Segundo a redir, a informação original serve de base para esta apuração.
A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República adotou oficialmente a cartilha golpista que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, usou para incendiar o país após a derrota em 2022. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, auxiliares e aliados do senador fluminense avaliam que decisões recentes do Supremo Tribunal Federal indicam uma disposição dos ministros de ignorar regras eleitorais e atuar de forma a prejudicá-lo na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A movimentação expõe um cálculo político meticuloso: ao mesmo tempo em que reativa a narrativa de perseguição judicial que mobiliza a base bolsonarista mais radical, o entorno de Flávio constrói as bases para contestar uma eventual derrota nas urnas em 2026. O receio de que ministros do STF atuem com parcialidade já foi exposto publicamente pelo próprio senador e pelo coordenador da pré-campanha, o também senador Rogério Marinho (PL-RN), que lideraram reuniões com o presidente da corte, ministro Edson Fachin, para apresentar suas queixas.
A estratégia repete, com impressionante fidelidade, o roteiro de 2022. Na ocasião, Jair Bolsonaro passou meses atacando a integridade das urnas eletrônicas e acusando o Tribunal Superior Eleitoral de conspirar contra sua reeleição mesmo sem apresentar uma única prova. A diferença agora é que a família Bolsonaro tenta se antecipar ao calendário, pressionando o Judiciário antes mesmo do início formal da campanha, como se preparasse o álibi para uma derrota que as pesquisas de intenção de voto já indicam como provável.
A insistência em deslegitimar as instituições eleitorais não é mero discurso de campanha. Aliados próximos do senador tratam abertamente da possibilidade de que mudanças nas atribuições do TSE possam afetar o resultado do pleito, o que revela uma tentativa de condicionar a opinião pública e os próprios integrantes do tribunal a um ambiente de desconfiança permanente. O objetivo é claro: se Flávio Bolsonaro perder, já haverá uma narrativa pronta para mobilizar seus apoiadores contra o resultado.
O temor expresso pela pré-campanha bolsonarista contrasta com a realidade institucional do país. O STF e o TSE atuaram em 2022 dentro de suas competências constitucionais para conter uma avalanche de desinformação e ataques ao sistema eleitoral, exatamente como fizeram cortes superiores em democracias consolidadas como a Alemanha e a França. A diferença é que, no Brasil, essas decisões legítimas foram transformadas em combustível para uma insurreição que culminou nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Ao repetir as acusações do pai, Flávio Bolsonaro ignora deliberadamente que a Justiça Eleitoral brasileira é uma das mais transparentes do mundo, com auditorias públicas, teste de integridade das urnas e observação internacional em todos os pleitos desde a redemocratização. Nenhum país que adota urnas eletrônicas com auditoria em papel registrou fraudes comprovadas em escala nacional, e o Brasil realizou seis eleições presidenciais consecutivas sob esse sistema sem qualquer indício de manipulação.
A reunião com o ministro Edson Fachin, presidente do STF, foi tratada pela pré-campanha como uma tentativa de diálogo institucional, mas na prática funcionou como uma operação de pressão política. Fachin tem um histórico consolidado de defesa da democracia e do sistema eleitoral brasileiro, tendo atuado firmemente contra as investidas golpistas durante sua gestão no TSE. A escolha de levá-lo para o centro das queixas bolsonaristas sinaliza que a estratégia é tensionar até mesmo ministros que jamais deram margem a qualquer suspeita de parcialidade.
Para além do discurso, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro enfrenta vulnerabilidades jurídicas e políticas que explicam a urgência em criar uma cortina de fumaça. O senador é investigado no caso das rachadinhas desde seu mandato como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e seu círculo próximo mantém relações financeiras controversas com figuras como o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, cuja ascensão meteórica no mercado financeiro levanta questionamentos sobre a origem dos recursos que irrigam a campanha bolsonarista.
A estratégia de vitimização judicial, contudo, carrega riscos eleitorais significativos. Em 2022, a insistência de Jair Bolsonaro em atacar as urnas foi identificada por analistas como um dos fatores que contribuíram para sua derrota, já que o eleitorado moderado rejeitou a postura antidemocrática. Flávio Bolsonaro, que nunca disputou uma eleição majoritária nacional e tem índices de rejeição comparáveis aos do pai, aposta que a radicalização é o único caminho para manter coesa a base bolsonarista.
O episódio revela, sobretudo, a dificuldade do bolsonarismo em construir uma candidatura competitiva sem recorrer ao repertório de ataques às instituições que marcou o governo de Jair Bolsonaro. Sem propostas concretas para o país, sem alianças amplas e sem um programa de governo minimamente consistente, Flávio Bolsonaro repete a tática do pai como se o Brasil não tivesse memória. Mas o país se lembra. E as urnas, em outubro de 2026, dirão se a estratégia funcionou ou se o bolsonarismo precisará de uma nova geração de desculpas para justificar sua segunda derrota consecutiva.


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