Uma equipe de astrônomos liderada por Brian P. Powell, do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa, descobriu um sistema estelar triplo de configuração extremamente rara, no qual as três estrelas produzem eclipses triplos perfeitamente alinhados. A detecção foi feita com o satélite TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), da agência espacial americana, e os detalhes foram publicados no repositório arXiv.
O sistema, catalogado como TIC 295741342, está localizado a cerca de 3.080 anos-luz da Terra e tem idade estimada de 1,46 bilhão de anos. Ele é composto por um par binário de estrelas muito similares ao Sol que se eclipsam mutuamente a cada 4,75 dias, e uma terceira estrela gigante, com 1,7 vezes a massa solar e 10,6 vezes o tamanho do Sol, que orbita esse par a cada 1,13 ano.
A grande surpresa veio da geometria orbital: as três estrelas estão em um plano quase perfeitamente coplanar, com uma inclinação mútua estimada entre apenas 0,25 e 0,33 grau. Isso significa que, da perspectiva da Terra, a estrela gigante passa exatamente na frente das duas menores, produzindo um eclipse triplo com uma assinatura luminosa inconfundível, batizada pelos pesquisadores de curva de luz ‘cabeça e ombros’.
Quando o par binário cruza atrás da gigante, o sinal registrado pelo TESS exibe primeiro um ombro — a estrela secundária do binário eclipsada —, depois a ‘cabeça’ — o eclipse simultâneo das duas estrelas do par — e, em seguida, um segundo ombro, quando a estrela principal do binário emerge da traseira da estrela maior. Esse formato peculiar de curva de luz nunca havia sido observado em um sistema desse tipo, segundo o estudo liderado por Powell.
A gigante domina quase toda a luminosidade do sistema, respondendo por cerca de 95% da luz detectada na faixa observada pelo TESS, enquanto as duas componentes do binário contribuem com apenas 2,7% e 2,3%, respectivamente. Apesar da enorme diferença de brilho, a precisão do satélite foi suficiente para identificar a complexa dança de eclipses e revelar a arquitetura orbital do trio.
De acordo com a pesquisa, o sistema TIC 295741342 é um dos poucos exemplos conhecidos de estrelas triplas com eclipses triplos e uma companheira gigante. Mais notável ainda é o fato de apresentar a menor inclinação mútua já registrada nessa classe de objetos, o que reforça cenários de formação por fragmentação de disco seguida de migração orbital e dissipação de gás.
Os astrônomos destacam que a coplanaridade quase absoluta e a configuração compacta — a gigante está a apenas 1,7 unidades astronômicas do par binário — são pistas valiosas sobre como sistemas estelares múltiplos se formam e evoluem. A combinação de dados fotométricos do TESS com análises espectroscópicas permitiu não apenas caracterizar as estrelas, mas também medir com alta precisão suas massas, temperaturas e a metalicidade do sistema, estimada em -0,337 dex.
Os resultados completos, assinados por Powell e colaboradores, estão disponíveis no artigo ‘TIC 295741342: A Triply-Eclipsing Triple Star System with a Giant Tertiary’, que pode ser consultado na plataforma Phys.org. A descoberta amplia o catálogo ainda escasso de sistemas triplos com eclipses alinhados e oferece um laboratório natural único para testar modelos de dinâmica estelar e formação planetária em ambientes múltiplos.
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