Uma bateria de pesquisas divulgadas nas últimas duas semanas converge para um mesmo diagnóstico: o eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é hoje o mais instável entre os principais nomes da disputa presidencial de 2026. A mais recente evidência vem da pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta terça-feira (21), que testou a “dureza” do voto perguntando aos entrevistados se trocariam de candidato no primeiro turno caso percebessem que sua opção não tem chance de vencer o adversário que mais rejeitam. Entre os eleitores de Flávio, 67% admitiram a possibilidade de mudar de voto, contra apenas 33% que descartaram a hipótese.
Caso o senador do PL de fato não participasse da disputa, o levantamento também perguntou para onde iria esse eleitorado: 25% migrariam para o governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), 22% para Renan Santos (Missão), 20% para Romeu Zema (Novo) e 10% para Joaquim Barbosa (DC) — que, vale registrar, já desistiu da candidatura. A pesquisa ouviu 2 mil eleitores entre 18 e 20 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais, e está registrada no TSE sob o protocolo BR-05864/2026.
Um padrão que se repete em pesquisas concorrentes
O dado da Real Time Big Data não é isolado — ele reforça um movimento que instrumentos metodologicamente distintos já vinham capturando ao longo de julho. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 13 de julho, mostrou que o grupo de eleitores que prefere um candidato de “terceira via” — sem o apoio nem de Lula, nem de Jair Bolsonaro — saltou de apenas 11% em março para 27% no mês passado, aproximando-se do próprio patamar de preferência pelo campo bolsonarista (32%). A mesma rodada da Nexus revelou um fenômeno mais sutil: quando o eleitorado é segmentado por perfil de polarização, uma fatia do bolsonarismo migrou para a categoria de “eleitores não polarizados” sem, no entanto, abandonar de fato o voto em Flávio no confronto direto — um comportamento que analistas descreveram como o núcleo bolsonarista deixando de “dizer seu nome” publicamente, mesmo mantendo a intenção de voto.
Já a pesquisa Genial/Quaest da mesma semana (15 de julho) mostrou queda na preferência espontânea por Flávio tanto entre a direita não bolsonarista quanto entre os bolsonaristas convictos — com os indecisos superando, em ambos os grupos, os que citam o nome do senador.
Segundo turno também mostra avanço de Lula
No cenário de confronto direto medido pela Real Time Big Data, Lula aparece com 45% contra 42% de Flávio — tecnicamente um empate, mas uma trajetória de recuperação do presidente: em junho, a distância era de cinco pontos (45% a 40%); em maio, Flávio chegou a superar Lula por 44% a 43%. A oscilação coincide, no calendário, com dois episódios que desgastaram a imagem do senador: a repercussão de suas conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o anúncio de novas tarifas do governo Trump sobre produtos brasileiros — movimento que a oposição a Flávio associa à sua própria articulação com Washington.
Caiado como principal beneficiário da fragmentação
O nome de Ronaldo Caiado desponta, em múltiplos levantamentos, como o destino preferencial de um eleitorado bolsonarista em transição. Na própria pesquisa Nexus de 13 de julho, Caiado já aparecia como o nome mais citado entre os que buscam alternativa à polarização, ainda que com apenas 5% no cenário estimulado de primeiro turno — e com índices de desconhecimento superiores a 30% do eleitorado, sinal de que sua candidatura ainda está em fase de apresentação nacional. Na Real Time Big Data desta terça, esse potencial de crescimento aparece de forma ainda mais marcante: pela primeira vez, o governador goiano surge numericamente à frente de Lula em simulação de segundo turno (44% a 43%), embora dentro da margem de erro.
Uma direita ainda sem consenso
O quadro geral, quando somadas as diferentes pesquisas de julho, sugere uma direita brasileira em processo de reorganização: o desgaste de Flávio Bolsonaro parece real e mensurável por institutos com metodologias distintas, mas ainda não se traduziu em consolidação em torno de um nome alternativo. A dispersão do voto de fuga — entre Caiado, Renan Santos e Zema, sem concentração clara em nenhum deles — indica que o espaço aberto pelo enfraquecimento do bolsonarismo tradicional segue, por ora, mais como oportunidade em aberto do que como candidatura consolidada.
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