Especialista afirma que a parceria entre Egito e China combina desenvolvimento, soberania e cooperação para servir de referência a países do Sul Global
O laço entre Egito e China vive, atualmente, um dos momentos mais sólidos de sua história. É o que defende a pesquisadora egípcia Rania Aboelkheir, secretária-geral do think tank Global Forum for Future Studies, sediado no Cairo. Em entrevista recente à Xinhua, ela descreveu a parceria bilateral como um “modelo estratégico” capaz de inspirar outras nações do Sul Global a estreitarem laços entre si.
Segundo a especialista, três frentes sustentam essa aproximação: uma coordenação diplomática cada vez mais próxima, a ampliação da cooperação econômica e o fortalecimento contínuo da parceria estratégica entre os dois países. Além disso, ela destaca que essa combinação não surgiu do acaso, mas de décadas de construção conjunta.
Aboelkheir explica que a relação entre Cairo e Pequim se apoia em uma base política e civilizacional de longa data. Por isso, ela ressalta que interesses econômicos e estratégicos amplos transformaram o Egito e a China em parceiros essenciais tanto no cenário regional quanto internacional.
Vale lembrar, aliás, que o Egito ocupa um lugar simbólico nessa história: foi o primeiro país árabe e africano a reconhecer oficialmente a República Popular da China. Desde então, a China consolidou-se como um dos principais parceiros comerciais do país africano, ampliando o alcance de uma relação que começou no campo diplomático e se espalhou para outras áreas.
Diante desse cenário, a pesquisadora se mostra otimista quanto aos próximos passos. Ela afirmou que “o importante progresso nas relações bilaterais confirma um futuro promissor em todos os níveis e oferece amplas perspectivas para uma cooperação mais profunda e laços mais estreitos, especialmente dada a convergência das visões dos dois países”.
Investimentos chineses moldam grandes projetos egípcios
Ao longo dos últimos anos, empresas chinesas passaram a desempenhar um papel relevante no fortalecimento da economia egípcia. Isso ocorre, principalmente, por meio de investimentos diretos em infraestrutura e em projetos industriais de grande porte, conforme detalhou Aboelkheir.
Entre os exemplos mais emblemáticos, ela cita a Zona de Cooperação Econômica e Comercial China-Egito TEDA Suez, localizada em Ain Sokhna. Também menciona o Distrito Comercial Central, erguido na Nova Capital Administrativa do Egito. Esse distrito, aliás, abriga a Torre Icônica, atualmente o edifício mais alto de todo o continente africano.
Além dos projetos já concluídos, o Egito segue buscando ativamente novos aportes chineses. Assim, o país mira setores como infraestrutura, cidades inteligentes, tecnologia, economia verde, educação e turismo. Para isso, o governo egípcio aposta no alinhamento entre a Iniciativa Cinturão e Rota, promovida pela China, e a própria Visão 2030, plano de desenvolvimento nacional do Egito. Dessa forma, as duas estratégias caminham lado a lado, reforçando objetivos comuns.
Iniciativas globais chinesas ganham destaque no Sul Global
Para além da relação bilateral, Aboelkheir também elogiou um conjunto mais amplo de propostas lançadas pela China nos últimos anos. Entre elas estão a Iniciativa Cinturão e Rota, a Iniciativa Global para o Desenvolvimento, a Iniciativa Global para a Segurança, a Iniciativa Global para a Civilização e a Iniciativa Global para a Governança.
Segundo a pesquisadora, essas iniciativas representam alternativas de desenvolvimento mais equitativas para os países do Sul Global. Isso porque, em sua avaliação, elas dispensam condicionalidades consideradas injustas, frequentemente impostas por modelos tradicionais de cooperação internacional.
Ela ainda observou que essas propostas apoiam o Sul Global em múltiplas dimensões, tanto política quanto economicamente. Isso acontece, sobretudo, ao resguardar a soberania nacional dos países envolvidos. Da mesma forma, essas iniciativas rejeitam qualquer interferência nos assuntos internos das nações parceiras. Por fim, elas colocam a diplomacia como caminho preferencial para resolver conflitos, evitando recorrer à guerra como solução.
Financiamento sem interferência política
Outro ponto destacado pela especialista envolve o papel da China no financiamento de infraestrutura ao redor do mundo. Segundo ela, esses investimentos ajudam a fortalecer a conectividade entre economias em desenvolvimento, além de aproximar essas economias dos mercados globais.
Nesse contexto, Aboelkheir cita instituições financeiras multilaterais lideradas pela China, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e o Novo Banco de Desenvolvimento. Ambas as instituições, segundo ela, oferecem financiamento flexível para projetos de desenvolvimento. Assim, diferentemente de modelos tradicionais, esse tipo de apoio não interfere nas políticas internas dos países beneficiados.
Aboelkheir já visitou a China diversas vezes e participou de vários eventos promovidos por instituições chinesas. Por conta dessa proximidade, ela reforça o grande interesse de seu think tank pelo papel global do país asiático.
Para ela, esse interesse está enraizado em valores políticos e princípios humanitários que promovem justiça e igualdade entre as nações. Diante disso, a especialista conclui que o exemplo construído entre Egito e China pode, cada vez mais, servir de referência para outros países que buscam parcerias mais equilibradas e menos dependentes de imposições externas.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!