Segundo a cartacapital, a informação original serve de base para esta apuração.
As pesquisas de intenção de voto divulgadas nesta semana escancaram um fenômeno que se repete desde o início do ciclo eleitoral de 2026: a chamada terceira via não sai do lugar. Três levantamentos distintos — Nexus/BTG, Genial/Quaest e AtlasIntel — convergem no diagnóstico de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seguem com vantagem confortável sobre os demais concorrentes, enquanto os nomes que tentam se apresentar como alternativa ao bipartidarismo efetivo do país amargam desempenhos inexpressivos. A pergunta que as elites políticas insistem em não responder é: por que, afinal, esse projeto não encontra eco na sociedade?
O presidente Lula aparece na dianteira em todos os cenários testados. No levantamento Nexus/BTG, o petista marcou 42% das intenções de voto no primeiro turno, abrindo nove pontos percentuais de vantagem sobre Flávio Bolsonaro, que se consolidou como principal adversário na disputa. A Genial/Quaest confirmou a tendência, com Lula oscilando dentro da margem de erro e mantendo liderança sólida. Já a AtlasIntel, que historicamente capta melhor o eleitorado conservador, também não trouxe novidades capazes de entusiasmar os estrategistas da terceira via. O quadro é de cristalização da polarização que estrutura a política brasileira desde 2018, com os dois grandes campos organizando a disputa em torno de projetos antagônicos de país.
Os candidatos que tentam furar essa dinâmica — entre eles o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e outras lideranças que flertam com a ideia de uma candidatura de centro — não conseguem ultrapassar a casa dos dígitos baixos. Caiado, que tem investido em agendas de segurança pública para projetar seu nome nacionalmente, aparece estacionado na faixa dos 3% a 4%, dependendo do instituto. Outros nomes, como o do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e o do senador Sergio Moro (União Brasil-PR), nem sequer pontuam com relevância estatística quando seus nomes são testados. O eleitorado, simplesmente, não os reconhece como opção real de governo.
A raiz desse fracasso está na própria natureza do projeto que se convencionou chamar de terceira via. Trata-se de uma construção de laboratório, gestada em gabinetes de consultorias políticas e alimentada por setores do empresariado e da mídia que rejeitam tanto o lulismo quanto o bolsonarismo, mas sem jamais terem oferecido ao país um programa que mobilize setores sociais para além do antipetismo e do antibolsonarismo. É um projeto de elites, concebido por elites e para elites — e, por isso mesmo, incapaz de fincar raízes em um tecido social marcado por desigualdades profundas, que exigem projetos claros de transformação ou, ao menos, de proteção concreta de interesses.
Enquanto Lula governa com um programa que combina crescimento econômico, ampliação de políticas sociais e reinserção internacional soberana do Brasil, e o bolsonarismo — agora sob a liderança de Flávio — oferece ao seu eleitorado uma narrativa de guerra cultural e defesa de valores conservadores, a terceira via balbucia generalidades. Fala em gestão técnica, eficiência, união nacional e superação da polarização, mas nunca explica o que faria, na prática, com o orçamento público, com a Petrobras, com o salário mínimo, com a política externa, com a taxação dos super-ricos ou com a reforma agrária. O vazio programático não é acidente: ele decorre da impossibilidade de agradar simultaneamente aos interesses do andar de cima e às necessidades do andar de baixo.
O contraste com a experiência histórica é revelador. Em 2018, Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) ainda conseguiram somar juntos mais de 20% dos votos no primeiro turno, disputando fatias reais do eleitorado. Em 2022, Simone Tebet (MDB) chegou ao terceiro lugar com pouco menos de 5% dos votos válidos, desempenho que, embora modesto, ao menos a colocava no mapa político. Agora, em 2026, o que se vê é um encolhimento progressivo desse espaço. A tendência é que, se nenhum fato novo alterar a dinâmica, a terceira via termine o ciclo com votação ainda mais reduzida do que a de 2022, confirmando sua condição de coadjuvante irrelevante em uma eleição que será decidida, mais uma vez, pelo confronto direto entre petismo e bolsonarismo.
O dado mais revelador das pesquisas recentes não está nos números de intenção de voto dos candidatos da terceira via, mas nos índices de rejeição combinados dos dois líderes. Lula tem rejeição que oscila entre 35% e 40%, enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta resistência de cerca de 45% do eleitorado, segundo os levantamentos. Teoricamente, há um contingente de eleitores que não querem votar nem em um nem em outro — o que deveria ser o terreno fértil para uma alternativa viável. No entanto, esse eleitorado não se encanta com as opções que lhe são oferecidas, em parte porque percebe que nenhuma delas representa uma ruptura real com os interesses que mantêm o país desigual e dependente.
A insistência nesse projeto fracassado tem custos políticos concretos. Recursos públicos do fundo eleitoral e do fundo partidário são drenados para campanhas que jamais decolarão, enquanto partidos que poderiam estar disputando com força o Legislativo e os governos estaduais concentram energia em candidaturas presidenciais simbólicas. Além disso, a terceira via ocupa um espaço midiático desproporcional ao seu peso real, consumindo tempo e atenção que fariam mais sentido se dedicados ao debate substantivo entre os dois projetos que efetivamente estruturam a disputa: o programa popular e soberano de Lula e o programa de restauração conservadora representado por Flávio Bolsonaro.
As próximas semanas serão decisivas para definir se algum desses candidatos conseguirá reunir condições mínimas de competitividade — prazos partidários, convenções e o início formal da campanha pressionarão os indecisos a tomarem posição. Mas as pesquisas da semana não deixam margem para ilusões: o Brasil real já escolheu os dois polos em torno dos quais a sucessão presidencial será travada. E a terceira via, até aqui, não passa de uma miragem que as classes dirigentes insistem em projetar sobre um deserto de base social e legitimidade popular.


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