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O vacilo de Agnelli

Por Miguel do Rosário

08 de dezembro de 2011 : 15h13

Vacilo é um eufemismo. O erro do ex-presidente da Vale, Roger Agnelli, tem colorações trágicas. Em 2008, auge da crise financeira mundial, o Brasil vivia um momento de grande tensão, por causa do receio de que o movimento de expansão da nossa economia fosse mais uma vez interrompido, e o desemprego voltasse a grassar. Lula pediu aos empresários que continuassem investindo e ao povo que continuasse consumindo, e fez o possível para tranquilizar a todos com suas declarações que logo se tornaram incendiárias polêmicas políticas, como quando disse que a crise seria apenas uma “marolinha”. A oposição reagiu furiosamente, fazendo um verdadeiro terrorismo econômico. Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja, passou a publicar exclusivamente matérias negativas, sob o chapéu, “marolinha do Lula”.

É sabido o quanto os mercados são vulneráveis a essas ondas de pânico. Entretanto, o terrorismo midiático não pode fazer nada além de interpretações tendenciosas e seleção parcial das notícias.

O que, de fato, representou uma facada nas costas do Brasil, naquele ano, foram as decisões de duas grandes empresas nacionais, duas empresas que, embora privatizadas, recebiam enormes volumes de financiamento dos bancos públicos: Vale e Embraer anunciaram demissões em massa. A Vale foi além: decidiu renovar a sua estratégia de adquirir navios no exterior.

Pois bem, gastos mais de US$ 8 bilhões no exterior, gerando empregos para China (que não precisa de nenhum favor nosso, ela vai muito bem, obrigado), hoje sabemos que o negócio todo foi um grande mico. Os navios são grandes demais e não entram em quase nenhum porto, sobretudo não conseguem aportar na China, que é o principal destino do minério brasileiro.

E o Globo me faz uma matéria intitulada “Desafio à vista no caminho da Vale”!

Ou seja, diante de uma demonstração de incompetência deste porte, agravada pelas circunstâncias em que ela se deu, o Globo praticamente elogia a empresa e poupa Agnelli.

 

Ah, no caso da Embraer, boa parte dos demitidos, gente com quase vinte anos de especialização, foi contratada pela Bombardier, rival canadense. Passados dois anos, o mercado de aviões voltou a crescer. E hoje vemos a Delta pagar US$ 100 milhões por 3% da Gol, mesmo tendo a companhia brasileira amargado prejuízo de R$ 516 milhões no trimestre, pois acredita que o Brasil será o quarto maior mercado aéreo do mundo dentro de pouco mais de 3 anos.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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