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NOAA confirma El Niño e prevê Super El Niño com 63% de probabilidade até o inverno

0 Comentários🗣️🔥 A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou que a Terra entrou oficialmente na fase quente do El Niño. E os prognósticos são de que este pode se tornar o mais intenso já registrado até o fim de 2026. Segundo o órgão americano, há 63% de probabilidade de que, até […]

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Imagem satelital mostra o fenômeno do El Niño com áreas de água quente no Pacífico. (Foto: sciencenews.org)
Imagem satelital mostra o fenômeno do El Niño com áreas de água quente no Pacífico. (Foto: sciencenews.org)

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou que a Terra entrou oficialmente na fase quente do El Niño. E os prognósticos são de que este pode se tornar o mais intenso já registrado até o fim de 2026.

Segundo o órgão americano, há 63% de probabilidade de que, até o inverno, o evento alcance a categoria de ‘muito forte’, conhecido coloquialmente como Super El Niño. A confirmação veio em 11 de junho, quando as temperaturas da superfície do mar no Pacífico equatorial já evidenciavam um aquecimento persistente.

O fenômeno El Niño, parte do ciclo conhecido como Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês), é marcado por meses de temperaturas oceânicas acima do normal na região leste do Pacífico equatorial. A expressão foi cunhada por pescadores peruanos no século 17, que notavam o aquecimento das águas na época do Natal e o batizaram de ‘El Niño’ — ‘o menino’, em referência ao Menino Jesus.

A ‘Oscilação Sul’ descreve uma gangorra de pressão atmosférica entre o leste e o oeste do Pacífico. Cientistas monitoram essa dança a partir de estações em Darwin, na Austrália, e no Taiti, na Polinésia Francesa. Em fases neutras ou de La Niña, ventos sopram do leste para o oeste, empurrando águas quentes em direção à Ásia e permitindo a ressurgência de águas frias e ricas em nutrientes na costa das Américas.

Mas, a cada poucos anos, a gangorra inverte: a alta pressão migra para o oeste e os ventos enfraquecem ou mudam de direção. As águas quentes permanecem estacionadas no leste, sufocando a ascensão das águas profundas e frias. O resultado é um rápido aquecimento da superfície do mar — o estopim do El Niño.

Não há dois eventos de El Niño exatamente iguais, ressalta o cientista climático Tom Di Liberto, pesquisador da organização Climate Central, baseada em Washington. Mas todos compartilham uma característica: transferem um volume colossal de calor do Pacífico tropical para a atmosfera. E essa injeção térmica pode elevar de forma dramática a temperatura média do planeta durante o episódio.

Um El Niño é oficialmente declarado quando a temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial oriental fica ao menos 0,5 °C acima da média por vários meses seguidos. Quanto mais quentes as águas, mais severos tendem a ser os impactos. Anomalias superiores a 2 °C sinalizam o início de um evento muito forte, o temido Super El Niño.

Desde abril, pesquisadores já observavam temperaturas persistentemente acima do normal naquela faixa do oceano. Dezenas de modelos ao redor do mundo anteviam a chegada iminente do fenômeno. Em junho, com o oceano ainda mais aquecido, as previsões passaram a apostar em um evento intenso.

Um complicador adicional é que as mudanças climáticas tornaram mais difícil detectar anomalias de temperatura que sinalizam a força de um El Niño. O aquecimento desigual de região para região bagunçou as referências históricas. Por isso, a NOAA adotou em maio uma nova ferramenta de previsão, o Índice Oceânico Relativo do Niño, que ajusta os cálculos para levar em conta o aquecimento global.

Com o novo índice, a NOAA calcula que, neste inverno, a temperatura da superfície do mar no Pacífico tropical oriental tem 63% de chance de ultrapassar em 2 °C a média histórica. Isso dispararia o alerta de Super El Niño, conforme detalhou reportagem da Science News.

Simulações climáticas já projetam temperaturas globais ‘chocantemente altas’ para novembro e dezembro, segundo Di Liberto. O calor extremo não traz apenas riscos de insolação e desidratação. Ele também favorece a explosão de doenças transmitidas por vetores, como cólera, tifoide e malária.

Além de aquecer o termostato planetário, o El Niño desloca a posição da corrente de jato do Pacífico. Isso significa que algumas regiões ficam mais secas, enquanto outras sofrem com chuvas torrenciais. Nos Estados Unidos, um dos efeitos mais sentidos é sobre os furacões: o fenômeno costuma intensificar os ciclones no Pacífico, ao mesmo tempo em que inibe a formação de furacões no Atlântico.

A história recente oferece exemplos eloquentes do poder destrutivo dos Super El Niños. O evento de 1997-1998 é o mais forte já documentado. Elevou a temperatura global média em 1,5 °C e desencadeou uma cascata de desastres: chuvas e inundações no Peru e no leste da África que provocaram surtos de febre do Vale do Rift; secas que alimentaram incêndios mortais no Sudeste Asiático; tempestades violentas com enchentes e deslizamentos na Califórnia.

O aquecimento oceânico daquele período também provocou o branqueamento de cerca de 16% dos recifes de coral do mundo. E, conforme um estudo publicado em 2023 na revista Science, os prejuízos econômicos globais atribuídos ao evento de 1997-1998 são estimados em cerca de 5,7 trilhões de dólares. O Super El Niño de 1982-1983 custou à economia mundial algo em torno de 4,1 bilhões de dólares.

O El Niño de 2015-2016 também foi classificado como muito forte e deixou marcas profundas na agricultura, na saúde pública e na infraestrutura de vários continentes. Ainda não se sabe se o evento atual atingirá o status de super. Mas Di Liberto adverte que, mesmo que seja apenas moderadamente forte, seus impactos podem ser dramáticos — simplesmente porque ele ocorre sobre uma base de temperaturas globais já aceleradas pelo aquecimento provocado pela ação humana.

‘Não seria necessário um El Niño muito forte para vermos recordes quebrados este ano’, afirma o cientista. O ciclo de vida do fenômeno é relativamente curto: normalmente se forma no verão, ganha força no inverno e se dissipa na primavera seguinte. Mas o calor que injeta na atmosfera pode reverberar por muito mais tempo.

A comunidade científica acompanha o desenrolar deste novo capítulo climático com um misto de fascínio e apreensão. O Pacífico equatorial, mais uma vez, prepara-se para mostrar que é o grande maestro do clima global — e a plateia, distribuída por todos os continentes, não tem escolha senão assistir e se preparar para as consequências.

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