O deputado federal Kim Kataguiri anunciou neste sábado a desistência de sua candidatura ao governo de São Paulo para disputar a reeleição na Câmara dos Deputados, assumindo simultaneamente o posto de ‘superministro da Reforma do Estado’ em uma eventual gestão do também deputado Renan Santos na Presidência da República. A manobra, revelada pelo G1, representa uma peça central na reorganização tática do MBL e de seu novo instrumento partidário, o Partido Missão, que busca superar a cláusula de barreira nas eleições de 2026 para se consolidar como força política nacional.
A promessa do novo ministério — que seria um órgão transversal aglutinando atribuições de Planejamento, Casa Civil, Trabalho e Previdência — sinaliza o compromisso da legenda com uma agenda liberal radical que prevê cortar R$ 1 trilhão da estrutura pública. Kataguiri, um dos fundadores do MBL e figura de maior visibilidade midiática do movimento, assumiria a coordenação do que os aliados definem como ‘a maior reforma de Estado da história do País’, com poderes para remodelar o funcionalismo público e redefinir salários para compatibilidade com a iniciativa privada.
Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo Partido Missão, detalhou recentemente as bases do programa de governo que justificaram a criação do superministério. Entre as propostas estão uma nova reforma da Previdência com regras mais duras de acesso e a desindexação de benefícios sociais e aposentadorias do salário mínimo, medida que representaria economia de centenas de bilhões de reais anuais, mas implicaria perda real de poder de compra para milhões de beneficiários. A plataforma inclui ainda propostas de mudança legislativa profunda em segurança pública, com ‘combate radical’ a facções criminosas e defesa de uma nova Assembleia Constituinte para temas como prisão perpétua.
A reorganização do MBL em torno do Partido Missão carrega, no entanto, um histórico de controvérsias que fragiliza o discurso de renovação política. Reportagens do Intercept Brasil, em 2020, expuseram gravações de áudio nas quais a cúpula do movimento, incluindo Renan Santos, discutia abertamente a possibilidade de ‘driblar’ a legislação eleitoral adquirindo um partido em formação para acelerar o processo de registro. A manobra envolveria enganar milhares de signatários que haviam apoiado outras legendas, levantando questionamentos sobre a legalidade da fundação do Missão e a ética dos procedimentos adotados.
Internamente, a consolidação de poder de Renan Santos também gerou fissuras. Em abril deste ano, a legenda enfrentou uma onda de deserções, com ex-integrantes acusando o pré-candidato de impor uma ‘lógica de empresa familiar’ na condução partidária. Relatos de ex-membros descreveram um ambiente em que a autoridade de Santos seria incontestável e vozes dissidentes ‘eliminadas’ por meio de narrativas desqualificadoras — um padrão de governança centralizada que contrasta com o discurso liberal e horizontal que o MBL historicamente propagou.
O recuo de Kim Kataguiri do tabuleiro paulista atende a um cálculo eleitoral pragmático. Sem a candidatura de maior visibilidade no estado, o Partido Missão concentra energia na campanha presidencial e na formação de uma bancada federal robusta, condição indispensável para superar a cláusula de desempenho que garante acesso ao fundo partidário e ao tempo de televisão. Kataguiri, com seu capital político nas redes e histórico de votações expressivas, funciona como locomotiva para puxar candidaturas proporcionais e assegurar a sobrevivência institucional da legenda.
A proposta de redução drástica do número de municípios brasileiros — dos atuais 5.570 para cerca de 2.300, por meio de fusões administrativas — é outro pilar do programa que Kataguiri defenderia à frente do superministério. A medida, segundo os formuladores do Missão, geraria economia de escala e racionalização de gastos, mas encontraria resistência previsível em centenas de pequenas cidades cuja economia local depende diretamente do emprego público e do orçamento municipal como motor de atividade.
A engenharia política que uniu Kataguiri e Renan Santos no projeto nacional revela uma divisão calculada de tarefas: enquanto o primeiro ocupa o front parlamentar e a vitrine midiática, o segundo busca credenciar-se como alternativa de terceira via à direita de Bolsonaro e ao centro liberal, explorando o vácuo que a inelegibilidade do ex-presidente abre no campo conservador. A campanha presidencial de Santos opera como laboratório para testar a ressonância eleitoral de propostas que, se derrotadas em 2026, podem ser recicladas em disputas futuras com a mesma base programática.
O Partido Missão enfrenta, porém, um calendário curto e uma fragmentação do eleitorado de direita que torna incerta a transposição da cláusula de barreira. A legenda depende da atração de eleitores descontentes com o bolsonarismo e com o governo Lula, mas sem cair na irrelevância de siglas nanicas que disputam o mesmo nicho. A aposta na dupla Santos-Kataguiri é, portanto, uma tentativa de combinar radicalismo programático com tração eleitoral, usando a Câmara como trincheira de visibilidade e o ministério prometido como garantia de unidade partidária diante de futuras pressões internas.
As contradições acumuladas na trajetória do MBL — da suspeita sobre a origem do partido às acusações de autoritarismo interno — fornecem munição para adversários que explorarão o flanco da credibilidade durante a campanha. A promessa de ‘reforma do Estado’ com corte de privilégios, incluindo no Judiciário e no alto funcionalismo, precisará superar o teste de autenticidade quando confrontada com os métodos que a cúpula do movimento empregou para construir sua própria estrutura partidária, um dilema que a dupla Santos-Kataguiri carregará até as urnas de outubro.

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!