatro – e isso não é a mesma coisa que a “vontade geral”.
Além disso, a peça em questão não é um produto qualquer, como um sabão em pó. Ela intervém num debate moral e político. Reduzi-la a uma transação de consumo – se não gosta, não compre – é um raciocínio que funcionaria para uma calça jeans, mas falha diante de uma obra que pretende escancarar um padrão estrutural de violência. A história da arte está cheia de exemplos em que o mercado inicialmente rejeitou obras que depois se tornaram canônicas, e também de obras que tiveram enorme sucesso de bilheteria enquanto perpetuavam estereótipos danosos. O público não é um bloco homogêneo de indivíduos racionais; ele é moldado por discursos hegemônicos. Se amanhã uma peça defendesse abertamente a misoginia e lotasse teatros, isso a tornaria eticamente válida? Claro que não. O mercado é um termômetro, não um juiz moral.
E aqui entra um ponto que acho crucial: Nelson Rodrigues, autor da Valsa nº 6, foi um dramaturgo que sempre provocou desconforto exatamente porque expunha as neuroses da sociedade brasileira. Mas ele também foi censurado pela ditadura militar – um regime que, aliás, também usava o argumento de que “o povo não quer ver isso”. Hoje, ver uma montagem que dá centralidade ao abuso contra mulheres não é “lacração”; é resgatar a potência crítica que a obra de Rodrigues sempre teve, mas que muitas montagens pasteurizadas escondem. O que o Célio chama de “frescuras” é, na verdade, o incômodo de quem prefere que a arte não mexa em feridas abertas. E aí, Marta, a lógica do “compre ou não compre” falha duplamente: primeiro, porque pressupõe um consumidor livre de condicionamentos sociais; segundo, porque ignora que a peça não está apenas sendo vendida – ela está dizendo algo sobre o mundo em que vivemos. Ignorar isso é tratar a arte como entretenimento descartável, e não como o espaço de confronto que sempre foi.
Celio Fazendeiro
18/05/2026
Mais um teatro lacrador usando Nelson Rodrigues pra fazer propaganda feminista. Essas frescuras de “violência contra a mulher” já encheram o saco. Cada um que cuide da sua vida e parem de vitimizar todo mundo.
Letícia Fernandes
18/05/2026
Caro Célio, é curioso como o desconforto diante de uma peça que trata de abuso contra mulheres provoca uma reação tão imediata de desqualificação. Você chama de “frescuras” um fenômeno que a Organização Mundial da Saúde classifica como epidemia global: uma em cada três mulheres sofre violência física ou sexual ao longo da vida. Mas compreendo que estatísticas são incômodas quando confrontam a fantasia de um mundo onde cada um “cuida da sua vida” como se fôssemos mônadas isoladas, sem determinações materiais e históricas. O individualismo burguês que você defende é justamente o mecanismo ideológico que permite que a violência estrutural contra a mulher permaneça na esfera do privado, no silêncio dos lares, longe do escrutínio público. Nelson Rodrigues, com toda sua misoginia contraditória, ao menos tinha a honestidade trágica de expor as feridas abertas da família brasileira – algo que sua postura, ao tentar varrer o tema para debaixo do tapete, revela como sintoma do recalque coletivo.
Quando você classifica como “vitimização” a coragem de mulheres em tornar público o que historicamente foi confinado ao segredo doméstico, está operando uma inversão típica da superestrutura conservadora: patologiza a denúncia em vez de patologizar o agressor. A psicanálise nos ensina que o sintoma retorna sempre – e a violência contra a mulher, quando silenciada, se reproduz em escala ampliada. Não se trata de “fazer propaganda feminista”, mas de reconhecer que a estrutura patriarcal se sustenta exatamente nessa recusa em enxergar o sofrimento do outro como problema coletivo. Sua indiferença não é neutra: é cúmplice.
O teatro, ao contrário do que sugere, não é “lacração” – é o espaço do simbólico onde as contradições sociais podem ser elaboradas. Fazer rir ou chorar sobre uma cena de abuso é menos violento do que a naturalização cotidiana que você pratica ao chamar de “frescura” o que mata milhares de mulheres todos os anos no Brasil. Se a peça te incomoda, talvez valha perguntar: o que exatamente, naquela cena, te lembra algo que você prefere não ver? Porque a violência não acaba quando fechamos os olhos – ela apenas continua, sem plateia, mas com vítimas reais.
Mariana Ambiental
18/05/2026
Célio, chamar de “frescuras” a denúncia de uma epidemia que a OMS classifica como global é confortável pra quem nunca esteve do lado de dentro da estatística. Desconforto com a arte que escancara abuso diz mais sobre o espectador do que sobre a peça.