O senador Jaques Wagner (PT-BA) afirmou a aliados que não pretende renunciar à liderança do governo no Senado, mesmo após ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal, segundo apurou a Folha de S.Paulo. A decisão expõe uma divisão profunda no PT baiano: de um lado, aliados calculam que um senador fragilizado prejudica o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Bahia em 2026; do outro, Wagner resiste, condicionando qualquer afastamento a um pedido direto do próprio presidente, escancarando que a última palavra não é da legenda, mas da relação pessoal entre os dois.
A operação da PF, deflagrada na última quinta-feira, investiga supostas irregularidades em contratos da Secretaria de Saúde da Bahia na gestão de Rui Costa (PT), hoje ministro da Casa Civil, mas que respingam em Wagner, que foi chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff e governador da Bahia antes de Rui Costa. Embora a PF não tenha apontado Wagner como alvo direto, o simples fato de ele estar no raio de ação da investigação gerou desconforto imediato entre aliados de Lula na Bahia, que temem que o desgaste de figuras centrais do PT no estado contamine o palanque eleitoral de 2026.
Wagner, contrariado com o que chama de “fogo amigo”, deve se reunir com Lula na próxima semana para discutir o futuro da liderança do governo no Senado. A interlocutores, o senador tem repetido que só deixará o cargo se o presidente pedir, sinalizando que não cederá a pressões internas do partido. A postura, no entanto, não é unânime. Integrantes do grupo político de Wagner contam que o senador tem ouvido opiniões favoráveis e contrárias ao seu afastamento da função.
Entre os que defendem o afastamento de Wagner da liderança, o cálculo é claro: a Bahia é o maior colégio eleitoral do Nordeste e um pilar estratégico para a reeleição de Lula em 2026. Em 2022, o presidente teve 72% dos votos válidos no estado, resultado que compensou perdas em outras regiões. Agora, com a polarização no país e a possibilidade de um candidato competitivo da direita, qualquer sinal de fragilidade da chapa petista na Bahia pode ser explorado pela oposição.
“A Bahia não pode ter um palanque com um líder do governo no Senado sob suspeita. Isso é combustível para a oposição”, disse um aliado de Wagner à Folha, sob anonimato. O temor é que a investigação, mesmo que não envolva Wagner diretamente, crie um ambiente de desconfiança entre os eleitores, especialmente se for explorada por adversários como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ou seus aliados, que tentam ampliar sua base no Nordeste.
Do outro lado do racha, aliados de Wagner argumentam que o senador é um dos quadros mais experientes do PT e que sua saída da liderança do governo no Senado seria uma vitória para a oposição. “O Wagner é um dos poucos que tem trânsito entre governo e oposição no Senado. Tirá-lo agora é dar um tiro no pé”, afirmou outro integrante do grupo político do senador. Para esse grupo, a operação da PF é uma tentativa de criminalizar o PT e fragilizar o governo Lula, e recuar seria ceder à pressão midiática e política.
A resistência de Wagner à pressão interna reflete a complexidade da relação entre o senador e Lula. Os dois são amigos de longa data, e Wagner foi um dos principais articuladores da campanha de Lula em 2022. A avaliação de aliados de Wagner é que Lula não pedirá seu afastamento, a menos que a situação se torne insustentável política e juridicamente. “O presidente não vai sacrificar um aliado leal por pressão de aliados que deveriam estar fechando fileira”, afirmou um interlocutor do senador.
No entanto, a postura de Wagner não é isenta de críticas. Setores do PT baiano, ligados ao governador Jerônimo Rodrigues e ao ex-governador Rui Costa, avaliam que o senador deveria se afastar voluntariamente para preservar o governo e o partido. Para esses setores, a recusa de Wagner em deixar a liderança do governo no Senado pode ser interpretada como egoísmo político e falta de compromisso com o projeto coletivo. “O projeto é maior que as pessoas. Se o Wagner não entende isso, pode acabar isolado”, disse uma fonte do PT baiano à Folha.
Enquanto o racha não se resolve, o governo Lula enfrenta um dilema político delicado. A liderança do governo no Senado é um cargo-chave para a articulação de projetos de interesse do Planalto, e a permanência de Wagner no cargo pode ser vista como um sinal de que o governo não dá importância à investigação da PF. Por outro lado, seu afastamento pode ser interpretado como uma admissão de culpa antes mesmo de qualquer conclusão das investigações.
A operação da PF que atingiu Wagner é parte de uma investigação sobre contratos da Secretaria de Saúde da Bahia entre 2015 e 2018, período em que Rui Costa era governador e Wagner já era senador. Embora Wagner não tenha sido citado diretamente no inquérito, a investigação apura contratos com empresas de gestão hospitalar que somam mais de R$ 1 bilhão. O fato de Wagner ter sido um dos articuladores do governo Costa na época o coloca no radar das investigações, mesmo que indiretamente.
Para o PT, o temor é que uma eventual crise na Bahia respingue em Lula não apenas eleitoralmente, mas também na governabilidade. Com o Congresso cada vez mais fragmentado e a oposição fortalecida após a vitória de Bolsonaro em São Paulo em 2024, qualquer instabilidade política pode ser explorada para dificultar a tramitação de projetos de interesse do governo no Senado.
A expectativa é que a reunião entre Wagner e Lula na próxima semana seja decisiva para selar o destino da liderança do governo no Senado. No entanto, aliados de Wagner já admitem que, mesmo que o senador permaneça no cargo, o desgaste já está feito. “O Wagner está sendo fritado pelo próprio partido. Isso enfraquece todo mundo”, disse um aliado. Enquanto a reunião não acontece, o PT baiano permanece dividido e o palanque de Lula na Bahia, em xeque.


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