Menu

Missão chinesa revela jardim microscópico com 32 espécies a 9 mil metros de profundidade no Pacífico

0 Comentários🗣️🔥 Imagem subaquática mostra ecossistema descoberto a 9 mil metros de profundidade no Pacífico. (Foto: interestingengineering.com) Nas profundezas abissais do Oceano Pacífico, onde a luz solar jamais penetra e a pressão esmagadora atinge níveis insuportáveis, um jardim microscópico repleto de vida desafia todas as convicções científicas. Uma expedição chinesa revelou a existência de um […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Imagem subaquática mostra ecossistema descoberto a 9 mil metros de profundidade no Pacífico. (Foto: interestingengineering.com)

Nas profundezas abissais do Oceano Pacífico, onde a luz solar jamais penetra e a pressão esmagadora atinge níveis insuportáveis, um jardim microscópico repleto de vida desafia todas as convicções científicas. Uma expedição chinesa revelou a existência de um ecossistema oculto com 32 espécies distintas, prosperando a quase 9 mil metros de profundidade.

O feito extraordinário foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Ciência e Engenharia de Mar Profundo (IDSSE), vinculado à Academia Chinesa de Ciências (CAS), no âmbito do Programa Global de Exploração Hadal (GHEP). Utilizando o submersível tripulado Fendouzhe (Striver), capaz de atingir mais de 10 mil metros, a equipe realizou 98 mergulhos entre 2020 e 2024 em sete regiões da zona hadal, incluindo as fossas Marianas e Kermadec.

A zona hadal, que se estende de 6.000 a 11.000 metros de profundidade, era considerada um deserto biológico devido às temperaturas glaciais, escuridão absoluta e pressão extrema. O nome da região, inspirado em Hades, o deus grego do submundo, refletia a crença de que ali a vida não poderia florescer de forma complexa.

Contudo, as imagens e amostras coletadas pelo Fendouzhe mostraram uma realidade vibrante e inesperada: organismos com dimensões milimétricas agarrados às superfícies rochosas expostas, formando densas colônias. A densidade populacional alcançou impressionantes 4.300 organismos por decímetro quadrado, uma exuberância biológica que surpreendeu os cientistas.

Ao todo, foram catalogadas 32 espécies de seis filos distintos, a maioria absolutamente nova para a ciência. O professor Peng Xiaotong, PhD, do IDSSE, destacou que os componentes mais inesperados foram quatro novas espécies de escala milimétrica que dominaram as assembleias da Fossa Kermadec.

Entre as descobertas taxonômicas, sobressaem uma nova família de foraminíferos uniloculares, batizada de Plumettidae, e uma notável família inédita de briozoários, os Pierrellidae. A forma de vida dominante no ecossistema, no entanto, são os foraminíferos aglutinados, popularmente chamados de ‘penas de rocha’, que podem assumir formatos filiformes, tubulares ou de domo.

Por décadas, acreditou-se que a fauna das trincheiras sobrevivia por quimiossíntese, um processo semelhante ao das fontes hidrotermais, obtendo energia de compostos químicos. As análises genéticas e metagenômicas, contudo, desvendaram um mecanismo muito mais prosaico, porém engenhoso.

Os pesquisadores encontraram grãos de pólen de pinheiro parcialmente digeridos no interior dos organismos, provando que eles são heterótrofos que se alimentam de detritos orgânicos, ou seja, literalmente ‘comem poeira’. Essa poeira nutritiva é canalizada pelas paredes em forma de V das fossas, que funcionam como um funil para a matéria orgânica que afunda das camadas superiores, enquanto correntes subaquáticas varrem as rochas para evitar o soterramento.

As ‘penas de rocha’ colonizam preferencialmente afloramentos rochosos verticais, onde o sepultamento por sedimentos é menos provável, permitindo que capturem com eficiência as partículas carreadas pelas correntes ascendentes. Esse engenhoso modo de vida, além de sustentar a comunidade, pode transformar esses organismos em um importante sumidouro de carbono nas profundezas.

O estudo estima que esses foraminíferos sésseis contribuem com algo entre dois e 11 por cento do total de carbono da biomassa eucariótica na zona hadal, configurando um inesperado hotspot de carbono. ‘Nossos resultados sugerem que as faunas de substrato duro hadal formam um importante reservatório de carbono’, concluiu Peng, citado pela reportagem do Interesting Engineering.

A presença de comunidades similares foi observada em rochas de outras fossas, como as Aleutas, Kuril-Kamchatka, Atacama e Mussau, indicando que o ecossistema pode ser difundido por todas as fossas oceânicas profundas do planeta. A expedição também estabeleceu novos recordes de profundidade para diversos grupos marinhos, incluindo a mais profunda espécie de briozoário, a 9.981 metros, e pólipos cifozoários, a 9.982 metros.

O trabalho monumental foi publicado no prestigioso periódico Science, sacramentando uma nova era para a oceanografia abissal. A descoberta não apenas reescreve capítulos da biologia marinha, como também acende um alerta sobre a fragilidade de ecossistemas tão remotos diante das ameaças da mineração em mar profundo.

A classificação dessas criaturas diminutas sempre foi um desafio para a taxonomia, devido ao seu tamanho reduzido e estruturas simplificadas. Foi apenas com o uso de ferramentas de sequenciamento genético e análise metagenômica que os cientistas conseguiram, pela primeira vez, confirmar a identidade biológica completa desses organismos.

O Programa Global de Exploração Hadal, patrocinado pela China, representa um salto tecnológico e científico que projeta o país como líder na exploração dos ambientes mais extremos da Terra. Enquanto outras nações ainda engatinham na pesquisa da zona hadal, o Fendouzhe já acumula dezenas de imersões, revelando segredos que vão muito além da mera curiosidade biológica.

As implicações do achado reverberam também para a compreensão dos ciclos biogeoquímicos globais, uma vez que o carbono armazenado no leito marinho profundo desempenha um papel crítico na regulação do clima. Em tempos de mudanças climáticas aceleradas, desvendar o funcionamento desses sumidouros naturais é tão urgente quanto buscar alternativas energéticas.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.




,
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes