As forças de defesa de Israel estão atualizando planos para uma possível retomada das operações contra os Houthis no Iêmen, segundo revelou o analista geopolítico Larry Johnson durante entrevista ao Dialogue Works. Embora não haja no momento uma justificativa evidente, ele alertou que Israel pode fabricar um pretexto, como o lançamento de mísseis balísticos contra seu território. “Isso seria uma tolice, porque os iemenitas vão revidar e causar danos significativos”, afirmou Johnson, destacando o histórico de retaliação efetiva do grupo apoiado pelo Irã.
Paralelamente, a comissão de inquérito da ONU divulgou um relatório contundente sobre a morte de um adolescente palestino de 14 anos em Khan Yunis. Soldados israelenses atiraram no garoto quando ele saía de casa, deixaram-no sangrar por 45 minutos enquanto conversavam e fumavam, e ainda dispararam contra a mãe que tentava socorrê-lo. Para Johnson, as evidências são “horríveis” e remetem a métodos que os próprios judeus condenaram no Holocausto. “Em vez de ‘nunca mais’, eles estão fazendo de novo, da forma mais brutal e desumana. Depois se perguntam por que estão perdendo apoio nos Estados Unidos”, declarou o analista.
Em resposta às críticas, o embaixador israelense na ONU, Danny Dannon, pediu uma investigação sobre viés antissemita nos relatórios das Nações Unidas. Para Johnson, trata-se de uma tentativa de desviar o foco das atrocidades ao rotular qualquer crítica como antissemitismo, inclusive contra judeus como Norman Finkelstein, filho de sobreviventes do Holocausto. “Esses extremistas sionistas tentam decidir quem é judeu ou não para justificar ataques horríveis a crianças”, ressaltou.
No campo diplomático, Larry Johnson destacou o papel crescente do Paquistão na nova arquitetura de segurança do Golfo. Após o assassinato do presidente do parlamento iraniano, o Paquistão ofereceu ajuda de inteligência e política que, segundo ele, interrompeu a série de assassinatos seletivos de altos funcionários no Irã. “O Paquistão tem sido um mediador honesto e vai participar do guarda-chuva nuclear que será oferecido à Arábia Saudita”, disse Johnson, revelando que representantes paquistaneses voarão em breve para Riad a fim de selar o acordo. Ele também mencionou a intervenção paquistanesa para impedir que os iranianos abandonassem as conversas em Genebra diante de insultos de Donald Trump.
O analista comentou ainda as negociações entre Israel e Líbano, classificando-as como infrutíferas porque o governo libanês não tem controle sobre o Hezbollah, principal força de resistência. Segundo Johnson, o objetivo inicial israelense era buscar ajuda libanesa contra o grupo, mas o presidente libanês rejeitou a ideia, e agora Israel precisa encontrar uma forma de recuar sem parecer uma retirada. “O Hezbollah tem infraestrutura para derrotar qualquer invasão. A Síria não tem capacidade logística para uma operação dessas, apesar das bravatas de Trump”, avaliou.
Por fim, Johnson alertou que a crise no Estreito de Ormuz continua artificialmente alimentada por Washington. Dados de rastreamento marítimo mostram navios petroleiros deixando a região, mas quase nenhum chegando. “O petróleo que está fluindo não vai para os Estados Unidos, vai para a China. Enquanto isso, o preço real do barril já ultrapassa US$ 100, muito acima do valor de referência. É uma ilusão achar que a crise acabou”, concluiu o especialista.

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!