O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro tornou-se a primeira baixa eleitoral de peso do Partido Liberal (PL) depois que o escândalo envolvendo o Banco Master e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu dos áudios revelados pela imprensa e atingiu diretamente o palanque fluminense da direita. Castro planeja anunciar nos próximos dias que não disputará mais a vaga ao Senado nem qualquer outro cargo eletivo, conforme apurações publicadas no Rio de Janeiro e em Brasília após duas operações da Polícia Federal em menos de 15 dias.
A decisão do ex-governador foi precipitada por investigações que entrelaçam o Banco Master, a empresa Refit e o escândalo do Ceperj, sigla para Centro de Estatísticas, Estudos e Pesquisas do Rio de Janeiro. O caso, que já era uma dor de cabeça jurídica, transformou-se em problema de chapa e de palanque para o PL no estado que historicamente funciona como vitrine do bolsonarismo.
A vaga aberta por Castro no Senado já provoca disputa nos bastidores do partido e do clã Bolsonaro. Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mãe de Flávio Bolsonaro, aparece entre os nomes lembrados pelo entorno bolsonarista para ocupar o espaço na corrida senatorial, embora a costura interna ainda dependa da palavra final do grupo familiar.
O ponto político central é que, se o caso Master já foi capaz de derrubar uma pré-candidatura ao Senado no reduto fluminense, a pergunta inevitável dentro do PL é quanto tempo o próprio Flávio Bolsonaro resiste carregando a mesma marca no peito como pré-candidato à Presidência da República. O senador foi citado em reportagens do Intercept Brasil que revelaram conversas e áudios com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, negociando R$ 134 milhões, cerca de US$ 24 milhões, para financiar o filme ‘Dark Horse’, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade e sustenta que apenas buscava patrocínio privado para uma produção cinematográfica sobre o pai. A oposição, no entanto, batizou a crise de BolsoMaster e acionou a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Receita Federal e o Tribunal de Contas da União (TCU) pedindo apuração sobre a extensão da relação entre o senador, Vorcaro, o banco e a estrutura financeira montada para bancar o longa-metragem.
Tentando virar a página, Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos e publicou uma foto ao lado do presidente Donald Trump, gesto que nega ter tido a intenção de desviar o foco do caso Master. O filho zero um do ex-presidente declarou não ter nada a esconder e voltou a defender a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Banco Master, em movimento interpretado por adversários como tentativa de constranger investigações.
A imagem com Trump pode animar a militância bolsonarista nas redes sociais, mas não resolve o buraco doméstico que já aparece nas pesquisas. Levantamento do Datafolha mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro em cenário de segundo turno, rompendo o empate técnico anterior e acendendo o sinal de alerta no QG da campanha.
A conexão com as eleições de 2026 é direta e incontornável. O caso BolsoMaster deixou de ser apenas um ruído midiático para afetar a montagem de chapas estaduais, a confiança de aliados e a percepção de riscos jurídicos entre os caciques do PL que precisam decidir se mantêm Flávio Bolsonaro como cabeça de chapa presidencial.
O desgaste no Rio de Janeiro é especialmente simbólico porque o estado sempre funcionou como laboratório do bolsonarismo e base de onde partiram as principais ofensivas políticas da família. Perder um nome como Cláudio Castro antes mesmo da largada oficial revela que a blindagem do clã já não é suficiente para conter o contágio de um escândalo financeiro que mistura produção cinematográfica, banco sob investigação e áudios comprometedores.
A crise também expõe a fragilidade do projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro, que tentou construir uma imagem de gestor moderado, mas carrega no currículo político o mesmo sobrenome que o conecta diretamente às investigações da Polícia Federal e às suspeitas de irregularidades no financiamento de iniciativas ligadas ao pai. O cálculo de que bastaria acenar ao mercado e posar com Trump para se viabilizar como candidato competitivo parece subestimar o acúmulo de fatores que pesam contra o clã.
A substituição de Castro por Rogéria Bolsonaro, se confirmada, aprofundaria ainda mais a percepção de que o PL fluminense funciona como extensão dos interesses familiares em vez de partido com projeto coletivo. A reprovação popular a esse modelo de política patrimonialista tende a crescer à medida que as investigações avançam e novos detalhes emergem sobre as relações financeiras que sustentam o bolsonarismo.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!