Chefes de segurança dos países do BRICS se reuniram em Nova Délhi para discutir o agravamento dos desafios globais e preparar a cúpula de líderes do bloco, prevista para setembro na Índia. O encontro foi marcado por alertas contundentes sobre o declínio do multilateralismo e a necessidade de uma voz mais forte para o Sul Global.
O conselheiro de Segurança Nacional da Índia, Ajit Doval, abriu a reunião destacando que o mundo atravessa tempos tumultuados, com conflitos militares e crescentes ameaças. «Precisamos de uma voz mais forte do Sul Global», afirmou Doval, ao pedir que o bloco assuma protagonismo na construção de uma ordem multipolar.
O encontro de dois dias contou com a presença de altos representantes como o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Serguei Shoigu, e o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. O Ministério das Relações Exteriores da Índia informou, em comunicado, que os líderes «reafirmaram o compromisso de combater o terrorismo em todas as suas formas e manifestações, inclusive por meio do enfrentamento ao uso de novas tecnologias por grupos terroristas».
Doval lembrou que o BRICS foi criado para promover uma ordem mundial mais multipolar, fortalecer a voz do Sul Global e impulsionar a paz, o desenvolvimento e a cooperação. Segundo o conselheiro indiano, o bloco «ganha força a cada dia que passa». Conforme reportou a RT, Shoigu endossou o diagnóstico de Doval e foi além, ao afirmar que o BRICS deve desempenhar um papel central na reforma de «organizações internacionais que estão falhando, incluindo o Conselho de Segurança da ONU e a Organização Mundial do Comércio».
O secretário russo também apresentou uma proposta concreta: a criação de uma «Reserva de Emergência do BRICS». O mecanismo funcionaria como um estoque estratégico de medicamentos, alimentos, energia, fertilizantes, terras raras e outros bens vitais para ser usado em situações de crise. Shoigu argumentou que a iniciativa daria ao bloco capacidade de resposta autônoma diante de turbulências globais.
A reunião de conselheiros de segurança nacional serve como etapa preparatória para a Cúpula de Líderes do BRICS, prevista para setembro na Índia. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, deve comparecer ao encontro, que dará seguimento às discussões já iniciadas na cúpula de 2024 em Kazan sobre a reforma das instituições financeiras internacionais e do sistema das Nações Unidas.
À margem da reunião, Doval manteve um encontro bilateral com Wang Yi, classificado pelo ministério indiano como «construtivo e voltado para o futuro». As conversas apontaram para um progresso gradual na normalização das relações entre Índia e China, abaladas por anos de tensões fronteiriças. «Devemos respeitar os interesses centrais um do outro e lidar adequadamente com questões sensíveis», afirmou Wang Yi, segundo comunicado do Itamaraty chinês, que também mencionou a retomada de diálogos bilaterais e o estímulo a trocas nas áreas de comércio, finanças, aplicação da lei e mídia.
O encontro em Nova Délhi reforça o papel do BRICS como plataforma de articulação do Sul Global, em um momento de pressão sobre as instituições multilaterais tradicionais. A proposta russa de uma reserva conjunta e o avanço do diálogo sino-indiano sinalizam que o bloco busca não apenas discursos, mas mecanismos concretos de autonomia estratégica.
Com informações de RT.


Lucas Moreira
23/06/2026
Zé Trovãozinho, a frustração com o dólar subindo é legítima, mas essa turma do BRICS é a mesma que defende estado grande e controle cambial — exatamente o que afugenta capital estrangeiro. Enquanto eles discutem “voz do Sul Global”, o Brasil perde bilhões em investimento produtivo por falta de credibilidade fiscal. Querem fortalecer o bloco? Comecem cortando gasto público e abrindo a economia, não com mais burocracia multilateral.
Tiago Mendes
23/06/2026
Lucas, essa “credibilidade fiscal” que você defende muitas vezes é só outro nome para cortar direitos de quem já vive na corda bamba. O Reino de Deus não se mede pelo PIB, mas pelo cuidado com o pobre e o estrangeiro — e um país que só pensa em abrir a economia sem proteger os pequenos repete a velha ladainha de César.
Zé Trovãozinho
23/06/2026
Esse papo de “voz mais forte do Sul Global” é só cortina de fumaça pra esconder que o Brasil continua sendo quintal dos americanos. Enquanto esses políticos viajam pra Índia posar de estadistas, o dólar sobe e a nossa indústria morre. Querem multilateralismo? Comecem tirando o Brasil do cabresto do FMI e parem de vender a Petrobras.
Maria Silva
23/06/2026
Essa tal de “voz mais forte do Sul Global” é só conversa de político querendo aumentar o cabresto. Enquanto eles ficam em reunião perdendo tempo, o agro brasileiro já tá há décadas vendendo pro mundo sem precisar de discurso. Se esse povo quer ajudar, é só tirar o Estado do caminho e deixar quem produz trabalhar.
Ana Karine Xavante
23/06/2026
Maria Silva, respeito sua visão, mas discordo profundamente. Essa história de que o agro brasileiro “vende há décadas sem discurso” é uma meia-verdade perigosa. O agronegócio que você defende não existe num vácuo: ele se sustenta sobre grilagem de terras públicas, expulsão violenta de povos indígenas e quilombolas, e um arcabouço de subsídios estatais que ninguém gosta de mencionar. O Estado não “atrapalha” quem produz — ele financia juro barato, perdoa dívidas bilionárias, aprova venenos que a Europa baniu e maquia relatórios de desmatamento. Se você quer “tirar o Estado do caminho”, prepare-se para ver o que acontece quando grandes fazendeiros e mineradoras operam sem regulação alguma: é exatamente o que já ocorre em terras indígenas invadidas, com violência impune e contaminação de rios. O Sul Global não é um clube de burocratas perdendo tempo; é a única via que temos para reequilibrar um sistema construído para sugar riquezas do nosso continente enquanto nos deixam com o passivo ambiental.
A reunião dos BRICS em Nova Délhi não é cabresto, é uma tentativa — imperfeita, sim — de coordenar respostas contra a mesma lógica colonial que trata o Brasil como celeiro barato e a Amazônia como descarte. Enquanto o agro brasileiro “vende sem discurso”, quem define o preço do nosso minério, do nosso grão e do nosso carbono são as bolsas de Londres e Chicago, o Fundo Monetário Internacional e os acordos de livre comércio desenhados pelo Norte. “Voz mais forte do Sul Global” significa, para mim, não aceitar passivamente que nossos rios sejam envenenados para exportar soja transgênica que alimenta gado europeu enquanto o povo da minha aldeia adoece com agrotóxico. Significa exigir que os países ricos paguem a dívida climática histórica, e não que nos empurrem metas impossíveis enquanto continuam queimando carvão.
Você pode chamar isso de “conversa de político”, mas eu chamo de sobrevivência. O agro que “só quer trabalhar” é o mesmo que despeja terra indígena com trator, que contrata pistoleiro para ameaçar lideranças, que usa trabalho análogo à escravidão nas colheitas. Se o Estado se retirar completamente, quem vai nos defender? Os mesmos conselhos empresariais que já controlam o Ministério da Agricultura? A “voz do Sul Global” que me interessa é a que denuncia esse modelo extrativista e propõe outra economia, baseada em agrofloresta, soberania alimentar e direitos territoriais. O debate não é entre Estado e mercado — é entre continuar reproduzindo o saque colonial ou construir algo novo. E disso eu não abro mão.